Recessão: até quando e como sair? (Portal do Corecon/RS, 06/11/2015)

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Recessão: até quando e como sair?

jose luis da costa oreiro

José Luis da Costa Oreiro
Economista (Corecon/RJ nº 23031)
Professor do Instituto de Economia UFRJ, Presidente da Associação Keynesiana Brasileira (2013-2015)
Pode-se dizer que a recessão pela qual passa o País foi o resultado do ajuste fiscal do ministro Joaquim Levy?

Nos últimos 12 meses a economia brasileira foi atingida por uma série de choques que colocaram o PIB em rota decrescente. Em primeiro lugar tivemos os impactos negativos da operação lava-jato sobre os contratos e os investimentos da Petrobras. Em segundo lugar, a rápida deterioração dos termos de troca, basicamente das commodities metálicas, o que implicou numa redução do valor das exportações em dólares. Por fim, a incerteza causada pela crise política, a qual levou ao adiamento das decisões de investimento. Portanto, tudo isso antecede o ajuste fiscal.

Mas o ajuste fiscal não pode aprofundar a recessão?

Não necessariamente. No modelo keynesiano simplificado dos livro-textos introdutórios de macroeconomia é verdade que uma contração fiscal leva a uma queda do nível de atividade econômica e emprego. Mas a realidade é mais complexa do que isso. Numa pequena economia aberta com mobilidade de capitais como a brasileira, o desajuste fiscal induz a um aumento do prêmio de risco-país, o que, por sua vez, produz uma forte desvalorização cambial, cuja consequência é uma pressão sobre a inflação, obrigando, assim, o Banco Central a aumentar ainda mais os juros e, com isso, há o aprofundamento da recessão.

Então tudo o que o País precisa para retomar o crescimento é fazer o ajuste fiscal?

O ajuste fiscal é condição necessária, mas não suficiente para a retomada do crescimento. O crescimento potencial da economia brasileira se reduziu nos últimos anos devido à desindustrialização e à consequente regressão da estrutura produtiva. Para que o crescimento seja retomado a taxas mais robustas é indispensável reindustrializar o Brasil. O ajuste fiscal, por si só, não vai resolver esse problema que é de natureza estrutural.

Como a política macroeconômica pode ajudar no processo de reindustrialização?

A contribuição fundamental da política macroeconômica para o processo de re-industrialização é assegurar uma taxa real de câmbio competitiva, estável e sustentável no longo-prazo. Para tanto será necessário introduzir uma meta de câmbio real para a política macroeconômica. Tanto a política monetária como a política fiscal deverão atuar, conjunta e coordenadamente, para alcançar e manter essa meta no médio e longo-prazo.

Qual seria o valor competitivo para a taxa de câmbio no Brasil hoje?

O centro de estudos do novo-desenvolvimentismo da FGV-SP, coordenado pelo professor Nelson Marconi, estima que a taxa de câmbio competitiva – aquela que permite que as empresas industriais brasileiras que operam com tecnologia no estado da arte mundial sejam competitivas no mercado internacional – deve ser de R$ 3,60. Isso significa que, no momento, estamos com uma taxa de câmbio ajustada. Agora é cuidar para não deixar o câmbio se apreciar de novo.

Link da matéria: http://www.coreconrs.org.br/economia-em-dia/252-recessao-ate-quando-e-como-sair.html.

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5 opiniões sobre “Recessão: até quando e como sair? (Portal do Corecon/RS, 06/11/2015)”

  1. Antonio Jose disse:

    Muito boa intervenção, Professor. Aproveito para perguntar em que medida o desajuste fiscal brasileiro não vem sendo exagerado, em especial, pelos homens de banco. O próprio diretor geral da OCDE reconhece que as agências de rating, por exemplo, se tornaram muito cautelosas e tentam, a todo custo, se desvencilhar da má reputação adquirida em 2008.

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  2. Gostaria, por gentileza, de que sua pessoa pudesse me apontar em qual livro de Economia posso encontrar a teoria que explique que uma operação policial é capaz de produzir uma recessão ? Grato pela atenção.

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  3. O mesmo livro que diz que a Petrobrás é responsável por 10% da FBKF no Brasil e diz que o Presidente e a Diretoria são responsáveis civil e criminalmente por quaisquer irregulariedades na administração da Empresa. Eu na lugar do Benidini, suspenderia todos os investimentos e contratos da Petrobrás até ter certeza que não há nenhuma irregulariedade com eles … voce faria o que? Saudações

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  4. Nenhuma operação policial tem capacidade de produzir recessão. A questão reside na forma como a idéia foi redigida. Considerando a redação ” . . .a interrupção ou refreamento dos contratos do pré-sal, considerando que a Petrobras corrobora para 10% do FBKF, em função de mudanças operacionais e administrativas, decorrentes da queda do preço internacional do petróleo, bem como da influência da descoberta de escândalos corruptivos, ajudou a promover, em parte, o cenário recessivo que se instalou no país . . .”, muda completamente o entendimento, deixando manifesto que o articulista não faz defesa do partido, mas sim da economia enquanto ciência.

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  5. Tudo isso está subentendido no que eu disse na entrevista. A mesma era um ping-pong, o que demandava respostas curtas para as perguntas formuladas. É claro que é sempre possível escrever um compêndio para tratar de qualquer questão, de forma e dirimir quaisquer dúvidas, correntes, futuras ou existentes apenas numa outra dimensão. Por fim, não há nada na minha entrevista que permita o leitor, por mais desavisado que esteja quanto a minha repulsa aos governos do PT, concluir que eu estou defendendo o partido.

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