Tags

Consultorias preveem que relação dívida/PIB permanecerá em trajetória de alta até 2025

4E Consultoria prevê ascensão da dívida até o pico de 76% em 2020 (Marcos Santos/USP Imagens)
4E Consultoria prevê ascensão da dívida até o pico de 76% em 2020 (Marcos Santos/USP Imagens)

SÃO PAULO – O ambiente político conturbado que dificulta a aprovação do ajuste fiscal, os juros altos e a recessão colocaram a dívida bruta do país em trajetória de alta que elevará a proporção dos atuais 65,3% do Produto Interno Bruto (PIB) para mais de 70% em 2016, de acordo com economistas ouvidos pelo O Financista.

“A trajetória de alta da dívida é, indiretamente, consequência política. Na medida em que o país não consegue cumprir medidas de ajuste fiscal que melhorem a poupança primária”, afirma Fábio Klein, analista de finanças públicas da Tendências Consultoria.

Mais grave que isso, o cenário econômico deteriorado deve manter a relação dívida bruta/PIB acima deste patamar por mais de 10 anos e dificultar a retomada do grau de investimento – já considerado pelo mercado como perdido pelas 3 principais agências de rating.

“Não existe nenhuma possibilidade de a dívida bruta cair em um contexto de déficit primário e taxa de juros real que é muito maior que a taxa de crescimento”, diz o economista e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), José Luis Oreiro.

Dessa forma, para a Fitch e a Moody’s acompanharem a decisão da Standard and Poor’s (S&P) de rebaixar o país para grau especulativo é questão de tempo.

“Dívida bruta acima de 70% é considerada por muitas agências como grau crítico e essa questão acaba sendo um divisor de águas”, afirma Juan Jensen, economista e sócio da 4E Consultoria, que prevê ascensão da dívida até o pico de 76% em 2020 e a partir de então a trajetória deve ser de queda, mas ficará abaixo de 70% apenas em 2030 (69,1%).

“Enquanto tivermos uma trajetória ascendente da dívida bruta sobre o PIB dificilmente teremos qualquer tipo de melhora no rating”, explica Jensen. Isso não significa que o país permanecerá em grau especulativo até 2030, uma vez que as agências percebem a mudança na dinâmica com alguma antecedência.

Assim, Jensen prevê que o Brasil amargue no purgatório da especulação por um período de 8 a 10 anos. “É custoso recuperar o grau de investimento. Tem que ter uma continuidade de bons indicadores econômicos antes da dívida ficar abaixo de 70%, condizente com uma trajetória econômica razoável e com uma política fiscal consistente”, explica.

Fábio Klein prevê o teto da dívida bruta em 71,7% em 2025. “Outras variáveis, no nosso cenário, começam a melhorar um pouco antes disso, com uma mudança na curva ascendente por um ambiente político um pouco melhor. São sinais positivos que podem permitir decisão mais favorável [das agências de rating], mas no curto prazo não tem reversão”, diz.

política fiscal é um dos principais problemas do Brasil hoje e a falta de perspectivas positivas é importante fator para degradação da dívida bruta e sua contaminação para a avaliação da economia como um todo.

“No Brasil é mais complicado [ter dívida acima de 70%], porque o país cresce pouco, os juros são muitos elevados e isso faz com que o serviço da dívida seja muito alto e precisemos de um resultado primário também alto”, justifica o economista da Tendências. “Para um pais como o nosso, 70% de dívida já muito custoso, é um limite perigoso.”

Para o professor da UFRJ, a dívida de 70% “não é um número mágico” para o rating em grau especulativo se estivesse associada a superávit acima de 2% do PIB e crescimento econômico entre 2% e 2,5% com taxa de juros real em torno de 5%. Mas definitivamente essa não é a realidade brasileira.

Novo governo, novos ares

O impeachment não faz parte do cenário-base dos economistas, mas o fim do segundo mandato de Dilma Rousseff deve trazer novo fôlego para a economia e, por consequência, para a dívida bruta.

A percepção de que uma mudança de governante – seja quem for que assuma o país a partir de 2019 – facilitará a aprovação de medidas no Congresso que beneficiem a economia é unânime entre os entrevistados.

“Reformas estruturais serão importantes, um pouco mais amplas e que permitam uma economia mais sustentável no longo prazo”, afirma Klein. “Uma mudança de governo cria uma perspectiva mais esperançosa em relação ao futuro”, acrescenta.

Mais impostos

Se a política fiscal é um problema, a solução passa pelo aumento de impostos. Dói no bolso, mas ajustes são necessários para que o país consiga o tal superávit primário que cria uma poupança para o pagamento das dívidas dos país.

Jensen acredita que o governo não conseguirá a aprovação da CPMF no Congresso e precisará lançar mão de impostos que não passam pelo crivo dos parlamentares, como a Cide. Também podem fazer parte do arsenal para elevar a arrecadação o aumento do imposto de renda e das taxas sobre heranças.

Anúncios