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As previsões mais sombrias para a economia brasileira estão se confirmando. E, se a deterioração continuar na velocidade que se viu nos últimos meses, da recessão que assusta a todos, o país poderá mergulhar na depressão. Essa visão pessimista se baseia nas dificuldades que o governo enfrenta para resgatar a confiança. A presidente Dilma está ameaçada pelo impeachment e o ajuste fiscal prometido pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, dificilmente sairá do papel. A perspectiva é de que o Produto Interno Bruto (PIB) caia pelo menos 3% neste ano e 1% em 2016. Há o risco de, também em 2017, haver contração da atividade, caso a crise política deixe a chefe do Executivo sangrando, sem condições de tocar os projetos que o Brasil tanto precisa para sair do atoleiro.

Na opinião do economista Jorge Arbache, professor da Universidade de Brasília, o quadro atual é dramático, e não há luz no fim do túnel, como disse Dilma. Para ele, dada a atual conjuntura política e econômica, de inflação alta, aumento do desemprego, juros subindo, renda em queda e crédito escasso, o PIB só voltará a ter variação positiva em 2017, mesmo assim, pequena, de 0,5%. “Os problemas são muito sérios. Este ano está ruim, mas eu aviso: em 2016, a situação vai piorar e o desemprego aumentará mais. A população terá saudades de 2015”, disse.

Segundo o acadêmico, o país está caminhando para uma depressão da qual, para sair, levará anos. “O empobrecimento do país é explícito”, afirmou. Pelas contas dela, a renda per capita, que é a divisão de todas as riquezas produzidas em um ano pela população, vem encolhendo desde 2014 e continuará em queda até 2017. “Teremos, nesse período, uma queda de 7,45% no PIB per capita. Por isso, a recuperação vai demorar mais. Somente neste ano, a perda será de quase 4% e, no ano que vem, de 2,5%”, frisou, destacando que parte dessa queda é explicada pela inflação alta neste ano, de 10%, e no próximo, de 6,5%.

Desgosto
Para José Luís Oreiro, professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ainda não é possível falar em depressão econômica, pois os juros no Brasil estão muito altos e há espaço para o Banco Central reduzi-los rapidamente e, assim, estimular a atividade econômica. Além disso, alguns benefícios aos mais pobres, como o Bolsa Família, não vão acabar de uma hora para outra, o que permitirá que o quadro não se agrave tanto como o de uma depressão, com vários anos de desemprego elevado e de queda na atividade econômica, fechamento de empresas e de bancos. “O nosso sistema financeiro é muito sólido. Isso não deve ocorrer tão facilmente. A economia deverá voltar a crescer no fim do ano que vem”, apostou.

No entender do diretor do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos do Bradesco, Octávio de Barros, apesar do quadro de fortes incertezas na área política, a economia brasileira deverá registrar retração neste ano e no próximo, mas voltará a crescer em 2017, quando o PIB avançará 1,5%, depois de encolher 3% neste ano e 1%, no próximo, conforme as suas mais recentes previsões. “Não consideramos no cenário base nenhuma alteração de governo”, avisou. Nas projeções de Barros, o principal motor do crescimento sustentado, o investimento, deverá continuar encolhendo. Para este ano, o tombo será de 11% e, em 2016, de 2%.

O economista Cláudio Porto, presidente da consultoria Macroplan, disse que a situação atual da economia é muito preocupante, mais ainda não se pode caracterizá-la como o de uma depressão. “Não consigo enxergar um cenário de depressão para o país, embora a atual recessão seja muito severa. A economia está se deteriorando numa velocidade que ninguém imaginava”, pontuou. “O desemprego está aumentando e os mitigadores dos riscos que podem levar à depressão, que são os gastos públicos, estão encolhendo. Com isso, as empresas e os investidores estão tendo um comportamento defensivo que favorece a piora do quadro recessivo. A incerteza é muito grande”, afirmou.

Precipício
Segundo Porto, a falta de traquejo político do governo é que vem piorando o quadro econômico. “Enquanto persistir a crise política, continuaremos nesse ambiente recessivo. Se ela não for solucionada nos próximos meses, o país destruirá muita riqueza. Vamos retroceder muitos anos. Antes de melhorar, ainda vai piorar muito”, alertou. Para ele, é inadmissível que um país como o Brasil, com um potencial enorme, esteja passando um momento tão complicado. “Muitas empresas estrangeiras continuam aqui porque sabem o tamanho do mercado interno, que não pode ser desprezado. Mas como as incertezas são tantas na política, eles não investem”, disse. “A leitura que a gente faz para o quadro atual é que estamos num pântano e temos o grande perdedor: a classe média, inclusive a nova, que se beneficiou muito do período de crescimento”, completou.

No governo, o clima é de apreensão. Apesar de o ministro da Fazenda difundir um discurso otimista, boa parte da equipe econômica já admite que o país terá pelo menos dois anos de recessão, fato que não se vê desde 1930 e 1931. Havia a expectativa de que, com as mudanças no ministério, que deram mais espaço ao PMDB, a presidente Dilma conseguisse virar o jogo. Mas o que se viu nos últimos dias foi um enfraquecimento maior do governo. Com isso, o ajuste fiscal, que inclui a aprovação da CPMF, ficou mais difícil. E sem o ajuste não há como se falar em retomada da confiança. “Estamos caminhando para o precipício. E só a presidente da República pode reverter esse processo”, assinalou um técnico com trânsito no Planalto.

Ajuda do câmbio
O economista José Luís Oreiro, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), acredita que as exportações ajudarão o Brasil a sair do atoleiro no ano que vem. “O efeito da alta do dólar ainda não foi percebido na vendas externas do país. Creio que o real mais fraco favorecerá, sobretudo, os manufaturados, impulsionando a indústria”, destacou.

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