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Fernando Dantas

07 outubro 2015 | 09:38

Apoio ao ajuste de Levy e Barbosa vai além do campo liberal, e envolve também “novos desenvolvimentistas”. Equipe econômica poderia explorar esse amplo arco ideológico de suporte.

A crise econômica esquentou o debate público no Brasil entre as diferentes correntes de economistas. Após uma saraivada de diagnósticos e recomendações por parte dos ortodoxos, chegou a vez dos heterodoxos, que recentemente divulgaram dois documentos: um deles, intitulado “Por um Brasil Justo e Democrático”, foi realizado por diversas entidades, como o Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento, a Rede Desenvolvimentista e a Fundação Perseu Abramo; o outro é do “Grupo de Reindustrialização”, coordenado por Yoshiaki Nakano, diretor da Escola de Economia de São Paulo (EESP/FGV-SP).

Nessa discussão, a política econômica do primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff está órfã. Os ortodoxos, naturalmente, acham que a chamada “nova matriz econômica” foi uma das causas principais da crise atual. No campo heterodoxo, considera-se que o que foi certo foi insuficiente, além de se apontarem erros. Alguns economistas que participaram da elaboração do “Por um Brasil Justo e Democrático” são críticos, por exemplo, das desonerações tributárias.

Um aspecto curioso do atual debate são os pontos em comum entre os economistas ortodoxos e os heterodoxos da linha “novo desenvolvimentista”, que reúne Nakano, Luiz Carlos Bresser-Pereira, José Oreiro e outros. Em ambos os casos, forte ênfase é dada no diagnóstico estrutural para o papel do aumento dos salários acima da produtividade nos anos de boom do governo Lula, o que erodiu a competitividade industrial. E tanto ortodoxos como alguns neodesenvolvimentistas consideram o ajuste fiscal inevitável, assim como a correção salarial a reboque da recessão.

Neste ponto, há forte discrepância com os “social-desenvolvimentistas” – como alguns chamam parte do grupo do “Por um Brasil Justo e Democrático” –, que veem o ajuste fiscal como causa imediata da intensidade da atual recessão, e não consideram necessário o ajuste salarial.

Fica claro, portanto, que algumas das premissas básicas da política econômica dos ministros da Fazenda, Joaquim Levy, e do Planejamento, Nelson Barbosa, é defendida por um amplo arco ideológico de economistas brasileiros, que vai da ortodoxia até a heterodoxia novo desenvolvimentista.

Num momento em que o governo é atacado por todos os lados, e em que o ajuste fiscal enfrenta enormes dificuldades por causa da debilidade política da presidente Dilma Rousseff, esse é um trunfo que a equipe econômica poderia explorar melhor. É mais fácil convencer a sociedade e o Congresso da necessidade das medidas se for indicado que estas correspondem a um amplo consenso técnico-profissional, que abrange diferentes correntes ideológicas.

É uma forma de se contrapor à imagem de um ajuste superortodoxo imposto por um liberal “puro sangue” como Levy, na contramão das promessas de campanha e das bandeiras históricas do PT. O ajuste contradiz de fato a campanha, mas os efeitos do estelionato eleitoral talvez possam ser mitigados se ficar claro que a atual política econômica é defendida por uma coalização ideológica que vai muito além do liberalismo de Levy.

A pauta dos neodesenvolvimentistas inclui itens, como um piso para o câmbio, que certamente não agradarão aos economistas ortodoxos nem à atual equipe econômica. Mas há, sem dúvida, um terreno comum entre as duas visões, com uma série de medidas que poderiam ser defendidas de forma mais vocal e organizada por uma ampla coalizão de economistas.

Resta o problema, é claro, de que os social desenvolvimentistas estão decididamente na oposição à atual política econômica em sua totalidade. Adicionalmente, são uma corrente próxima ao PT. A Fundação Perseu Abramo, por exemplo, é ligada ao partido (embora outras entidades que participaram de “Por Um Brasil Justo e Democrático” sejam apartidárias, e muitos dos envolvidos no trabalho não sejam petistas). Mas o fato é que o documento reflete uma posição que é questionada no próprio campo da heterodoxia.

Em resumo, os economistas Levy e Barbosa contam com o apoio tácito ou explícito da maior parte dos expoentes da sua categoria profissional no Brasil, e não seria má ideia se tentassem capitalizar melhor este trunfo. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 6/10/15, segunda-feira.

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