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Crítico contumaz das políticas setoriais adotadas por Guido Mantega quando ministro da Fazenda, o atual chefe da equipe econômica, Joaquim Levy, foi obrigado a mudar o discurso para defender medidas de governo semelhantes às tomadas pelo antecessor. No mercado, vários analistas viram com desconfiança o fato de Levy afirmar que as linhas especiais de crédito do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal para o setor automotivo são operações de mercado e não comprometem o ajuste fiscal. Os mais ácidos chegaram a comentar que até mesmo a frase não parecia dele, mas de Mantega.

Ao assumir o posto de ministro da Fazenda, Levy deixou claro que repudiava medidas que privilegiavam poucos setores e alertou que elas não cumpriram o papel de preservar postos de trabalho e impulsionar a economia. “Você montou um negócio grosseiro. O problema é que essa brincadeira nos custa R$ 25 bilhões por ano e não tem nem criado nem protegido emprego”, disse ele em fevereiro, quando usava linguajar mais assertivo. A frase lhe rendeu um pito público da presidente Dilma Rousseff, que classificou de infeliz a afirmação.

O último rompante de Levy que desagradou ao governo foi quando ele deixou de participar do anúncio do contingenciamento de R$ 69,9 bilhões. Favorável a um aperto fiscal maior, o ministro alegou uma gripe para não se sentar ao lado do ministro do Planejamento, Nelson Barbosa. De lá para cá, as gestões do chefe da Fazenda em relação às decisões de governo têm sido mais parecidas com as do antecessor. O caso mais emblemático ocorreu quando foi obrigado a revisar a meta de superavit primário e até admitir um deficit fiscal em 2015. “Não é uma mudança de rota, é um ajuste de velas, porque os ventos mudaram”, comentou ao explicar a redução do primário de R$ 66,3 bilhões para apenas R$ 8,7 bilhões.

A última derrapada de Levy aconteceu na última quarta-feira, em evento no Rio de Janeiro. Na ocasião, ele sinalizou que as linhas de crédito especiais oferecidas pelos bancos públicos para o setor automotivo são normais. “Não compromete o ajuste, é uma operação de mercado”, comentou. Para a economista-chefe da ARX Investimentos, Solange Srour, analistas ficaram desconfiados com os estímulos anunciados. Ela disse que ainda não há clareza se a decisão do Executivo é uma inversão da política de ajustes, com resgate do modelo anticíclico.

Dever de sair
Solange ressaltou que, mesmo com a desconfiança, Levy mantém boas relações com o mercado e competência para executar o ajuste fiscal. Mas ela não descarta o risco de mudança de rumo. “Hoje se questiona se ele mantém o mesmo nível de poder que tinha antes. Se ele não conseguir as vitórias necessárias para conduzir o ajuste, deve sair”, destacou.

O professor de economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) José Luis Oreiro afirmou que o governo tenta suavizar os efeitos da recessão econômica sobre o mercado de trabalho ao oferecer linhas de crédito especiais para o setor automotivo. Na opinião dele, o apoio de Levy às medidas mostra pragmatismo. Entretanto, ele reconheceu que a liberação dos financiamentos não significa garantia dos postos de trabalho.“Ele não se deixou levar pela ideologia e por ideiais pré-concebidas. Essas medidas são importantes para reduzir o ritmo de crescimento do desemprego”, detalhou.

Link da matéria: site da ABINEE

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