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Os investidores não vão dar trégua ao Banco Central. A visão no mercado financeiro é a de que o arsenal usado pela autoridade monetária para para conter a disparada do dólar está se esgotando. Os prejuízos com as operações de swap cambial — equivalente à venda da moeda norte-americana no mercado futuro — já passam de R$ 66 bilhões sem que tenham impedido a divisa de flertar com os R$ 4. Na última sexta-feira, a moeda foi cotada em R$ 3,860 e a instituição foi obrigada a dar mais uma cartada: anunciou para hoje dois leilões de linha de vendas dólares com compromisso de recompra. Se ainda assim não conseguir estancar a escalada do câmbio, terá que queimar reservas internacionais, que já caíram quase US$ 4 bilhões este ano e somam US$ 370,3 bilhões.

Nos dois leilões marcados para esta terça-feira, serão ofertados US$ 3 bilhões com recompras marcadas para 4 de novembro e 2 de dezembro. O presidente do BC, Alexandre Tombini, diz que esse tipo de intervenção é normal. A avaliação dentro da instituição é de que as operações são triviais, o montante oferecido é pequeno e as recompras ocorrerão em um prazo curto. Para os especialistas, contudo, a atuação é uma resposta ao mercado, que vem testando o BC desde que o dólar atingiu R$ 3,50. “Depois dessa cotação, foi pura especulação para ver em que momento o BC interviria”, destaca Reginaldo Galhardo, gerente de câmbio da corretora Treviso. Neste ano, o dólar já subiu 45,33%, pressionando a inflação.

Tesouro
Para Carlos Eduardo de Freitas, ex-diretor da Área Externa do BC, a autoridade monetária evitará, o quanto for possível, vender reservas. As alternativas, além dos contratos de swap, serão os leilões de linhas em dólar. “A impressão é de que a instituição ficará rolando as dívidas. Mas, em algum momento, as operações ficarão caras demais”, afirma. No entender dele, o BC precisa ficar atendo para os custos de suas intervenções, sobretudo com swaps, não fiquem elevados demais. “Não podemos esquecer que todas as perdas do Banco Central são repassadas ao Tesouro Nacional e impactam a dívida pública.”

Não é só. Segundo Freitas, a qualidade de financiamento do país se deteriorou, o que pressiona a taxa de juros. “Se a expectativa de desvalorização do real for muito grande, o investidor vai exigir um prêmio ainda mais elevado para comprar papéis do governo, ou seja, juros mais altos. Sem ajuste fiscal, o país fica sem condições de pagar e as dificuldades aumentam. A saída será vender as reservas”, assinala.

Na avaliação do professor do Insper Alexandre Schwartsman, ex-diretor de Assuntos Internacionais do BC, a autoridade monetária precisa bater em retirada. “O BC perdeu esse jogo. Não deve intervir mais, pois o risco é de os prejuízos aumentarem. O quadro requer um real mais desvalorizado, o risco país aumentou”, alerta.

Mesmo que os leilões de linha consigam fazer o dólar abrir em baixa hoje, a moeda deve voltar a ganhar força. A crise política continua, não há sinais de avanço no ajuste fiscal, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, dá sinais de fragilidade e há um quadro de alta para o dólar no exterior. “Não bastasse tudo isso, os Estados Unidos vão aumentar os juros e isso afetará os países emergentes”, destaca.

Para José Luís Oreiro, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o BC não deve intervir mais. “Usar as reservas ou estender as operações de swap cambial é jogar dinheiro pelo ralo.

Desconfiança
O Brasil está sob ataque especulativo. Para o professor José Luís Oreiro, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o dólar quase bateu em R$ 3,90 por conta da desconfiança dos agentes econômicos na política fiscal do país. “A peça de Orçamento de 2016 com rombo de R$ 30,5 bilhões foi determinante para a escalada. Não há o que BC possa fazer para evitar isso. A recuperação só vai ocorrer quando houver uma definição para o Orçamento e o governo mostrar de onde vai tirar dinheiro para fazer superavit primário (economia para pagar os juros da dívida)”, diz.

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