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Fernando Dantas

06 julho 2015 | 18:47

O ortodoxo Samuel Pessôa cobra mais clareza dos “neodesenvolvimentistas” sobre a necessidade de ajuste fiscal e de contenção dos salários. E o neodesenvolvimentista José Luis Oreiro diz que País precisa de um estadista para convencer a população a trocar benefícios imediatos de curto prazo por crescimento mais robusto no médio e longo prazo.

Recentemente, dois expoentes de duas diferentes – e por muitos consideradas opostas – correntes de pensamento econômico no Brasil tiveram uma interessante evolução no seu debate sobre o problema do desenvolvimento nacional. Esta coluna já tratou da discussão entre os dois. Um dele é José Luis Oreiro, do Instituto de Economia da UFRJ, presidente da Associação Keynesiana Brasileira e defensor do chamado “ neodesenvolvimentismo”. O outro é Samuel Pessôa, sócio da gestora Reliance, pesquisador associado do Ibre/FGV e que atuou como assessor do candidato tucano Aécio Neves durante a última campanha eleitoral.

Na recente discussão entre os dois, Pessôa criticou duramente os neodesenvolvimentistas por “não enfatizarem nas suas propostas os aspectos fiscais e salariais que elas implicam”. Oreiro explicou que isso talvez se devesse ao fato de que Luiz Carlos Bresser Pereira, o mais conhecido neodesenvolvimentista (com quem Oreiro escreveu um livro sobre o tema), se afastou do PSDB e se aproximou do PT “porque sabia que os tucanos jamais aceitariam sua agenda”. Para fazer esta aproximação com o PT, porém, Bresser teria julgado necessário ser discreto em relação às prescrições fiscais e salariais do neodesenvolvimentismo, que vão contra as crenças históricas da esquerda petista.

Para entender esse debate, é preciso levar em conta que os chamados economistas ortodoxos (a denominação acadêmica preferida é neoclássicos), como Pessôa, e os neodesenvolvimentistas, como Oreiro e Bresser, têm uma área de consenso em termos da crítica ao populismo da era de ouro do governo Lula.

Ambos os lados consideram que houve exagero de consumo e que a valorização dos salários acima da produtividade do trabalho levou à desindustrialização. Ambos os lados acham que teria sido melhor uma política fiscal bem mais dura do que a verificada nos últimos anos, que tivesse aumentado substancialmente a poupança pública. Ambos os lados veem a baixa poupança brasileira como um entrave ao crescimento econômico sustentado a taxas elevadas.

As diferenças aparecem em como lidar com o problema da poupança. Para Pessôa, a baixa poupança decorre das demandas distributivas da sociedade brasileira, e trata-se de um problema que pode ser minorado com o aumento da poupança pública, mas que não tem como ser fundamentalmente superado. Assim, uma boa política econômica buscaria se adaptar ao quadro de baixa poupança doméstica, usando a poupança externa de forma moderada e trabalhando no lado da oferta com medidas para aumentar a produtividade, especialmente do maior setor da economia, de serviços.

Já os neodesenvolvimentistas consideram que o câmbio é um fator chave para dar competitividade aos setores industriais mais avançados tecnologicamente e que o uso da poupança externa acentua uma sobrevalorização cambial que também é causada pela exuberância do setor de commodities. Sua recomendação inclui taxar a exportação de commodities e impor controles de capital para desvalorizar o câmbio, eliminando-se os déficits em conta corrente. Assim, é preciso aumentar a poupança doméstica, e não se adaptar ao fato de que ela é parca. Oreiro acredita que isso pode vir com a eliminação do déficit público em gastos correntes do governo e com alguma transferência de renda funcional dos trabalhadores para os capitalistas em função da desvalorização (trabalhadores poupam menos).

É uma política antipopulista, pois o equilíbrio dos gastos correntes do governo certamente colocaria em xeque o atual arcabouço público de transferências e transferir renda funcional do trabalho para o capital é o oposto das posições tradicionais da esquerda.

Pessôa disse a Oreiro que “o que me incomoda nas proposições da sua corrente de pensamento é que elas implicam substituir o povo brasileiro, que quer mais distribuição”. Em resumo, a crítica é de que o neodesenvolvimentismo é ainda mais antipopulista do que as políticas propostas por ortodoxos como Pessôa (que aceitam déficit em transações correntes e se incomodam menos com a sobrevalorização cambial) mas, paradoxalmente, dá muito menos ênfase à necessidade do ajuste fiscal. “Fica parecendo que a receita de vocês é um passe de mágica”, ele disse.

Oreiro, por sua vez, deixou claro que não considera que a propensão distributivista da sociedade brasileira seja um dado imutável da realidade. Para ele, é preciso que o sistema político brasileiro produza um estadista que mostre claramente à população que o enriquecimento no médio e longo prazo pressupõe disciplina fiscal e salarial no curto prazo. A tentativa de aproximação de Bresser com o PT certamente não foi bem sucedida, mas ele acha que o papel dos economistas é o de continuar a dar ênfase a esse “trade off” entre o curto e o longo prazo. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 6/7/15, segunda-feira.

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