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07.07.2015 12:10 am

CONTAGEM REGRESSIVA (Correio Braziense, Coluna do Vicente Nunes)

O governo montou ontem uma operação de guerra para acalmar os ânimos no mercado financeiro e entre o empresariado. Diante do forte debate sobre a possibilidade de a presidente Dilma Rousseff deixar o governo, seja por meio de renúncia, seja por meio do impeachment, houve uma disseminação de ruídos entre os agentes econômicos, que não escondem o temor de o país mergulhar em uma profunda crise caso tal medida extrema se confirme.

Há, entre os investidores e o empresariado, a convicção de que as dificuldades políticas que minam Dilma estão chegando ao ápice e tornando ainda mais difícil a situação econômica. O discurso é unânime de que os primeiros quatro anos de mandato da petista foram terríveis para o país, pois destruíram todas as bases da estabilidade. Contratos foram rompidos unilateralmente, a inflação disparou, as contas se tornaram sinônimos de maquiagem e a atividade despencou, embalada por uma forte onda de desconfiança. O Brasil mergulhou com tudo na recessão.

Mas, no entender dos agentes econômicos, apesar do custo elevado, todos esses problemas poderiam ser solucionados mais rapidamente se o governo não estivesse tão fragilizado politicamente e com índice tão elevado de rejeição popular. O que mais assusta os investidores e o empresariado é o fato de a grande opção para o lugar de Dilma vir do PMDB, o vice-presidente da República, Michel Temer, que, no entender deles, seria massacrado pelos presidentes da Câmara, Eduardo Cunha, e do Senado, Renan Calheiros.

Não se pode esquecer ainda que o PMDB está tão envolvido nas denúncias de corrupção na Petrobras quanto o PT de Dilma. Portanto, moralmente, o partido não teria condições de assumir o comando do país. Se isso viesse a acontecer, certamente a população se rebelaria, transformando a substituição da petista num trauma sem precedentes para o país, muito diferente do impeachment de Collor de
Mello, que foi sucedido pelo vice, Itamar Franco. No governo dele nasceu o Plano Real, que livrou o Brasil da praga inflacionária.

Para José Luís Oreiro, professor de economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a despeito do clima extremamente hostil, há como Dilma terminar o mandato, mesmo que sem a liderança de que o país precisa. O primeiro passo seria ela se entender com o PMDB, que lhe daria o suporte necessário para implantar o ajuste fiscal prometido pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy. Outro passo seria entregar a cabeça do ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, apontado como o grande pivô das desavenças com os peemedebistas.

“Independentemente das opções feitas por Dilma, o que está claro é que o governo não pode mais estender a crise política, pois ela paralisou o país. Já estaríamos em tempos difíceis com o ajuste fiscal e o aumento das taxas de juros pelo Banco Central, mas, com a fragilidade da presidente, todos os problemas na economia se agravaram”, diz Oreiro. Na avaliação dele, por mais que o ministro da Fazenda se esforce para indicar que o governo está disposto a fazer o dever de casa para arrumar a economia, está nas mãos da presidente da República salvar o país.


Cassação

Nas conversas com empresários e investidores, gente graúda do governo vem garantindo que não há nada que incrimine Dilma na Operação Lava-Jato, que desbaratou a quadrilha que roubava a Petrobras. Mas essas mesmas pessoas admitem que a corrupção na estatal é o ponto mais fraco da presidente, devido à quantidade de denúncias de uso de dinheiro oriundo de propina na campanha eleitoral da petista. Caso esse fato prevaleça e ela seja cassada pela Justiça Eleitoral, Temer irá junto e novas eleições serão marcadas.

“Na minha avaliação, seria um golpe Dilma ser impedida de continuar o mandato por causa das pedaladas fiscais que estão sendo investigadas pelo TCU (Tribunal de Contas da União). Agora, não descarto a cassação pela Justiça Eleitoral”, avalia Oreiro. Ele ressalta ainda que não acredita na possibilidade de a presidente ter tirado proveito próprio dos desvios da Petrobras. “Dilma pode ter muitos defeitos, mas não creio que tenha feito algo de errado no caso da petroleira. No máximo, pode ter fechado os olhos com relação à origem do dinheiro para a campanha presidencial”, emenda.

Quem acompanha o dia a dia do governo sabe que o inferno de Dilma está longe de acabar. Com isso, a equipe econômica terá muito trabalho para reduzir o máximo possível o peso da crise política na economia. Joaquim Levy já foi avisado que terá de apresentar muito mais do que o ajuste fiscal anunciado até agora para convencer empresários e investidores de que o governo não está paralisado. A contagem regressiva já começou. E 31 de dezembro de 2018, o último dia de mandato que as urnas deram a Dilma, está muito, mas muito longe.

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