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A confirmação do calote de 1,6 bilhão de euros no Fundo Monetário Internacional (FMI) mostra que a Grécia parece mais distante do que nunca de se curar da crise que a deixa acamada há pelo menos seis anos. Com uma dívida cada vez maior e índices de desemprego na faixa de 25%, a dúvida – de gregos, de troianos e do restante do mundo – é se esse agravamento na saúde das contas públicas reflete a falta de disciplina do paciente em tomar os medicamentos ou se a dose de reformas ministrada até o momento foi forte demais.

Esse é o pano de fundo para o plebiscito que ocorre a partir das 7h deste domingo (1h no horário de Brasília) na Grécia. A população vai às urnas para decidir se aceita continuar sob cuidado minucioso do Banco Central Europeu e do FMI – e concorda com mais uma dose de ajustes impopulares – ou se opta por um novo tratamento, o que pode levar o país a abandonar a zona do euro e retornar ao dracma, sua moeda anterior. A disputa promete ser acirrada.

dúvida atormenta não apenas aqueles que sentem no coração e no bolso os dissabores da crise, mas também especialistas em economia. Pensadores à direita e à esquerda adotam receituários diferentes. As instituições conhecidas como Troika (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional) e os parceiros europeus insistem que, apesar da situação atual, o país precisa de mais reformas. De outro lado, aqueles que argumentam que, para se recuperar, a economia grega precisa exatamente do contrário: o fim da austeridade e um alívio da dívida. É o que sustentam dois agraciados com o Prêmio Nobel de Economia, Paul Krugman e Joseph Stiglitz, entre outros. O argumento é de que a economia deprimida inibe investimento e aumenta o custo social do pagamento da dívida.

– A política de austeridade foi aplicada sem dar qualquer chance de o país ativar a demanda externa. Como não têm uma moeda própria, os gregos não têm como competir com a produtividade dos países do Norte. Na verdade, nenhum país do sul da Europa consegue. A Grécia precisa equilibrar as contas, mas insistir em austeridade mantendo o euro é um tiro no pé – afirma José Luis Oreiro, presidente da Associação Keynesiana brasileira e professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Ao mesmo tempo, o abandono da zona do euro, após bilhões de resgate, é avaliado como uma saída oportunista. Reginaldo Nogueira, professor do curso de relações internacionais do Ibmec, em Minas Gerais, lembra que, para ser aprovado no bloco, o governo mentiu sobre a saúde financeira do Estado.

– A entrada da Grécia gerou um boom de otimismo e queda nos juros, dificultando para o investidor a diferenciação entre as dívidas grega e alemã. Por mais de 10 anos, os diferentes governos aproveitaram para se financiar e não fizeram ajuste fiscal. O que garante que, sozinhos, conseguirão equilibrar o orçamento? – questiona.

Ex-embaixador brasileiro em Washington, Rubens Barbosa se diz espantado com a demora para que seja adotada a única medida capaz de resolver a crise: um reescalonamento da dívida grega.

– Não há outra maneira. Essas medidas de austeridade não funcionam. Com elas, corta-se o crescimento, demitem-se funcionários. Do jeito como as coisas estão postas, ficando ou saindo do bloco, vão promover uma recessão de muitos anos. Seja qual for o resultado, a odisseia econômica do povo grego deve durar bem mais do que a jornada do herói Ulisses.

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