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Em setembro de 1944, o General Montgomery idealizou uma operação militar nos Países Baixos para capturar uma série de pontes sobre os principais rios ocupados pelos Alemães. O objetivo era contornar as fortificações Alemãs na fronteira com a França, permitindo assim que os exércitos aliados pudessem invadir a Alemanha ainda em 1944. Se bem sucedida, a operação militar – denominada de operação Market Garden – permitiria que os exércitos aliados alcançassem Berlim muito antes das tropas soviéticas terem condições de alcançar a capital do III Reich. Inicialmente a operação foi bem sucedida com a conquista da ponte sobre o rio Wall em Nimegue no dia 20 de setembro, mas acabou por fracassar quando a ponte de Arnhen, a última do rio Reno, não pode ser conquistada. Esta se mostrara “uma ponte longe demais”.

O ajuste fiscal proposto pelo Ministro Joaquim Levy guarda algumas semelhanças com a operação Market Garden. Com efeito, as metas propostas pelo Ministro da Fazenda visavam fazer um ajuste fiscal rápido e profundo na economia brasileira, de tal forma que já no final de 2016 a dívida pública bruta como proporção do PIB poderia iniciar uma trajetória declinante. Para tanto, o Ministério da Fazenda fixou uma meta de superávit primário de 1,2% do PIB para 2015 (ou 1,1% do PIB segundo a nova metodologia de cálculo do PIB) e 2% do PIB para 2016. A velocidade e a magnitude do ajuste fiscal proposto pelo ministro Joaquim Levy se justificaria com base em duas considerações. Em primeiro lugar, um ajuste fiscal rápido e robusto seria condição necessária para impedir a perda do grau de investimento da economia brasileira; perda essa que, se concretizada, poderia produzir uma crise cambial de grandes proporções devido a parada súbita de financiamento externo, haja vista que, sem o grau de investimento, os investidores institucionais residentes no exterior estariam proibidos de adquirir e manter ativos brasileiros. Em segundo lugar, o ciclo político-eleitoral obriga que todo ajuste macroeconômico seja feito nos dois primeiros anos do mandato presidencial, pois nos dois últimos o Presidente da República precisa ter as mãos livres – ou seja, precisa distribuir bondades por intermédio do orçamente federal – para garantir a sua reeleição ou fazer o seu sucessor.

O problema com essa estratégia é que a meta fiscal se mostrou “uma ponte longe demais”. Quando a meta foi anunciada a expectativa era que o resultado fiscal de 2014 apresentasse um pequeno superávit, algo como 0,1% do PIB. Nesse caso, o esforço fiscal necessário para obter a meta seria “apenas” 1,1% do PIB. Um valor alto, mas ainda assim factível. Contudo, o resultado fiscal de 2014 se mostrou muito pior do que o esperado, apresentando um déficit primário de 0,6% do PIB, elevando assim o esforço fiscal requerido para 1,8% do PIB (ou 1,7% na nova metodologia), ou seja, um aumento de 54,5% no esforço fiscal necessário para obter a meta proposta para o ano de 2015.

Além do resultado fiscal de 2014 ser muito pior do que o esperado, outro fator que contribuiu para aumentar a magnitude do ajuste fiscal foi o desmonte das “pedaladas fiscais”. Estima-se que a eliminação desse artifício contábil no ano de 2015 exija um esforço fiscal adicional de mais 0,3% do PIB.  Dessa forma, a obtenção da meta de superávit primário para 2015 envolve um esforço hercúleo de 2,0% do PIB, valor muito superior ao realizado no início do primeiro mandato do Presidente Lula. Para selar de vez o destino do ajuste fiscal do Ministro Joaquim Levy, a economia brasileira deve apresentar uma contração de pelo menos 1% ao longo do ano corrente, tornando assim irrealista qualquer previsão de crescimento real da receita tributária. Nessas condições, uma meta de superávit primário de 1,1% do PIB para 2015 é simplesmente irrealista.

Face a essas considerações, a equipe econômica deveria optar por uma consolidação fiscal de médio prazo, na qual o período do ajuste fiscal seja estendido de 2 para 4 anos, com uma redução da meta fiscal em 2015 e 2016 (respectivamente 0,8% e 1,6% do PIB) e uma elevação da mesma para, pelo menos, 2.0% do PIB a partir de 2017. Isso porque a credibilidade não se conquista com o anuncio de metas ousadas, mas irrealistas; e sim com o anuncio de metas factíveis de serem cumpridas nas condições vigentes na economia brasileira.