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Vicente Nunes

O dólar baixou ontem a R$ 3,02 depois de ter subido a R$ 3,05 na segunda-feira. Essa oscilação atrapalha qualquer um que dependa do comércio exterior. Mesmo os exportadores estão se queixando. E eles deveriam estar mais é comemorando o fato de o real ter perdido tanto valor em relação à moeda norte-americana em pouco tempo — quatro meses atrás, sua cotação era R$ 2,70. O problema é que, ainda que a receita em reais de quem vende para fora esteja aumentando, fica muito difícil fechar contratos em situações de volatilidade como esta que vivemos.

O professor José Luis Oreiro, do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), defende o dólar em pelo menos R$ 3,50 para favorecer a produção brasileira de manufaturados. E estável, o que deveria, ele argumenta, ser administrado pelo Banco Central (BC). No primeiro momento, diz, as importações se reduziriam. Mais tarde, as vendas externas poderiam aumentar.

O câmbio nesse patamar poderia, certamente, piorar a inflação, levando-a a atingir duas casas decimais neste ano. “Mas o preço político disso já foi dado. No ano que vem, a inflação baixaria e o crescimento seria maior”. Do jeito que a coisa vai, Oreiro acha que o Produto Interno Bruto (PIB) não cresce mais do que 1,5% em 2016. É uma previsão até otimista. Analistas de mercado contam, em média, com queda de 1,2% neste ano e crescimento de 1% em 2016. Assim, chegaremos a 2017 menores do que neste ano.

O professor é um dos maiores expoentes brasileiros do novo desenvolvimentismo, uma alternativa às propostas dos liberais, que defendem uma economia calcada nas forças de mercado. Também se contrapõe à política econômica que tem vigorado no Brasil nos últimos anos. Para os novos, ela é o social-desenvolvimentismo, baseado em crescimento do mercado interno por meio da expansão do crédito e de programas de distribuição de renda, além de incentivos diretos a empresas. “O problema é que o custo fiscal disso é insustentável a longo prazo”, critica Oreiro.

Tanto é que o governo foi obrigado a mudar. Oreiro não vê uma guinada na política econômica, diferentemente de muita gente, mas um “freio de arrumação”. O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, certamente tem planos para a continuidade das reformas estruturais. Como ele é doutor em economia pela Universidade de Chicago, a meca do liberalismo, suas ideias e propostas vão nessa linha. Mas Oreiro duvida que Levy consiga colocá-las em prática. Prevê que no final de 2016, quando o ajuste for concluído, ele seja substituído. Acha até que a pressão do PT poderá crescer e o ministro ser trocado antes, caso o desemprego saia dos 6,2% e chegue a 10%.

Há chances de que o governo, em algum momento, adote um novo modelo, diferente do que vigorou antes? Oreiro acha que sim, caso o debate na sociedade deixe claro que as escolhas do passado foram equivocadas e que é necessário mudar.

O novo desenvolvimentismo defende o crescimento para fora, baseado na exportação de manufaturados. Para isso, o câmbio é a variável-chave. Os juros devem ser mantidos em patamar baixo, não artificialmente, mas como resultado de uma política fiscal restritiva. Esse segundo ponto os aproxima dos liberais, que defendem, porém, a flutuação do câmbio em função das condições de mercado.

Como os liberais, os novos desenvolvimentistas discordam da farta distribuição de incentivos a empresas. Preferem uma política industrial seletiva, restrita a situações específicas, em que se vê a oportunidade de um setor crescer rapidamente. Um ponto fundamental, dizem, é que o Estado deverá ser poupador. Dívidas só se justificam para investimentos, que devem ser pagos também, em parte, com receitas correntes. É certamente, um Brasil bem diferente do que conhecemos.

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