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postado em 15/03/2015 20:33 / atualizado em 15/03/2015 23:14

Rosana Hessel

Gustavo Moreno/CB/D.A Press

Depois de um dia repleto de manifestações contra o governo federal em todo o país neste domingo (15/03), a presidente Dilma Rousseff terá uma série de desafios a partir desta segunda-feira (16/03) para resgatar a credibilidade perdida. O principal deles é administrar a crise política que se instaurou em apenas três meses de seu segundo mandato e está se agravando, na avaliação do economista José Luis Oreiro, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

“Depois desses protestos, a crise política vai se aprofundar”, afirmou o acadêmico, que aposta na continuidade da alta do dólar nesta semana. Na última sexta-feira (13/03), a divisa norte-americana fechou a R$ 3,25, o maior patamar desde abril de 2003 em meio ao aumento da desconfiança em relação ao governo e a sua capacidade de solucionar as questões domésticas e os conflitos com a base aliada no meio dos escândalos de corrupção na Petrobras. “Dilma atravessa uma crise de credibilidade dos mercados que está se refletindo no câmbio, que sobe muito mais por problemas internos do que externos”, destacou Oreiro. Ele lembrou que, daqui para frente será mais difícil para o governo conseguir realizar o ajuste fiscal com a colaboração do Congresso Nacional.

Na avaliação do especialista, as manifestações deste domingo e o panelaço em algumas capitais no último dia 8 são reflexos do descontentamento da classe média e dos remediados que estão perdendo o poder de compra para a inflação. Ele lembrou que os brasileiros estão sentido no bolso o aumento de impostos que fazem parte do ajuste fiscal e estão ocorrendo para equilibrar as contas do setor público que fecharam 2014 com um rombo de R$ 32,5 bilhões.

A multidão que lotou neste domingo (15) as ruas também agrava os problemas políticos da presidente Dilma. Ao longo da semana passada, lideranças partidárias do Congresso ressaltaram que era preciso esperar o tamanho da “voz rouca das ruas” para mensurar o nível de insatisfação com o Planalto. E a resposta impressionou os congressistas.

A presidente tem uma relação conflituosa com o principal aliado, o PMDB. Dilma tentou corrigir um pouco as distorções, convidando o vice-presidente Michel Temer e o ministro da Secretaria da Aviação Civil, Eliseu Padilha, para o Conselho Político. Convidou também Aldo Rebelo (Ciência e Tecnologia) e Gilberto Kassab (Cidades) para o colegiado. Mas, para avaliar os protestos, manteve o núcleo petista original.

Além disso, nesta semana, a CPI da Petrobras ouvirá o depoimento do ex-diretor de Serviços da Petrobras, Renato Duque, apontado pelo doleiro Alberto Yousseff e o ex-diretor de Abastecimento, Paulo Roberto Costa, como operador do PT no esquema de pagamento de propinas.

Ao longo desta semana, Dilma reunirá seu conselho político e as bancadas do PT, PMDB e PSDB vão debater os desdobramentos das manifestações e da crise política vivida pelo governo.

Sem contornar a crise política, Dilma terá dificuldades para recuperar a combalida economia brasileira, que, pelas últimas projeções revistas de vários economistas é de uma queda de 1,5% no Produto Interno Bruto (PIB) deste ano. Enquanto isso, a inflação oficial deverá ultrapassar 8% este ano, bem acima do limite de 6,5% que deveria ser perseguido pelo governo. Ao ver de Oreiro, o discurso de que tudo está bem e que os problemas estão lá fora não estão mais convencendo. “O governo está tomando a estratégia errada ao lidar com essa crise. Está sofrendo de dissonância cognitiva em alto grau”, resumiu.

Multidão nas ruas
As manifestações cocorreram em 25 cidades brasileiras e em algumas cidades no exterior, como Miami e Nova York (Estados Unidos), Londres (Inglaterra), Buenos Aires (Argentina), Sidney (Austrália) e Lisboa (Portugal).

 

Em Brasília, mais de 50 mil pessoas ocuparam o gramado em frente ao Congresso Nacional, de forma pacífica. No entanto, no fim da tarde, houve alguns conflitos entre manifestantes e a polícia, resultando em 10 prisões e um total de 17 pessoas feridas.

Paulo Pinto/ Fotos Públicas

São Paulo foi a cidade que mais teve manifestantes. De acordo com dados da Polícia Militar, um milhão de pessoas ocuparam a Avenida Paulista em protesto contra presidente Dilma, mas, pelas contas do Datafolha, o público foi de 210 mil manifestantes. Não houve incidentes graves, de acordo com as autoridades.

 

O grande número de pessoas que foram para as ruas protestar surpreendeu governistas que tentavam desqualificar o movimento afirmando que apenas eleitores do senador Aécio Neves (PSDB-MG), derrotado nas urnas em novembro passado, estavam presentes.

A maioria dos manifestantes demonstrava insatisfação com os escândalos de corrupção envolvendo parlamentares do PT e da base aliada e com o descontrole na condução da política econômica.
O tucano Aécio Neves não participou das manifestações, mas demonstrou apoio. O Palácio do Planalto não se pronunciou durante os protestos. Somente, no fim da tarde, os ministros da Justiça, José Eduardo Cardozo, e da Secretaria-Geral da Presidência, Miguel Rossetto, concederam uma entrevista coletiva para comentar os eventos em todo o país.

 

O ministro Rossetto afirmou que os protestos partiram de um setor que não votou na presidente Dilma, mas os qualificou como “legítimos”. “As manifestações contrárias ao governo são legítimas. O que não é legítimo é o golpismo, a intolerância, o impeachment infundado que agride a democracia”, afirmou.

Na avaliação de Cardozo, as manifestações ocorreram “dentro da legalidade” e “com mais absoluto respeito às autoridades”. “A realização dessas manifestações apenas confirmam que o Brasil vive um estado democrático, um estado que admite a divergência, que admite a existência de opiniões contrárias, e que de fato está muito longe de qualquer alternativa golpista”, disse ele acrescentando que o país está “muito longe de golpismos” e que o governo está disposto a “ouvir a voz das ruas”.

Novo pacote 
Rossetto e Cardozo informaram que Dilma anunciará “nos próximos dias” um conjunto de medidas de combate à corrupção e à impunidade. Eles afirmaram que o governo não quer se limitar a esse pacote  e, por isso, estará “aberto ao diálogo”.

 

José Cruz/ Agência Brasil

Ao destacar que uma das bandeiras das manifestações foi o combate aos desvios do dinheiro público, Cardozo destacou que “o governo tem uma clara postura de combate à corrupção”. “Ao longo desse últimos tempos (o governo) tem criado mecanismos que propiciam as investigações com autonomia”, disse.

O ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Joaquim Barbosa, criticou as falas do ministro da Justiça em sua página no Twitter. “Cardozo insiste num erro deliberado e frequente: o de insinuar que as iniciativas do MPF e da PF são impulsionadas pelo Governo”, afirmou.

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