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Sempre tive um grande respeito e admiração por Edward Amadeo, que foi meu professor e orientador no mestrado da PUC-Rio. Muito do que aprendi devo a ele. Por isso estou bastante constrangido em escrever uma crítica (espero que não muito ácida) ao artigo “Descalabro Desenvolvimentista” que ele publicou no Valor Econômico de hoje. Eu sei que as pessoas mudam de opinião ao longo da vida. Isso é um processo normal. Quando conheci Edward Amadeo ele era um dos maiores economistas Keynesianos do Brasil, tendo publicado um livro baseado na sua tese de Doutorado “Keynes´s Principle of Effective Demand” que é, até hoje, uma das grandes referências no assunto. Depois da sua passagem pelo governo FHC como Ministro do Trabalho, o keynesianismo foi desaparecendo dos escritos e da cabeça do meu ex-orientador. Não cabe a mim avaliar os motivos que levaram Amadeo a, parafraseando o ex-presidente Fernando Henrique, a esquecer tudo o que escreveu. Espero que tenha sido motivado por uma sincera – ainda que do meu ponto de vista indevida – conversão ao credo liberal. Mas o que me deixou muito desapontado no artigo de Amadeo não foi a sua conversão ao liberalismo, e sim a forma caricata – pra não dizer desonesta – com a qual ele retratou o desenvolvimentismo no Brasil.

Em primeiro lugar não existe um “desenvolvimentismo”, mas pelo menos dois, a saber: o novo-desenvolvimentismo, cujo núcleo duro é formado por Luiz Carlos Bresser-Pereira, Paulo Gala, Nelson Marconi e por mim e o social-desenvolvimentismo, mais associado ao Instituto de Economia da Unicamp. Não tenho procuração (e nem interesse) para falar em nome dos social-desenvolvimentistas, sendo assim, irei apontar os equívocos ou descalabros que Edward Amadeo faz do “desenvolvimentismo” no seu artigo do ponto de vista do “novo-desenvolvimentismo”.

1. Os novo-desenvolvimentistas não são os pais ou inspiradores da Nova Matriz Macroeconômica, em particular, novo-desenvolvimentistas consideram que as exportações, não os gastos do governo, são o motor do crescimento do longo-prazo nas economias em desenvolvimento que não possuem moeda conversível. No período 2011-2015 eu escrevi vários artigos no Valor Econômico indicando a inconsistência no regime de política macroeconômica adotado a partir de 2009, alertando para o fato de que o mesmo nos condenaria a estagnação, entre outras razões, porque os salários cresciam acima da produtividade do trabalho, o que reduzia a competitividade externa da economia brasileira. No início de 2014, em entrevista para a Folha de São Paulo, afirmei explicitamente que a política macroeconômica do governo Dilma era uma biruta de aeroporto.  Por fim, em evento realizado em maio de 2014 na FGV/SP, o qual contou com ampla cobertura da mídia, eu critiquei tanto o “tripé macroeconômico” herdado do governo FHC como a nova matriz macroeconômica do governo Dilma.

2. Nenhum economista sério que tenha aprendido o mínimo de álgebra elementar discorda da tese de que o crescimento de longo-prazo só é possível com o crescimento da produtividade do trabalho. O que os novo-desenvolvimentistas afirmam é que o crescimento da produtividade advém das inovações tecnológicas que estão embutidas em novas máquinas e equipamentos e das economias estáticas e dinâmicas de escala que resultam do crescimento da produção industrial. Para tanto é necessário manter uma taxa de câmbio competitiva e estável de forma a induzir um crescimento robusto das exportações e, ao seu reboque, do investimento na modernização e ampliação da capacidade produtiva. O consumo é um componente puramente passivo da demanda agregada, ou seja, que se ajusta ao crescimento da renda. Daqui se segue, portanto, que não é possível puxar o crescimento do PIB e da produtividade do trabalho no longo-prazo com medidas de estímulo ao consumo.

3. Os novo-desenvolvimentistas rejeitam o crescimento puxado pelos gastos do governo, defendendo assim o equilíbrio inter-temporal do orçamento fiscal. Déficits fiscais podem ser usados para tirar a economia de um quadro recessivo, mas devem ser revertidos tão logo que seja possível. Além disso, a política fiscal deve ser pautada pela “regra de ouro” ou seja os déficits, se exisitirem, só podem ocorrer no “orçamento de capital” do governo, nunca no “orçamento corrente”, o qual deve estar sempre equilibrado ou com superávit.

4. Novo-Desenvolvimentistas defendem que a inflação deve ser mantida num patamar baixo, de preferência alinhada com os níveis prevalecentes no resto do mundo, de maneira a evitar uma apreciação da taxa real de câmbio.

5. A política industrial é meramente subsidiária para os novo-desenvolvimentistas, uma vez que os mesmos entendem que o Brasil é um país de renda média que já realizou o seu processo de industrialização. O crédito subsidiado deve ser direcionado apenas para os setores de atividade com mais alta intensidade tecnológica ou para o financiamento de obras de infraestrutura. Escolher “campeões nacionais” em setores ligados ao agronegócio não faz parte do credo novo-desenvolvimentista.

6. Novo-desenvolvimetistas defendem que a adoção de um modelo de crescimento puxado pelas exportações, portanto são favoráveis a abertura comercial. Para tanto, contudo, é necessário eliminar a sobre-valorização cambial, a qual funciona, na prática, como um subsídio as importações e como um imposto as exportações de manufaturados. Uma vez alinhados os preços macroeconômicos (câmbio e juros), as barreiras comerciais podem e devem ser reduzidas, mas de forma negociada com nossos principais parceiros comerciais. Abertura comercial unilateral é pura burrice e submissão aos interesses imperiais dos países desenvolvidos.

7. As desonerações tributárias feitas pelo Ministério da Fazenda foram objeto de crítica quase unanime entre todos os economistas que eu conheço, desenvolvimentistas ou não.

8. Novo-desenvolvimentistas defendem a política de valorização do salário mínimo, mas reconhecem que a velocidade de aumento do mesmo é incompatível com os ganhos de produtividade da economia brasileira. Para tanto, é necessário desenhar uma nova regra de correção do salário mínimo que, ao mesmo tempo que garanta o crescimento real dos salários ao longo do tempo, modere o ritmo de crescimento dos mesmos de forma a compatibiliza-los com o crescimento da produtividade.

9. Novo-desenvolvimenitistas acreditam que tanto os idosos como as crianças são cidadãos brasileiros, que merecem respeito e atenção por parte das políticas públicas.

10. Novo-desenvolvimentistas são contrários a toda e qualquer forma de populismo, principalmente o populismo cambial, o qual é endêmico na América Latina, sendo executado tanto por governos de esquerda como de direita.

Por fim, convido o meu ex-professor e orientador, Edward Amadeo, a se instruir melhor sobre o “novo-desenvolvimentismo” no livro “Developmental Macroeconomics: new developmentalism as a growth strategy” de autoria de Luiz Carlos Bresser-Pereira, Nelson Marconi e José Luis Oreiro. O livro foi publicado no final de 2014 pela Routledge. Espero que depois de ler esse livro, Edward Amadeo escreva um artigo para o Valor reconhecendo os descalabros que disse sobre o desenvolvimentismo, ao menos na versão baseada no “Consenso de São Paulo”.

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