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Ontem o BCB aumentou a taxa Selic em 0,5 p.p, levando-a para o patamar de 12,75% a.a. A decisão era mais do que esperada. Em janeiro de 2015 o IPCA acusou uma variação de 1,24%, bastante superior aos 0,69% de janeiro de 2014, levando a inflação acumulada em 12 meses para o patamar de 7,14%, muito acima do teto do regime de metas de inflação, que é de 6,5%. Para fevereiro a expectativa é que o IPCA registre uma alta de 1,09%, o que deverá levar a inflação acumulada em 12 meses para 7,56%, ainda mais distante do teto de 6,5% a.a.

Os números da inflação de janeiro e fevereiro de 2015 revelam uma verdade incômoda: O BCB não será capaz de cumprir a meta de inflação, mesmo levando em conta o intervalo de tolerância de 2 pontos percentuais para mais ou para menos. É consenso entre os economistas e analistas do mercado financeiro que, devido ao realinhamento de preços relativos, notadamente os preços dos combustíveis e da energia, somados a forte desvalorização da taxa de câmbio, a inflação deverá fechar 2015 acima de 7%. Mesmo para 2016, as expectativas são pouco animadoras: a expectativa dominante hoje em dia é de 5,5% de variação para o IPCA, valor 1 p.p superior ao centro da meta de inflação. A convergência para o centro da meta de inflação só ocorreria em 2017, com um pouco de sorte ….

Nesse contexto, qual a racionalidade de se manter as metas de inflação num patamar que se sabe, de antemão, que não pode ser atingido? Isso apenas atua no sentido de reduzir a credibilidade do regime de metas, o que torna a política desinflacionaria ainda mais custosa em termos de perda de produto. Algo que me parece ser mais razoável seria o Conselho Monetário Nacional admitir que, face ao cenário de ajuste nos preços relativos, é necessário redefinir as metas de inflação para os próximos anos, de tal forma que a velocidade de desinflação seja minimamente compatível com algum crescimento do PIB para 2016 e 2017 (o crescimento de 2015 será negativo e muito pouco pode ser feito a respeito desse problema).

Sendo assim, eu proponho que o CMN redefina as metas de inflação para o triênio 2015-2017. Para 2015, o centro da meta de inflação deve ser elevado para 5,5%, com a manutenção do atual intervalo de tolerância. Dessa forma, o BCB estaria afirmado, nas entrelinhas, que a inflação máxima de 2015 é de 7,5%, valor esse que parece ser compatível com o processo de realinhamento de preços relativos e de desvalorização cambial agora em curso. Para 2016, tanto o centro da meta de inflação como o intervalo de tolerância devem ser reduzidos. O centro deve ser reduzido para 5% e o intervalo de tolerância deve cair para 1.5 p.p, ou seja, a inflação máxima para 2016 deve ser de 6,5%, o que representa uma diminuição de 1 p.p com respeito a 2015. Por fim, para 2017 o centro da meta de inflação deve cair para 4,5% e o intervalo de tolerância para 1 p.p, de forma que a inflação máxima será de 5,5%.

Essa redefinição das metas de inflação implica que, no pior cenário possível, ou seja, com a inflação sempre no teto do regime de metas, haverá uma desinflação de 1 p.p por ano ao longo de dois anos. Trata-se de uma velocidade de desinflação compatível com o realinhamento necessário dos preços relativos, com a eliminação da sobrevalorização cambial e com algum espaço para o crescimento da atividade econômica. Manter as metas atuais é pura teimosia, a qual custará caro em termos de perda de credibilidade no regime de metas de inflação.

 

 

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