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A Presidente Dilma Rouseff vai assumir seu segundo mandato com um país no qual a economia estará crescendo em ritmo muito lento (próximo de 0% a.a), com uma taxa de inflação que insiste em ficar próxima do teto do sistema de metas de inflação (6,5%.a.a), com uma taxa de investimento que não só é menor do que a média da América Latina como ainda vem caindo sistematicamente nos últimos anos, com a produção industrial retrocedendo aos níveis prevalecentes em 2007 e com um superávit primário como proporção do PIB abaixo de 0,5% para o setor público consolidado.

O cenário internacional também é muito pouco animador. O forte boom nos preços das commodities internacionais, que permitiu ao Brasil acelerar a sua taxa de crescimento no período 2004-2010 sem enfrentar problemas de restrição de balanço de pagamentos, chegou ao fim. A desaceleração prevista no crescimento da China para 2015 devido aos problemas existentes no setor imobiliário deverá reforçar a queda dos preços das commodities como o minério de ferro, aumentando ainda mais o nosso já crítico déficit em conta corrente, o qual anda atualmente por volta de 3,5% do PIB. Além disso, em algum momento ao longo do segundo semestre de 2015 o Federal Reserve – o Banco Central dos Estados Unidos – deverá retomar a “normalização das condições monetárias”, ou seja, deverá iniciar um ciclo de elevação da taxa de juros. Isso terá como efeito a reversão dos fluxos de capitais dos países emergentes em direção a aplicações em títulos da dívida pública norte-americana. No caso brasileiro a “parada súbita” dos fluxos de capitais externos poderá ganhar ainda mais força caso as agências de rating internacional como a S&P rebaixem a classificação de crédito dos títulos do governo brasileiro.

Os dois movimentos apresentados acima, caso se confirmem, irão atingir o balanço de pagamentos brasileiro de duas formas, o primeiro irá incrementar o déficit em conta corrente, ao passo que o segundo deverá resultar num déficit na conta de capitais! O resultado conjunto desses movimentos será uma forte pressão para a desvalorização da taxa nominal de câmbio. É provável que o Banco Central tente resistir a esse movimento da taxa de câmbio com as tradicionais operações de swap cambial e, se as mesmas se revelarem insuficientes para conter a escalada para cima da taxa de câmbio, por intermédio da venda de reservas internacionais. Teremos assim um quadro típico de crise cambial ainda em 2015: forte desvalorização da taxa de câmbio acompanhada por perda de parte significativa das reservas internacionais. Se esse cenário mais pessimista se concretizar, então 2015 será o anno horribilis para a economia brasileira, pois o PIB deverá fechar o ano com crescimento negativo, a inflação irá se acelerar ainda mais, podendo alcançar a barreira psicológica dos 10% e a taxa de desemprego irá aumentar de forma bastante significativa.

Mesmo que este cenário terrível não se confirme, o ano de 2015 será muito difícil. A Presidente Dilma Rouseff terá que iniciar o seu mandato fazendo um ajuste tanto na política fiscal como na política monetária. O ajuste fiscal é condição sine qua non para o país não ver sua classificação de risco rebaixada o que poderia detonar a “parada súbita” de capitais externos para o Brasil com as consequências que vimos acima.  Além disso, o ajuste fiscal se faz necessário como instrumento auxiliar na política de combate a inflação, ainda mais num contexto em que a taxa de câmbio irá contribuir negativamente para a redução dos índices de inflação. Nesse contexto, o próximo Presidente da República terá que fazer um esforço para aumentar o superávit primário do setor público para, pelo menos, 2,5% do PIB, ou seja, um aumento aproximadamente R$ 90 bilhões. O impacto recessivo dessa medida será forte, principalmente no segundo semestre de 2015. Tomando como base um multiplicador fiscal de 1,3 – valor que é aparentemente consensual na literatura – a redução do PIB será aproximadamente igual a R$ 117 bilhões, o que significa uma contração de  2,6% do PIB.

No que se refere a política monetária o Banco Central terá que retomar imediatamente o ciclo de elevação da taxa de juros para reverter as expectativas de inflação. Se for bem sucedido nessa tarefa e se a política fiscal seguir a trajetória descrita acima, então o ciclo de elevação dos juros será curto, sendo possível uma redução da taxa de juros no início do segundo semestre de 2015. Se o ajuste fiscal não for feito, contudo, o ciclo de elevação da taxa de juros será longo, podendo a Selic alcançar um patamar como 15 ou 16% no final de 2015.

Nesse cenário mais otimista, pois não prevê crise cambial, a economia brasileira deverá fechar o ano com um crescimento próximo de zero, inflação em queda, talvez próxima de 5,5%. Os fundamentos da economia brasileira, no entanto, estarão mais fortes no final de 2015, permitindo assim uma recuperação da economia brasileira em 2016 a partir do aumento das exportações de produtos manufaturados, supondo aqui que o agravamento das condições internacionais que discutimos anteriormente, embora não leve a uma crise cambial, permitirá um ajuste significativo da taxa de câmbio.

Em suma, 2015 será um ano de ajuste nas contas públicas e na taxa de câmbio. Se esses ajustes forem bem feitos e, especialmente, se pudermos evitar uma crise cambial, então será possível transitar de um modelo de crescimento puxado pelo consumo para um modelo de crescimento puxado pelas exportações de manufaturados e sustentado pelo aumento do investimento público e privado. Um aumento temporário do desemprego e uma queda temporária do salário real, devido a desvalorização cambial, será, contudo, inevitável.

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