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Por Cyro Andrade | De São Paulo

O que deve ler o presidente da República, que seja importante para bem decidir, além de papéis burocráticos e jornais? O Valor pediu a economistas que fizessem sugestões. O resultado está publicado a seguir: 20 livros, numa lista que inclui desde as essenciais 87 páginas de “Brasil – A Construção Interrompida”, de Celso Furtado, até “Os Donos do Poder”, de Raymundo Faoro, com memoráveis 914 páginas. Ao todo, 7.293 páginas, de clássicos ou não, que, em alguma medida, até podem já ter sido lidas por Dilma Rousseff e Aécio Neves. Só não leram, por certo, “Inflação e Crises – O Papel da Moeda”, de Affonso Celso Pastore, indicação de José Julio Senna, ainda não publicado. Pelo visto, não precisariam ler “Capital in the Twenty-First Century”: Matías Vernengo mencionou só de passagem o livro de Thomas Piketty, para dizer que “Inequality and Stability”, de James K. Galbraith, é “mais coerente”. O que não deixa de ser uma sugestão para que leiam os dois (mais 696 páginas, com Piketty).

Nos EUA, é comum o presidente dizer que livros vai ler, ou leu, nas férias de verão. Muita gente acha interessante – também os analistas políticos com inclinação para o sarcasmo. Em 2006, foi muito comentada a revelação de George W. Bush de que tinha lido “O Estrangeiro”, de Albert Camus, no qual Mersault, o protagonista, mata um árabe por sentir-se irritado pelo calor.

Aqui, primavera tórrida, não seria a época mais indicada para a presidente Dilma informar sobre suas leituras. Alguém a acusaria de diversionismo, tais o tamanho e a variedade de problemas que aguardam o país em 2015. Aécio correria o mesmo risco.

Mas justamente por isso, sendo assim ruim a perspectiva inescapável, cabe perguntar o que a (o) ocupante do Palácio do Planalto deveria ler, para compreender melhor o terreno em que pisa e sob quais condições de pressão e temperatura precisará tomar suas decisões. Eliana Cardoso, única a recomendar leitura para fruição pessoal, sugere “Uns Contos”, de Ettore Bottini, com referência irônica aos “entediantes” relatórios do Banco Mundial, que equipara aos manuais de bem governar do Renascimento, cuja atualidade sutilmente insinua.

O eleito talvez acabe não tendo tempo nem disposição para ler livros como o alentado “Post-Keynesian Economics – New Foundations” (Edward Elgar, 660 págs., 2014), do canadense Marc Lavoie – também não citado, mas indispensável para se compreender o que pensa uma ala dos chamados heterodoxos, no vozerio das disputas no mercado de ideias, e de influência no governo, com outros keynesianos e ortodoxos de várias linhagens.

Assessores poderão sugerir leituras à (ao) chefe. Livros ou resenhas, uma responsabilidade será presidencial: distinguir entre conhecimento útil e inútil ou inconfiável, entre leitura extensa e intensa – nos dois casos, incluindo o que se passa nas cabeças de assessores.

Como diz Peter Burke em “Uma História Social do Conhecimento” (Zahar, 2012), “os artigos nos periódicos especializados têm uma ‘expectativa de vida’ cada vez menor, especialmente baixa no caso das ciências naturais, média na sociologia ou na economia e um pouco mais alta na história ou na crítica literária”. [Não deve ser muito diferente com livros.] Da mesma forma, “temas ‘frios’ ou fora de moda correm o risco de ser descartados ou marginalizados. Viram ‘moedas desvalorizadas'” – o que faz lembrar inflação, assunto presente, de um modo ou de outro, em todas as recomendações de leitura para a (o) presidente.

São os seguintes os 20 livros recomendados:

“Tribunos, Profetas e Sacerdotes – Intelectuais e Ideologias no Século XX”, de Bolivar Lamounier.

Indicação de Armando Castelar, coordenador de economia aplicada do Ibre/FGV e professor do IE/UFRJ.

“O ciclo de commodities chega ao fim, ampliando as dificuldades econômicas na América Latina e levando a um aumento do antiliberalismo político (e econômico). Como observa Lamounier, “as ideologias antilberais são epistemológica e moralmente holistas (o todo é mais real e legítimo que as partes – indivíduos e grupos – que o compõem); politicamente autoritárias (divinizam o Estado, o líder e o partido); historicistas (julgam-se detentoras de um conhecimento válido do futuro); anti-institucionalistas (as instituições e normas políticas da democracia liberal têm uma relevância apenas tática); e radicalmente anti-individualistas (novamente o holismo: o indivíduo carece de realidade e de valor moral)”. O Brasil precisa se preparar não apenas para resistir a essas tentações como para lidar com vizinhos crescentemente antiberais. O livro de Lamounier nos faz refletir sobre os riscos a evitar para preservar nossa democracia, em toda sua plenitude.”

“Chutando a Escada”, de Ha-Joon Chang

“O Longo Século XX”, de Giovanni Arrighi –

Indicações de Eduardo Strachman, professor da Universidade Estadual Paulista.

“Ha-Joon Chang esclarece o peso do Estado no desenvolvimento dos países, sobretudo nos EUA. Destaca o papel de Alexander Hamilton, o primeiro secretário do Tesouro dos EUA, um fundador das políticas de proteção e promoção das indústrias nascentes. Normalmente, se conhece muito pouco dos EUA e se acha que toda aquela pujança é fruto de livre-mercado, nas relações daquele país com o exterior, o que é um equívoco em termos de inerpretação histórica.

“Arrighi tem domínio magistral da história em prazos longos (desde os séculos XV e XVI), explicitamente na linha de Fernand Braudel, a quem o autor segue. Mostra o peso dos EUA no mundo moderno, inigualado em qualquer outra época por qualquer outra potência. Para que liberais possam pensar e entender o mundo em que vivem.”

“Discurso da Servidão Voluntária”, de Étienne de La Boétie”

Indicação de Rodrigo Andrés de Souza Peñaloza, professor da Universidade de Brasília.

“Como é possível que os povos se submetam ao tirano? Essa servidão é um vício inominável, diz Boétie, pois a liberdade “é” a verdade e é o povo que se sujeita e dela desdenha ao julgar ser fácil obtê-la. Ele apresenta duas razões para a servidão voluntária: o hábito e o medo. Surge aqui a causa material da tirania, que é o fato de que seu fundamento não está na força, mas em 6 que apoiam o tirano e corrompem outros 600 e estes outros 6.000, subjugando os súditos uns através dos outros pela corrupção. Boétie termina dizendo que nada é mais contrário a Deus, soberanamente justo e bom, do que a tirania. Eis o “Discurso”. Por que o presidente deveria lê-lo? Porque a liberdade não é algo já conquistado e imune de ameaças e porque o líder não deve descuidar da honestidade daqueles que o cercam. Mesmo que de boa índole, será tido como tirano se sob seu guante a corrupção se espalhar como erva daninha e o povo não se sentir verdadeiramente livre para construir, sem medo, uma sociedade justa e perfeita.”

“Inflação e Crises: O Papel da Moeda”, de Affonso Celso Pastore

“Bandeirantes e Pioneiros”, de Vianna Moog

Indicações de José Júlio Senna, chefe do Centro de Estudos Monetários do Ibre/FGV.

“Pastore faz um exame profundo das políticas econômicas dos últimos 50 anos, com ênfase nos problemas monetários e de inflação. Sua análise empírica permite separar o que deu certo de medidas geradoras de maus resultados. Leitura indispensável para quem tem pela frente uma montanha de problemas macroeconômicos.

“É grande a contribuição de Vianna Moog ao entendimento de nossa história, ao comparar os anos de formação e as trajetórias de duas sociedades. Nos EUA, os colonos deram as costas à terra de origem, perseguiam ideais de autogoverno e acreditavam no trabalho sistemático. Entre nós, a colonização foi induzida, liderada pelo poder central de outro país, com predomínio da busca do enriquecimento rápido, da grande tacada, traço que ainda hoje persiste.”

“Formação Economica do Brasil” e “Brasil – A Construção Interrompida”, ambos de Celso Furtado

“Chutando a Escada”, de Ha-Joon Chang

“Globalização – Como Fazer Dar Certo”, de Joseph Stiglitz

“Os Donos do Poder”, de Raymundo Faoro

“Padrões de Desenvolvimento Econômico”, do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE)

Indicações de Antonio Correa de Lacerda, professor e coordenador do programa de estudos pós-graduados em economia política da PUC-SP.

“Celso Furtado, porque é um dos maiores interpretes do Brasil, se não o maior, e os dois livros mencionados representam bem sua vasta obra. Chang mostra que os países hoje desenvolvidos adotaram políticas de estimulo e intervenção na economia, embora sugiram hoje o contrário para os outros. Stiglitz faz ótima critica da globalização e de como os países devem se inserir nela. Raymundo Faoro desnuda as estruturas de poder, em visão histórica. O trabalho do CGEE é um ótimo levantamento das estratégias e padrões de desenvolvimento comparado entre grupos de países, importante referência para decisões de política econômica.”

“Bancos Centrais – Teoria e Prática” e “After the Music Stopped, ambos de Alan S. Blinder

“Financial Stability and Growth – Perspectives on Financial Regulation and New Developmentalism”, de Luiz Carlos Bresser-Pereira, Jan Kregel e Leonardo Burlamaqui (editores)

Indicações de José Luis Oreiro, professor do Instituto de Economia da UFRJ e presidente da Associação Keynesiana Brasileira.

“A parte III de “Bancos Centrais…” trata da questão da independência dos bancos centrais. O autor mostra de que forma a independência do banco central pode ser formatada sem que se comprometa o princípio básico da democracia, qual seja, “todo o poder emana do povo e em seu nome deve ser exercido”, ao mesmo tempo que se preserva a autoridade monetária da cooptação pelo sistema financeiro.

“Em “After the Music…”, o autor apresenta as razões estruturais da crise financeira de 2008, relacionando-a com a lógica da desregulação e a crença no “auto-ajustamento” dos mercados que prevaleceu nos EUA e no Reino Unido entre o final da década de 1970 e o início dos anos 2000.

“‘Financial Stability’ é uma coletânea de textos de expoentes da heterodoxia no Brasil e no mundo, como Roberto Frenkel, Jan Kregel, Bresser-Pereira, Robert Boyer, Fernando Cardim de Carvalho, Thomas Palley. Trata-se de lições da crise, com foco na importância da regulação financeira e da manutenção de uma taxa de câmbio competitiva para blindar a economia de choques como o ocorrido em setembro de 2008.”

“Inequality and Instability: A Study of the World Economy Just Before the Great Crisis”, de James K. Galbraith.

“State of Innovation – The U. S. Government’s Role in Technology Development”, de Fred Block e Matthew Keller

“The Second Machine Age”, de Erik Brynjolfsson e Andrew McAfee

Indicações de Matías Vernengo, professor da Universidade Bucknell, EUA.

“Galbraith usa os dados sobre salários manufatureiros (da Unido) e mostra um quadro melhor da desigualdade global. Por exemplo, a Índia, que não parece tão desigual nos índices de Gini, fica bem pior nos dados dele, como, de resto, o sentido comum indicaria. Além disso, fica claro que a desigualdade recente está ligada à financeirização e é a principal causa da instabilidade que levou à crise. É um livro mais coerente que o de Thomas Piketty [“O Capital no Século XXI”].

“Block e Keller mostram que há um complexo sistema de inovação tecnológica nos EUA, que permite que o país mantenha vantagem competitiva apesar dos déficits comerciais e da parcial desindustrialização.

“Brynjolfsson e McAfee mostram que estamos diante de um momento de transição, em que tecnologias informáticas e digitais terão efeitos comparáveis ao da maquina a vapor de James Watt. O recado é: menos financeirização, mais política industrial, ou algo assim.”

“Auto-Subversão”, de Alberto O. Hirschman

“As Ideias de Keynes”, de D. E. Moggridge

Indicações de José Roberto Rodrigues Afonso, pesquisador do Ibre/FGV.

“Mesmo sendo dos pensadores mais inquietos e brilhantes do século passado, Hirschman ensina como é importante não se achar o dono da verdade, como confrontar suas teses passadas com os fatos novos e não ter pudor em rever o que antes defendia, explicando porque mudou.

“Para quem acredita que o Brasil não entrou na crise global e, sobretudo, que não sabe como evitar a estagnação da economia, é indispensável voltar a ler Keynes – no original (não os keynesianos que o interpretaram, e muitas vezes erroneamente). Como faltaria tempo para ler uma produção extensa, esse livro de um de seus biógrafos oficiais oferece uma boa e precisa síntese de seu pensamento, em particular para enfrentar as turbulências na economia.”

“Uns contos”, de Ettore Bottini

Indicação de Eliana Cardoso, economista e escritora

“Escolhi um livro para horas de lazer e não um compêndio do bem governar como, por exemplo, os entediantes relatórios do Banco Mundial, que destilam exemplos e enumeram erros dos quais fugir. Esses manuais são comuns desde tempos imemoriais. Durante o Renascimento, o gênero batizado de “espelho-para-príncipes” orientava o comportamento dos governantes. Os autores retiravam de Sêneca seus preceitos sobre a clemência e a gastança – então chamada liberalidade. Aprendiam com Plutarco a distinguir o amigo verdadeiro do bajulador. Com Cícero, o cumprimento das promessas, alicerce da justiça. “O Príncipe”, de Maquiavel, faz parte desse gênero. Inclui a discussão sobre a gastança (capítulo 16), a clemência (capítulo 17), o cumprimento das promessas (capítulo 18), e o trato dos bajuladores (capítulo 23). Alguns dos conselhos subversivos de Maquiavel ficaram famosos. Veja-se a ideia de que o governante deve cumprir uma promessa se, e somente se, cumprir a promessa aumenta seu poder. Maquiavel sabia vender seu peixe, ao contrário do relatório do Banco Mundial, que aborrece o leitor com infindáveis receitas. Longe de mim, um e outro. Também não quero recomendar tomos de história com as lições aprendidas de experiências populistas e corruptas. Definitivamente, não quero maçar o rei. Assim sendo, me contento em escolher um livro que pode deleitar presidentes e homens comuns. Presidentes também têm direito ao descanso e às chaves secretas da ficção. Se as horas de lazer são curtas, um livro de contos é ideal, pois sempre se pode ler um conto de cada vez, carregando o prazer da boa leitura por muitas horas. No livro de Ettore Bottini (1948-2013), brasileiro de Blumenau, as histórias giram em torno de migrações, deslocamentos, viagens, o encontro de gerações, as paisagens rurais. A linguagem contida de fio clássico capricha na minúcia e explora o jargão dos ambientes do turfe, da marinha e da pesca fluvial. Os personagens, pequenos grandes homens, se equilibram na corda bamba da vida. O tempo é o da memória. A reflexão, madura. O prazer, do leitor.”

 

 

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