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Dois especialistas falam da crise de confiança, a desaceleração da atividade e a tendência para os próximos meses

23/08/2014 | 15h01

Vivemos uma crise de confiança?

Fernando Sampaio, diretor de macroeconomia da LCA Consultores
Existe um problema de confiança e isso atrapalha. Para investir e comprar, o empresário e o consumidor precisam de confiança. Em 2012 e 2013, o governo tentou soprar a brasa da atividade incentivando o consumo. Na indústria, a confiança acompanha o uso da capacidade instalada. Agora houve um descolamento. A queda recente da confiança é muito mais pronunciada do que a do uso da capacidade.

José Luis Oreiro, professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e presidente da Associação Keynesiana do Brasil (AKB)

Uma crise de confiança dos empresários no governo, que suspenderam planos de investimento pela incerteza quanto à política econômica. Não há um norte claro. Uma hora o governo tentou reduzir juros e desvalorizar o câmbio. Na outra, focou a inflação. Além dessa incerteza, houve desconforto no setor privado quando baixou as tarifas de energia. A percepção era de que seria um governo estatizante.

 

Que sinalizações seriam necessárias para melhorar o humor na economia?

Fernando Sampaio
O consumidor teve piora na confiança, mas foi menos pronunciada. Começou a cair nas manifestações de junho, mas fatores que tradicionalmente têm ligação não ocorreram, como queda no emprego e na renda. A eleição pesa mais para a confiança empresarial e indiretamente sobre a do consumidor, na medida que a incerteza é um ingrediente que enfraquece a economia.

José Luis Oreiro
A sinalização de uma política macroeconômica consistente. Acabar com artifícios contábeis para ter superávit primário, que nem precisaria ser muito alto, mas exequível. Depois, regras claras para o câmbio. São dois tipos de sinalização. Dependendo de quem ganhar a eleição pode haver um ciclo de otimismo. Se Dilma for reeleita, o pessimismo só seria revertido com a substituição da equipe econômica.

Qual é a tendência da economia para o segundo semestre?

Fernando Sampaio
Uma melhora tímida. Parte tem a ver com a quantidade de dias úteis a mais. Mas não é uma melhora substancial. Poderemos ter o PIB do segundo trimestre ligeiramente negativo. Pode ser positivo, próximo de zero. Existe ainda a possibilidade de recálculo do primeiro trimestre, com chance de retração. O terceiro e o quarto trimestres serão positivos, mas com crescimento muito pequeno. Estamos revisando nossa projeção de PIB para 2014, hoje em 1%.

José Luis Oreiro
Haverá uma recuperação marginal. O juro parou de subir, então dá para ter alguma recuperação. Mas certamente nada expressivo. No segundo trimestre, poderemos ter um PIB negativo, queda entre 0,4% e 0,6%. Mas a depender da magnitude dessa queda, por razões estatísticas, pode comprometer o primeiro trimestre (com uma revisão de resultado positivo para negativo). Assim, teríamos uma recessão técnica. Para todo o ano, devemos crescer entre 0,7% e 0,8%.

E para 2015?

Fernando Sampaio
Em boa medida o que está tolhendo a atividade é a incerteza sobre a eleição e a falta de confiança. Há a chance de esses fatores serem diluídos em 2015. Outro elemento é que a protelação de compras em 2014 pode ajudar 2015. Mas não será um ano de forte crescimento (a projeção da LCA é 2,1%). O eleito terá inflação e câmbio pressionados e ameaça de rebaixamento da nota de crédito do Brasil. Se a inflação der uma folga, combustíveis podem subir ainda em 2014 e não contaminar 2015.

José Luis Oreiro
Muito ruim no primeiro semestre porque serão necessários ajustes. Se a oposição vencer, o ajuste fiscal será forte, seguido de alta do juro. Poderemos ter recessão. Com Dilma, se ela fizer esse ajuste, também. Será preciso rever desonerações e conter o crescimento do gasto público com custeio. Talvez até aumento de impostos para conseguir superávit. Se esse ajuste for visto como algo que colocará as contas públicas no lugar, pode ter um impacto na confiança dos empresários, e os investimentos retornariam.

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