Tags

“Não vamos conseguir muito (…) se continuarmos na direção em que estamos, de desorganização de finanças públicas e de baixa capacidade de gestão.”

Dando continuidade à publicação dos textos referentes às falas dos participantes na oficina sobre Políticas Econômicas, promovida pela aliança PPS-PSB-Rede-PPL no mês de abril, disponibilizamos abaixo a transcrição da palavra de Pedro Cavalcanti Ferreira,

professor

da Fundação Getúlio Vargas e de José Luiz Oreiro, Professor do Instituto de Economia da UFRJ.

Pedro Cavalcanti Ferreira:
Em relação ao equilíbrio macroeconômico nós não vamos conseguir muito em termos de política social, em termos de defesa do meio ambiente, em termos de política de crescimento se continuarmos na direção em que estamos de desorganização de finanças públicas e de baixa capacidade de gestão. Já foi dado um sinal que considero muito positivo dessa campanha, que é a autonomia do Banco Central, e acredito seja um passo gigantesco em retomar a credibilidade na política pública.

Mas acho que há outras dimensões mais ou menos no sentido de retomar um caminho em que vínhamos até meados de 2000, que seriam boas metas para a campanha. Uma é retomar com credibilidade o tripé macroeconômico, retomar meta mais centrada. Uma política sólida com o Banco Central independente vai ser muito importante. Retomar uma solidez fiscal, uma política de transparência fiscal, onde as contas estejam muito claras e o déficit e o superávit primário sejam muito claros e a sociedade saiba exatamente o que está acontecendo é muito importante.

E nesse sentido seriam importantes mudanças orçamentárias no Brasil que são muito difíceis porque o orçamento é muito engessado. Então, quando você não sabe exatamente o que está acontecendo no orçamento, como agora, fica muito difícil fazer política pública no Brasil.
Uma meta de campanha para clarear o campo seria reduzir ou normalizar operação de bancos públicos e empresas públicas que viraram instrumentos de políticas públicas em direções em que supostamente não deveriam estar, e acho que isso tem impactos muito ruins na economia. Por exemplo, o uso do BNDES ou do Banco do Brasil em direções que eles não deveriam estar sendo utilizados, afinal de contas são bancos estatais e não de governo, a mesma coisa com a Petrobras, a mesma coisa com o setor de energia elétrica.

Em suma, há um grande espaço para retomar credibilidade de política pública que vejo essa campanha tendo chance de implementar. Mas acho que as direções são pouco opostas ao que vem sendo feito principalmente nos últimos cinco anos. E também é importante — e aí é meio micro e meio longo prazo — retomar a boa regulação, porque as agências de regulação foram todas aparelhadas ou enfraquecidas e seria muito importante dar uma sinalização para a economia de que regras são importantes.

José Luiz Oreiro – Boa tarde a todos. Sou Professor do Instituto de Economia da UFRJ.
Quero destoar um pouco do clima de otimismo. Acho que o primeiro mandato do próximo Presidente da República vai ser muito difícil, justamente pela macroeconomia. Nós temos três desequilíbrios hoje na economia brasileira. Um desequilíbrio externo, que se ainda não é catastrófico está ficando cada vez pior. Temos um déficit em conta corrente tendendo para 4% do PIB. Temos uma inflação que, sem contar a inflação reprimida, está tendendo ao teto do sistema de metas de inflação de 6.5% ao ano. Se contarmos com a inflação reprimida isso já está batendo 7%, 7.5%. E temos um desajuste fiscal que foi significativamente piorado no Governo da Presidente Dilma Rousseff, em que temos uma redução da capacidade de geração de superávit primário da economia brasileira.

Hoje duvido que o Governo central e Estados e Municípios sejam capazes de gerar um superávit primário maior que 2% do PIB, temos uma dívida bruta com respeito ao PIB de 60%, temos uma carga tributária muito alta para países emergentes de 38% e investimento público não passa de 2%.
Então, você vai ter que fazer nos dois primeiros anos — e essa é a tradição da República brasileira — o ajuste macro e nos dois últimos fazer o crescimento. Você vai ter que fazer um ajuste nas contas externas, reduzir a inflação e fazer um ajuste fiscal. Isso significa que você vai ter que ter uma política monetária contracionista, com elevação de juros, vai ter que ter algum aumento de superávit primário e, provavelmente, combinar isso com uma contensão do ritmo de crescimento dos gastos de consumo e custeio de governo e aumento de carga tributária.

Como bem lembrado pelo Pedro, o nosso orçamento é muito rígido, então achar que você vai conseguir fazer ajuste fiscal só pelo lado do corte de gastos é utopia. E você também, é inexorável, vai ter que fazer um ajuste da taxa de câmbio. Pelo menos uns 15% a 20% de desvalorização do câmbio. Então não vai ser nada fácil o início do próximo Governo.

Lógico que temos que pensar, como o Governador Eduardo Campos enfatizou, em metas de longo prazo. Eu sou favorável a isso, mas tem que ficar bem claro que os dois primeiros anos do próximo Governo serão para arrumar a casa. Isso é fundamental, é a chave para que o mandato do próximo Presidente da República seja bem-sucedido

Anúncios