Por Marta Watanabe e Denise Neumann | De São Paulo

Os economistas defendem que o câmbio é determinante para a indústria, mas não há consenso sobre a taxa de equilíbrio. Ao mesmo tempo, a percepção de que o processo de desvalorização do real foi interrompido em razão do uso do câmbio como forma de controlar a inflação levanta preocupações em relação a investimentos e desempenho de exportações.

Para o professor Nelson Marconi, da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (EESP/FGV), o “câmbio de equilíbrio industrial” seria hoje próximo a R$ 2,9. A conta não remete a um ano de saldos comerciais expressivos, mas toma 1992 como ideal de comparação, ano em que o câmbio trouxe equilíbrio para a balança comercial da indústria e para as transações correntes. Se a comparação é com 2005, o câmbio precisaria chegar a R$ 3,7, mas Marconi acha esse valor exagerado.

Para Marconi, câmbio não é a única variável que tiraria a indústria da atual situação de perda sistemática de valor, mas a mais importante. “Se o câmbio estiver fora do lugar e oscilando, as outras medidas ficam muito menos eficazes”. pondera.

Para o ex-secretário executivo do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa, um câmbio em torno de R$ 2,50 já atenderia parte dos pleitos da indústria. Sua avaliação é baseada na taxa a partir do qual as reclamações da indústria cresciam ou diminuiam quando ele estava no governo. Segundo ele, com câmbio a R$ 2,50, a taxa chegaria no patamar em que as reclamações se reduziam. Para Barbosa, medidas como a desoneração de folha ajudaram a minimizar os impactos do câmbio na competitividade da indústria.

Barbosa diz que o controle da inflação ainda é muito dependente do efeito da Selic sobre o câmbio e lembra que o governo tem tentado conter a inflação com a venda de ‘swaps’. Ele considerou “exagerado” a dimensão dessas operações. As reservas, disse, estão em US$ 366 bilhões, mas descontando as posições em swap, o valor cai para US$ 277,9 bilhões. Barbosa alerta que “é preciso evitar a tentação de apreciar temporariamente o real para obter um ganho de curto prazo no controle da inflação.”

José Luis Oreiro, professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), diz que a sobrevalorização entre 2005 e 2010 foi muito intensa e só em parte revertida em 2012 e 2013. A alta da inflação, diz, fez a política ser revertida. Dentro de uma nova fórmula de política fiscal que inclui reajuste de salários e redefinição de metas, inclusive de inflação, Oreiro propõe “bandas cambiais deslizantes”, com desvalorização periódica tanto do teto quanto do piso, com ajuste gradual em dois ou três anos.

Vera Thorstensen, coordenadora do centro de comércio global da FGV-SP, também propõe bandas cambiais, mas como cláusulas em acordos comerciais. Ela destacou que o real ainda está sobrevalorizado e mostrou o efeito das trocas comerciais com países com moedas desvalorizadas. Ela defende a adoção de bandas para proteção contra desvalorização cambial. Num nível de desvalorização abaixo dos limites da banda, a cláusula pode estabelecer sanções, como a suspensão da condição preferencial ou medidas compensatórias aos países afetados.

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