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A inflação brasileira se encontra num patamar bastante desconfortável. A variação acumulada do IPCA nos últimos 12 meses se encontra próxima de 6%, apesar das tentativas do governo de conter a alta da inflação com o controle de preços dos combustíveis e, até recentemente, da energia elétrica. Tudo indica que a inflação vai estourar o teto do sistema de metas de inflação até meados de 2014 e não há nenhuma garantia que volte a ficar abaixo do teto até dezembro deste ano. Se isso acontecer certamente não será o fim do mundo, pois não será a primeira vez que isso ocorre desde que o RMI foi implantado no Brasil em 1999. O problema é que agora, ao contrário dos episódios anteriores, não se pode mais contar com a apreciação da taxa de câmbio para reduzir os patamares inflacionários. O crescimento do déficit em conta corrente, que se aproxima do nível crítico de 4% do PIB, e a estagnação da produção industrial mostram de forma bastante clara que não há mais espaço para apreciar a taxa de câmbio, antes pelo contrário, será necessário um ajuste da taxa de câmbio nos próximos anos para impedir uma crise do balanço de pagamentos de grandes proporções. Por outro lado, não se pode flertar com uma inflação que está ficando perigosamente próxima dos dois dígitos por ano.  Isso porque em algum momento os mecanismos formais de indexação de preços e salários podem ser reintroduzidos, fazendo com que a inércia inflacionária habilmente reduzida, mas não totalmente eliminada, com o Plano Real retorne com toda a força. Seria o pior dos pesadelos: o retorno ao passado inglório de Alta Inflação.

Nesse contexto, uma redução da taxa de inflação para patamares mais baixos e estáveis exige que, por um certo período de tempo, a taxa de crescimento dos salários reais seja inferior a taxa de crescimento da produtividade do trabalho, justamente o contrário do que ocorre hoje.

Como esse resultado pode ser obtido? Existem duas formas. A primeira é aumentar o desemprego para “disciplinar a força de trabalho”. Nesse caso, o Banco Central terá que aumentar a taxa nominal e real de juros até o patamar necessário para fazer com que o aumento decorrente da taxa de desemprego convença os sindicatos a moderar as demandas por reajuste salarial a um patamar tal que o ritmo de aumento do salário real seja menor do que o ritmo de crescimento da produtividade. Quando os salários estiveram crescendo abaixo da produtividade, a inflação começará a cair fazendo com que, aos poucos, o Banco Central possa iniciar um processo de flexibilização da politica monetária, reduzindo gradualmente a taxa nominal e real de juros. Ao fim do processo a inflação estará mais baixa, os juros terão retornado a “normalidade”, mas a taxa de desemprego estará mais alta do que estava no início. Os maiores prejudicados serão os trabalhadores.

A segunda forma é por intermédio de uma política negociada de “moderação salarial”. Nesse caso, governo, sindicatos e empresas entram num acordo a respeito da taxa de reajuste dos salários nominais.  Se as lideranças sindicais não forem míopes – o que exige, via de regra, um elevado nível de centralização da barganhas coletivas, como ocorre, por exemplo, nos países Escandinavos – a perspectiva de aumento do desemprego, em função do aperto monetário que o Banco Central terá que conduzir para “disciplinar à força” os trabalhadores, fará com que os sindicatos concordem em moderar as suas exigências salariais. Dessa forma é possível reduzir a taxa de inflação sem que seja necessário um aumento expressivo da taxa de juros e/ou da taxa de desemprego.

Com base neste razoado fica claro que a primeira forma de controle da inflação, embora efetiva, não deveria ser adotada por sociedades civilizadas e muito menos por governos que se dizem de esquerda. A forma social-democrata de controle da inflação é por intermédio de uma política negociada de “moderação salarial”.

Os três partidos que concorrem com mais chances de vitória nas eleições presidenciais de outubro deste ano no Brasil se dizem de esquerda ou socialdemocratas. Espero que os mesmos façam uma opção preferencial por uma política civilizada de controle da inflação.

 

 

 

 

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