Tags

Gasto com o custeio da máquina pública aumenta 28% no primeiro trimestre e contradiz discurso de austeridade do governo
ROSANA HESSEL

Apesar das promessas de austeridade, o governo da presidente Dilma Rousseff continua gastando como nunca. No primeiro trimestre, as despesas com o custeio da burocracia federal e da máquina pública aumentaram 28,8% em relação ao mesmo período do ano passado, muito acima da expansão das receitas, de 11,8%. O gasto administrativo, que inclui ainda programas como o Bolsa Família, também avançou mais do que os investimentos necessários para fortalecer a economia, que cresceram 21,5%.

No total, o dispêndio do governo teve elevação de 15,1%. A falta de convergência entre o discurso e a prática resultou numa queda de 34,6% no superavit primário do governo central, que reúne as contas do Tesouro Nacional, Banco Central e Previdência. Nos três primeiros meses do ano, a economia para pagar os juros da dívida pública foi de R$ 13,05 bilhões, o menor resultado para esse período desde 2010. Em março, isoladamente, o saldo positivo foi de R$ 3,2 bilhões.

Os números apresentados ontem, pelo Tesouro Nacional mostram , porém, que o Tesouro continua usando sem constrangimento o expediente da contabilidade criativa, lançando na contabilidade receitas não recorrentes para melhorar o quadro fiscal. Os resultados foram inflados com o recebimento de um montante artificialmente elevado de dividendos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), do Banco do Brasil e da Caixa. Somente em março, foram quase R$ 3 bilhões. No primeiro trimestre, o total somou R$ 5,9 bilhões, um volume recorde e 667,6% maior do que o registrado no mesmo período de 2013. Até o fim do ano, a previsão do governo é contabilizar R$ 23,9 bilhões com essa rubrica.

Vale lembrar que, em março, o país teve sua nota de crédito rebaixada pela agência Standard & Poor”s, entre outros motivos, pela perda de consistência da política fiscal. “Mais uma vez o governo está inflando o superavit primário, fazendo operações triangulares com esses bancos e o caixa do Tesouro. Eles estão insistindo em uma estratégia cujo resultado é a perda de credibilidade”, avaliou o especialista em contas públicas Felipe Salto, da consultoria Tendências.

Promessa

O economista-chefe da corretora Tullett Prebon Brasil, Fernando Montero, destacou que, além dos dividendos, houve um incremento no item “demais receitas”, que explodiu 74% no mês retrasado na comparação com março de 2013 e aportou um ganho de R$ 5,2 bilhões apenas nesse mês. “A brecha nas contas foi preenchida por dividendos, tributos sobre Transações Financeiras do Fistel (Fundo de Fiscalização das Telecomunicações) e ressarcimentos à Previdência. Quanto tempo isso se sustenta?”, destacou.

O secretário do Tesouro, Arno Augustin, prometeu que, em abril, o resultado será bem mais elevado, na casa de dois dígitos. Na avaliação dele, apesar de somar R$ 70,1 bilhões, equivalentes a 1,4% do Produto Interno Bruto (PIB), no acumulado de 12 meses, o superavit do governo central ficou “dentro do esperado”. “Isso mostra que a meta para o quadrimestre, de R$ 28 bilhões, será cumprida”, disse. O saldo registrado até agora, no entanto, está abaixo da meta anual para todo o setor público, de 1,9% do PIB, ou R$ 99 bilhões. “Com o resultado do trimestre, dificilmente o governo conseguirá cumprir a meta, a não ser com maquiagem”, avaliou José Luis Oreiro, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

E EU
COM ISSO
O aumento acentuado dos gastos públicos amplia a demanda por bens e serviços, o que contribui para estimular a alta de preços. Numa situação em que a inflação já está elevada, como ocorre atualmente no país, a expansão da despesa do governo pressiona os preços ainda mais e acaba deixando toda a responsabilidade pelo combate à carestia com o Banco Central, que precisa subir fortemente as taxas de juros. No entanto, juros altos desestimulam as vendas do comércio e os investimentos. Desse modo, o país não consegue crescer e gerar empregos. O ideal seria que as políticas monetária e fiscal fossem coordenadas, mas isso não vem acontecendo no Brasil nos últimos anos.

Anúncios