Tags

Por Vanessa Jurgenfeld | De São Paulo

Se de um lado há economistas que consideram que o regime de metas engessou o crescimento, porque o governo, ao se preocupar com inflação, fez ao longo dos últimos anos – com raras exceções – uma política de juros altos que restringiu o avanço do investimento, de outro lado há aqueles que defendem que o regime propiciou uma inflação controlada (na maior parte desses 15 anos), abrindo espaço ao crescimento ao guiar expectativas dos agentes, possibilitar projeções e decisões de investimentos. O problema do baixo crescimento, para esses economistas, estaria, sobretudo, na “descaracterização” recente do regime.

Renato Fragelli, da FGV-Ibre, está entre os defensores de inflação mais baixa como importante elemento ao crescimento e diz que o ideal é que em vez de 4,5%, “a inflação fosse 3%, quiçá até 2%”. Para ele, o problema não está no mecanismo do regime de metas – que é bom -, mas no fato de ele não ser operado de forma correta pelo governo, com problemas especialmente no campo fiscal. “O regime de metas tem uma consistência interna desde que acompanhado por câmbio flexível e meta de superávit primário, os outros dois componentes do tripé macroeconômico”, destaca. Na sua avaliação, esse tripé teria sido rompido no governo da presidente Dilma Rousseff e por isso o regime teria perdido sua eficácia. “O sistema do tripé não funciona se você abandona um dos termos. Em política econômica existe aquela história do cobertor curto. Tem política que resolve um problema provocando outro problema. Isso é muito comum. Então, uma consistência interna do programa como um todo é muito importante”, defendeu. “Depois que entrou o governo Dilma, o intervencionismo se meteu em tudo, em todas as áreas, tanto no câmbio, na política monetária, quanto na política fiscal. Ela mexeu em tudo. Então, o regime foi descaracterizado”.

José Luis Oreiro, da UFRJ, coloca mais lenha nessa discussão. Concorda que ter o regime de metas com o que denominou de “política fiscal frouxa” é impossível. Mas faz uma ressalva: “Isso não quer dizer que você tem que ter um regime de metas com superávit primário. São duas coisas diferentes. Evidentemente que se você quer ter um regime de metas com uma política fiscal que corre frouxa e ainda mais tem mecanismos de contabilidade criativa, isso não vai funcionar”, ressalta. “Hoje há uma política não crível. E pior: se quer passar a ideia de que é uma política fiscal séria, quando ela não é”, critica.

Na avaliação de André Biancarelli, professor da Unicamp, a inflação “no patamar relativamente elevado” em que se encontra é um problema para o país. Mas problema maior ainda, diz, em termos de crescimento, “seria a receita que está implícita (ou cada vez mais explícita) no raciocínio dos que defendem uma perseguição estrita do centro da meta de 4,5%, sem respeitar a banda de flutuação e custe o que custar”, disse, citando que “a receita” envolve subida bem mais forte de juros e corte de despesas públicas significativo, com o objetivo de contrair a demanda agregada da economia. “O caminho seria doloroso e com eficácia duvidosa”, destacou, apontando que um dos aspectos é que das três fontes principais de inflação hoje (serviços, choques de oferta e preços indexados), só o primeiro componente seria afetado pelo ajuste recessivo, “e mesmo assim de maneira lenta dadas as configurações peculiares do mercado de trabalho atualmente”.

Fernando Ferrari Filho, da UFRGS, avalia que o regime de metas de inflação “tanto em fase de prosperidade quanto de contração falhou em ambos os períodos em termos de [boas] respostas de crescimento”. De acordo com seus cálculos, de 1999 a 2002, primeiro período do regime de metas e segundo mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso, o crescimento médio do país medido pelo PIB foi de 2,1% enquanto a inflação média, medida pelo IPCA, foi de 8,7%.

Entre 2003 e 2006, primeiro ano do governo Lula, o PIB cresceu a uma média de 3,5%, com inflação média de 6,4%. De 2007 a 2010, segundo governo Lula, o PIB médio foi de 4,5% e a inflação média de 5,1%. Entre 2011 e 2013, os três anos do governo Dilma para os quais há dados fechados, houve crescimento médio do PIB de 2%, com inflação média de 6,1%.

Anúncios