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Por Arícia Martins | De São Paulo

Caso definisse como alvo central um núcleo de preços que excluísse os alimentos, ao invés do índice “cheio”, o Brasil seria pioneiro entre o grupo de países que adota o regime de metas de inflação na América Latina e iria na contramão de outras economias que já fizeram experiência semelhante, mas a encerraram. Assim como o Banco Central brasileiro, as autoridades monetárias do México, Colômbia, Chile e Peru levam em conta medidas alternativas de núcleo nas decisões de política monetária, mas perseguem metas com base em seus respectivos Índices de Preços ao Consumidor (IPCs).

No mundo, entre os 26 países que adotam o regime de metas, são poucos os que ainda têm medidas de “core” como objetivo. Canadá, Austrália, República Tcheca e Nova Zelândia abandonaram o modelo, e hoje perseguem a inflação geral. A Tailândia continua seguindo a regra, mas com maior flexibilidade. A meta de inflação do país, que vai de zero até 3,5%, leva em conta a média trimestral do núcleo do IPC, que exclui preços de alimentos in natura e energia.

 

Para o Brasil, mesmo economistas que questionam a atual metodologia do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) consideram má ideia trocar o indicador geral por uma medida sem os alimentos, algo que, segundo noticiou o jornal “O Globo”, técnicos do governo têm defendido, diante do atual choque provocado pela seca. Para analistas, a mudança seria vista como uma manobra das autoridades para colocar a inflação na meta à força, na esteira do controle de preços administrados que evitou um estouro em 2013. Além disso, especialistas mencionam que, ao contrário de outros países, os alimentos têm peso relevante na cesta de consumo dos brasileiros e, por isso, um índice sem estes produtos não seria representativo do custo de vida. O grupo alimentação e bebidas responde por 24,6% do IPCA.

“Essa seria uma alteração oportunista para esconder o problema, porque no momento há uma pressão altista dos alimentos”, diz José Luis Oreiro, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) que sugeriu proposta parecida em um estudo há cinco anos. Oreiro ressalta que hoje os núcleos de inflação também estão elevados, já que a origem do atual processo inflacionário é o aumento dos salários acima da produtividade. Assim, diz ele, retirar os alimentos do IPCA não faria sentido agora.

Em uma série de respostas a perguntas mais frequentes feita em março de 2013, o BC explica que a escolha do índice cheio se deveu a dois motivos: o núcleo e a inflação total podem divergir significativamente no curto prazo; mais importante do que isso, porém, seria a questão da credibilidade e transparência. Na visão do BC, a introdução de um conceito de núcleo – que não reflete a inflação efetivamente ocorrida ao consumidor – poderia ter gerado ainda mais dúvidas na população quando o regime de metas foi implantado.

Segundo o diretor de pesquisas econômicas para a América Latina do Goldman Sachs, Alberto Ramos, caso o centro da meta de inflação se tornasse um núcleo sem alimentos, o sinal passado ao mercado seria de falta de comprometimento em combater a alta dos preços. Ramos também avalia que o principal problema na dinâmica inflacionária não reside nos alimentos, já que a medida que exclui a variação desses itens e de preços monitorados aumentou 6,4% nos 12 meses terminados em março. “Dos oito grandes grupos que compõem o IPCA, tirando os alimentos, cinco deles estão rodando acima do teto da meta em 12 meses”, nota o economista.

Para Braulio Borges, economista-chefe da LCA Consultores, existem alguns pontos que podem ser aprimorados no cálculo do IPCA, como atualizações mais frequentes das Pesquisas de Orçamentos Familiares (POFs), usadas para estimar os pesos de bens e serviços, e métodos que captem a substituição de produtos. Mesmo assim, Borges diz que definir um núcleo como meta de inflação seria equivocado, já que os índices de preços têm como objetivo medir o custo de vida da sociedade e, no Brasil, boa parte do orçamento das famílias é destinado à alimentação.

Já os professores André Biancarelli, da Unicamp, e Heron do Carmo, da FEA-USP, avaliam que a adoção de um núcleo por exclusão como meta não é má ideia e pode ser pensada para um futuro próximo, mas, se implementada agora, seria um tiro no pé. Para o economista da USP, a alteração só criaria mais incertezas no atual contexto de pressões inflacionárias. Além disso, afirma, a medida correta seria usar um núcleo que excluísse alimentos semielaborados e energia, e não o grupo alimentação.

Biancarelli diz que o uso de um núcleo como meta de inflação faz sentido econômico e não é uma “malandragem”, já que retira do índice itens suscetíveis a choques de oferta, cujos efeitos não são combatidos pela política monetária. Mesmo assim, afirma ele, a mudança no momento atual não seria a solução ideal, pois soaria como casuísmo.

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