No dia 17 de abril o Prof. Eleutério Prado da FEA-USP publicou no seu blog “Economia e Complexidade” um post sobre os críticos à condução da política macroeconômica (http://eleuterioprado.wordpress.com/2014/04/17/o-mau-humor-do-mercado/). Nesse post o Prof. Eleutério Prado dedica alguns parágrafos a uma revisão dos meus argumentos apresentados no post “A Armadilha Juros-Câmbio a Continuidade do Desequilíbrio Macroeconômico Brasileiro”. No entendimento de Eleutério meu diagnóstico a respeito da semi-estagnação da economia brasileira estaria baseado na redução da taxa de lucro proveniente da redução da taxa de exploração da força de trabalho viabilizada nos sucessivos mandatos do governo do PT. Nas suas palavras:

“Ao lembrar-se da importância da taxa esperada de retorno para o desempenho do sistema, mesmo que não pretenda, Oreiro vem concordar com Marx quando este diz que “o valor de uso nunсa deve ser tratado сomo meta imediata do сapitalismo tampouсo o luсro isolado, mas apenas o inсessante movimento do ganho” (Marx, 1983, p. 129). Ora, assim, este autor heterodoxo vem apontar como causa da estagnação recente do capitalismo no Brasil a redução da taxa de exploração e, assim, a redução consequente da taxa de lucro. Assim, também, ele deixa mais explícito aquilo o que os outros autores antes citados deixam apenas implícito. O que não deixa de ser um mérito!”

Como já mencionei ao próprio Eleutério por e-mail, tenho grande dificuldade em entender esse argumento. De fato, minha análise está apoiada na hipótese de que a taxa (esperada) de lucro para o investimento industrial se reduziu nos últimos anos devido a combinação perversa entre apreciação cambial e juros elevados (e poderíamos também acrescentar a elevação dos salários acima da produtividade do trabalho nos últimos anos). Mas dizer que isso decorre de uma redução da taxa de exploração me parece um non sequitur.

Com efeito, a taxa de lucro na teoria Marxista é igual a razão entre a massa de mais-valia (m) e a soma entre capital constante (c) e capital variável (v). O capital constante refere-se a parte do valor que é transmitida para as mercadorias pelas máquinas e equipamentos, trata-se da quantidade de trabalho social que é indiretamente necessária para a produção das mercadorias. O capital variável (v) é o valor da força de trabalho, ou seja, a quantidade de trabalho que é socialmente necessária para a reprodução da força de trabalho. Por fim, a mais-valia corresponde ao trabalho não-pago. A taxa de lucro pode então ser expressa da seguinte forma:

R = m/(c+v) = (m/v)/(1+(c/v)),

onde: m/v é a taxa de exploração e c/v é a composição orgânica do capital.

Considerando que uma parte dos bens salário é composta por mercadorias importadas, segue-se que uma apreciação da taxa de câmbio deveria reduzir o custo de reprodução da força de trabalho ao tornar mais baratos uma parte dos bens que são consumidos pelos trabalhadores. Nesse caso, o capital variável deveria diminuir o que levaria a um aumento, não uma redução, da taxa de exploração.

Por outro lado, a apreciação cambial no Brasil está associada a um movimento de desindustrialização. Como a indústria é mais intensiva em maquinaria do que o setor de serviços; segue-se que a composição orgânica do capital deveria diminuir, atuando assim no sentido de aumentar, ao invés de reduzir, a taxa de lucro.

Em resumo, não consigo entender como a teoria marxista pode ser usada para entender a situação recente de semi-estagnação da economia brasileira.

Segue o debate.

 

 

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