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Analistas discutem se o presidente que for eleito em outubro deve escolher o gradualismo ou um tratamento de choque para atacar os problemas que o atual governo deixará para os próximos anos
ROSANA HESSEL

Os desequilíbrios da economia estão solapando a popularidade da presidente Dilma Rousseff. Por isso, cresce entre os analistas a discussão sobre os ajustes que precisarão ser feitos no início do próximo governo, seja quem for o vencedor das eleições de outubro próximo, para que a situação não continue a se agravar. O principal questionamento é se quem assumir o poder em 2015 tentará fazer tudo de uma vez ou optará por medidas graduais.

A quantidade de entulho econômico a ser removido é grande: preços reprimidos de combustíveis e de energia, baixo superavit primário (poupança para o pagamento dos juros da dívida pública) comprometendo a confiança na política fiscal, e até juros altos, mas insuficientes para debelar a disparada dos preços. É certo que, se o choque vier de uma vez só, o país entrará em recessão. No entanto, a credibilidade do governo poderia ser recuperada mais rapidamente e o país não correria o risco de ser rebaixado novamente pelas agências de classificação de risco. Se a opção for pelo gradualismo, o novo governante pode manter a popularidade por mais algum tempo, mas a fatura das correções necessárias será cada vez maior no futuro.

Caso Dilma ganhe, como apontam as atuais pesquisas, a maioria das apostas é de que ela continuará com medidas homeopáticas, a exemplo do que vem fazendo o Banco Central (BC) desde abril do ano passado, com a elevação paulatina da taxa Selic. O quadro previsto para 2015, no entanto, não é nada animador. Os analistas acham que o legado de Dilma será um país com baixo crescimento, inflação crescente e contas públicas em tamanho descompasso que contabilidade criativa alguma dará jeito. Em matéria de expansão econômica, ela conseguirá deixar uma média pífia de avanço do Produto Interno Bruto (PIB): abaixo de 2% pelas projeções mais pessimistas, um dos piores desempenhos desde o governo Collor, há mais de 20 anos.

Em relação aos juros, a presidente tem menos ainda a comemorar. A Selic acaba de voltar a 11% ao ano, patamar acima dos 10,75% de quando ela assumiu o poder. O pior é que nem esse nível tem sido suficiente para conter a inflação, que não dá trégua e, segundo projeções das consultorias econômicas, pode estourar o teto da meta, de 6,5%, durante a Copa do Mundo, entre junho e julho, e ficar nesse nível até setembro. Nas contas externas, o país terá neste ano um rombo sem precedentes, de US$ 80 bilhões, segundo projeção do BC, e um superavit de apenas US$ 8 bilhões na balança comercial.

Tais resultados jogaram por terra a imagem da boa gerente com que Dilma foi eleita. “Falta qualidade e competência. Na área fiscal, não foi feito o necessário corte de despesas, e o que resta é o aumento atabalhoado de impostos. A conta da cerveja, por exemplo, ficou mais salgada para pagar a elevação do custo da energia”, critica o professor do Insper Ricardo Rocha.

Convicções

O economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, não acredita que Dilma optará por um tratamento de choque. “Para isso, ela precisaria mudar a equipe econômica e todas as suas convicções”, pondera. Segundo Vale, a situação tende a piorar nos próximos quatro anos, se a presidente for reeleita. “Ela vai deixar o estrago para quem entrar em 2019. É uma pena porque serão oito anos perdidos e uma herança maldita gigantesca.” Nem mesmo a taxa de desemprego, que permanece em níveis historicamente baixos — 5,1% em fevereiro passado — deve se sustentar, devido aos problemas do setor industrial, que está com a produção em queda e não terá como manter o nível dos salários. Além disso, afirma, um racionamento de energia pode botar abaixo qualquer avaliação positiva do mandato.

Para o ex-diretor do Banco Central Alexandre Schwartsman, o ajuste precisa ser feito logo e tem de ser forte. “As maldades são feitas em uma só tacada. Já as bondades, aos pouquinhos”, diz ele, citando as ideias do pensador italiano Nicolau Maquiavel. “O ideal seria um tratamento de choque. Do ponto de vista monetário, a gente já experimentou o gradualismo, que não está funcionando”, afirma. “Se o governo quiser uma taxa de inflação de 5%, os juros precisam estar acima de 12% ao ano”, sentencia.

No entender de Schwartsman, a vantagem do governo é que a maioria do eleitorado não entende a discussão complexa envolvendo ajuste fiscal e política monetária. “Resta para a oposição criticar a inflação, que está voltando com força. Isso as pessoas compreendem. Basta uma dona de casa ir à feira para ver quanto o alimento está mais caro.”

O coordenador de Economia Aplicada do Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), Armando Castelar, destaca que a discussão sobre o choque está em alta entre os especialistas porque “o governo criou uma quantidade enorme de problemas que atrapalham qualquer medida de política econômica”. Na área da energia, o Tesouro Nacional vai ter que bancar os prejuízos bilionários do setor, que pioraram com a mudança arbitrária das regras para reduzir a conta de luz. “Isso só será resolvido no próximo ano e terá um impacto de 20% no custo para o consumidor”, afirma.

Na avaliação do economista José Luis Oreiro, professor de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), uma política de choque seria temerária. “O gradualismo não só é possível como necessário para manter as conquistas sociais dos últimos anos”, afirma. Para ele, a taxa de câmbio não vai mudar com Dilma ou Aécio Neves. “Isso significa que deveremos continuar com deficit em conta-corrente num patamar desconfortável e com a indústria crescendo pouco”, avalia.

O que esperar para 2015
» Juros mais altos, provavelmente acima de 15%

» Inflação estourando o teto de 6,5%

» Elevação do desemprego

» Arrocho fiscal maior

» Aumento dos combustíveis e de tarifas públicas, como transporte e energia

» Maior instabilidade na economia

Fonte: Analistas

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