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Por Vanessa Jurgenfeld e Flavia Lima | De São Paulo

Luis Ushirobira/Valor / Luis Ushirobira/Valor

Oreiro diz que déficit em transações correntes acendeu sinal de alerta

 

A vulnerabilidade externa do Brasil voltou a chamar atenção e a ser alvo de um debate acalorado. Alguns economistas ouvidos pelo Valor afirmam que acendeu a luz amarela no déficit em transações correntes como proporção do Produto Interno Bruto (PIB), agora mais próximo de 4%, a despeito de o mercado se mostrar menos pessimista no curtíssimo prazo, ao prever elevação do Investimento Estrangeiro Direto (IED), de US$ 55,4 bilhões para US$ 59 bilhões em 2014, segundo o mais recente boletim Focus, do BC.

Alguns economistas já apontam para um quadro mais complexo: consideram que as contas externas do país indicam aumento do risco de um estresse cambial, não só pelo crescimento do déficit em transações correntes, que se aprofunda desde dezembro de 2008, mas pela falta do que chamam de mudanças estruturais na economia.

A fragilidade do setor externo recentemente foi ressaltada pela agência de classificação de risco Standard & Poor’s (S&P). E dados divulgados na última semana pelo BC, dizem economistas, reforçaram a ideia de aumento da vulnerabilidade. Em 12 meses até fevereiro, houve avanço do déficit de em transações correntes de 2,8% para 3,69% do PIB, o maior desde os 4,19%, de 2001, ano que precede a grande volatilidade cambial do segundo semestre de 2002, e bem acima dos 2,41% de dezembro de 2012.

O problema não é só o fato de o déficit sobre o PIB estar em evolução, mas também porque a esperada melhora dessa relação – que estava prevista no fim do ano passado – não ocorreu ainda. Em outubro, a percepção era a de que o déficit, então de 3,59% do PIB, tinha atingido o seu pico e iniciaria processo de desaceleração, caindo para 2,5% do PIB já no fim de 2014.

Mas várias questões não estavam no horizonte dos analistas, como, por exemplo, o impacto até agora reduzido da desvalorização do real sobre as exportações e os problemas de controle de importação de manufaturados pela Argentina, um dos principais parceiros comerciais do país.

“No nosso caso, esse déficit de quase 4% é grave. E o próprio ‘downgrade’ expressa essa dificuldade de financiamento. As agências só fazem ‘downgrade’ quando consultam o mercado e percebem que o mundo está cobrando mais do Brasil. Ela [a agência] é sempre ex-post [posterior] nessa avaliação”, avalia Reinaldo Gonçalves, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Para alguns economistas, o déficit não melhora, porque o país não resolveu alguns problemas estruturais. Gonçalves, que há anos analisa a vulnerabilidade externa em quatro esferas – produtiva, financeira, comercial e tecnológica -, diz que, tanto numa análise conjuntural quanto numa análise baseada em indicadores que envolvem a estrutura da economia brasileira, há um “aprofundamento significativo” da vulnerabilidade.

 

Em termos de estrutura, entre outros aspectos, ele diz que continua em curso a reprimarização da pauta exportadora e a perda de competitividade internacional da indústria, o que seguem prejudicando o desempenho da balança comercial, que ainda acumula déficit, mesmo após dez meses de desvalorização cambial, em que o dólar oscila entre R$ 2,20 e R$ 2,30.

Para José Luis Oreiro, também professor da UFRJ, a vulnerabilidade externa está aumentando, especialmente pelo déficit em transações correntes. Mas isso não significa que haverá uma crise nas próximas semanas ou meses. “Há muita dependência de commodities, o que nos torna especialmente vulneráveis a uma redução do crescimento da China. Então, estamos em uma situação em que esse déficit de 4% acendeu sinal de alerta”.

Gonçalves ressalta que é importante, sobretudo, um olhar sobre a esfera financeira da vulnerabilidade, observando especialmente o passivo externo líquido. Ele calcula que o passivo externo total do Brasil está em torno de US$ 1,5 trilhão. Desse total, há cerca de US$ 560 bilhões que são IED (excluindo empréstimos intercompanhia). Ele desconta do US$ 1,5 trilhão o IED e o volume de reservas internacionais, de US$ 362 bilhões, e chega a um passivo externo líquido “a descoberto no curto prazo” de cerca de US$ 570 bilhões.

“É por isso que o mundo fez o corte do rating. Em grande medida, por causa desse passivo. Não é dívida pública ou baixo crescimento. Isso influencia, mas o problema não é o Brasil crescer menos”, afirma Gonçalves.

Fernando Ferrari Filho, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, descarta um maior estresse cambial, mas concorda que o país esteja mais frágil. “Nas transações correntes, em 2010 o rombo era de US$ 47,4 bilhões. Três anos depois, era de US$ 81,4 bilhões. Cresceu então quase 100%. Neste particular, a fragilidade está aumentando”, explicou Ferrari Filho. “Mas dizer que acendeu a luz amarela para uma crise cambial, estamos longe disso”, ponderou.

Para Luis Afonso Lima, presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica (Sobeet), a adoção do câmbio flutuante e o acúmulo de reservas internacionais são alguns dos fatores que sustentam o déficit e que diferenciam o momento atual da segunda metade dos anos 90. O déficit atual, diz Lima, reflete baixo nível de poupança interna, o que indica que há fortes indícios de consumo das famílias e do governo elevados. E que, como o aumento do déficit não vem favorecendo o aumento da produtividade, a solvência externa pode, mais para frente, ser comprometida. Para a Sobeet, é importante considerar o que pode ocorrer mais para frente, quando a alta do juro americano, a desaceleração chinesa e o aumento da aversão ao risco dos emergentes reduzirem a maré de liquidez internacional.

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