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Publicação: 02/03/2014 06:00       Atualização: 02/03/2014 07:26

Deco Bancillon

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Brasília – Alterar o quadro de baixo crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) dos últimos três anos – a pior média anual desde o governo Fernando Collor (1990-1992) – será o maior desafio do próximo mandato presidencial, seja com a reeleição de Dilma Rousseff ou com a vitória da oposição. Para especialistas, se mantido por vários anos, o baixo desempenho da economia tende a atrofiar a capacidade de o país crescer.
Nas contas do estrategista-chefe para o Brasil do banco japonês Mizuho, Luciano Rostagno, o chamado PIB potencial do país caiu de 4,3%, em 2007, para os atuais 2,5%. A medida considera o tamanho da população e a capacidade de empresas e governos atenderem o consumo interno. “Qualquer expansão acima desse patamar impulsiona a inflação, porque começa a faltar produto e até trabalhadores qualificados para atender a demanda extra das famílias e das empresas”, explica.
Esse descompasso prejudica, sobretudo, a confiança dos empresários. “À medida que o país cresce pouco durante um longo período, as expectativas do setor privado acabam se deprimindo, afetando investimentos e, por tabela, inibe a expansão no futuro”, analisa o economista José Luis Oreiro, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “É um ciclo que se realimenta e produz um efeito perverso nas projeções. Uma vez que há uma trajetória de baixo crescimento, a chance de continuar nela é muito alta”, assinalou.
Curiosamente, nas últimas eleições presidenciais, a então candidata Dilma prometia taxas de crescimento em patamares elevados e sustentáveis. Mas essa que era uma das principais bandeiras de campanha não se confirmou. Tão logo tomou posse, em 2011, a presidente mandou o Ministério da Fazenda elaborar documento com as metas para os quatro anos de seu governo, prevendo expansão média anual de 5,9% da economia.
A projeção, no entanto, ficou distante do resultado alcançado: um desempenho médio de 2% nos três primeiros anos de sua gestão. Essa taxa pode cair ainda mais tão logo se confirme um avanço de só 1,4% do PIB neste ano, conforme prevê o mais recente relatório apresentado pela consultoria Mauá Sekular. Nesse caso, a taxa média de crescimento recuaria para 1,9% ao ano, cerca de um terço dos 5,9% imaginados pelo governo.
DESVIO DE ROTA Esse erro de planejamento pode ser explicado, em parte, pelo modelo de desenvolvimento adotado pela equipe econômica da presidente. O texto que trazia as estimativas mais favoráveis ao PIB avisava que as “medidas macroprudenciais” a serem adotadas então pelo governo, em conjunto com a consolidação fiscal, deviam permitir que a economia seguisse “em crescimento sem descompasso entre oferta e demanda”. Em outras palavras: o governo perseguiria uma linha responsável na gestão das contas públicas, intervindo no mercado apenas para evitar solavancos inesperados, como foi o aprofundamento da crise financeira global.
Não foi o que ocorreu. Em vez de consolidação fiscal, o governo ampliou gastos em ritmo três vezes superior ao aumento da receita tributária. A consequência disso foi a redução do esforço para pagar os juros da dívida pública, representado pela meta de superávit primário. O indicador encolheu sensivelmente nos últimos três anos. Passou de 3,1% do PIB, em 2011, para 1,9% no ano passado.
Modelo superado A estratégia do governo Dilma Rousseff para acelerar o crescimento do  Produto Interno Bruto (PIB) parecia simples. Ao estimular o consumo  interno, os investimentos produtivos viriam a reboque, corrigindo o  desequilíbrio entre a forte demanda das famílias e a insuficiente  capacidade das empresas em atendê-las. No entanto, a proposta, que ficou  conhecida como nova matriz econômica, falhou. A expansão da atividade  entrou em desaceleração e o custo de vida colou no limite de tolerância,  subiu para próximo de 6,5%, o teto da meta de inflação.
O  economista-chefe da Mauá Sekular, Alessandro del Drago, lembra que a  taxa de expansão do PIB, de 1,9% na comparação entre o último trimestre  do ano passado e igual período de 2012, ficou abaixo do potencial, que  seria de 2,4%. “O país tem crescido abaixo do que pode porque não  conseguiu equacionar os problemas de oferta, como gargalos logísticos e  ampliação da produtividade. Como essas medidas dependem de reformas  estruturais, que não são feitas da noite para o dia, deveremos ter a  continuidade desse baixo crescimento por algum tempo”, afirma.
Na  média dos países emergentes, o Brasil tem tido um dos piores  desempenhos. Essa fraqueza, porém, não pode ser atribuída à escassez de  demanda, como ocorreu em 2008 e, sobretudo, em 2009, observam os  economistas Affonso Celso Pastore, Marcelo Gazzano e Maria Cristina  Pinotti no estudo “A armadilha do baixo crescimento”, publicado ano  passado.
“Para o governo, a chave para a retomada dos  investimentos é a ampliação do consumo, proveniente dos estímulos  fiscais”, escreveram. Eles defendem justamente o inverso que o proposto  pelo governo. “O mercado de trabalho mostra evidências de pleno emprego,  e o consumo persiste crescendo, negando a hipótese de escassez de  demanda. Nosso baixo crescimento está ligado a um problema de oferta (de  produtos e serviços), com as taxas baixas de investimento desacelerando  o crescimento do PIB potencial”, explicam.
Mudar esse quadro e  ampliar o potencial de crescimento do país, argumenta a economista-chefe  da XP Investimentos, Zeina Latif, depende da realização de mudanças  estruturais. “O abandono da agenda de reformas econômicas se refletiu na  perda de produtividade. Essas mudanças atuariam no lado da oferta e não  no da demanda. Daí a necessidade de novos rumos na política econômica”,  comenta.
O mesmo pensa o economista do banco japonês Mizuho  Rostagno. “Precisamos retomar as reformas estruturais para o Brasil  poder voltar a crescer mais forte. O PIB potencial é um reflexo disso,  atingindo seu auge em 2007 e caindo mais forte nos últimos anos”,  lembrou. (DB)

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