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Modelo econômico comemorado em 2010 já não é consenso. Economistas querem investimento, mas não sabem de onde virá

Rio – Inflação próxima do teto da meta, balança comercial deficitária, desvalorização cambial crescente e cenário externo preocupante. Um ambiente de instabilidade está dando margem a críticos do governo da presidenta Dilma Rousseff, em ano de eleição, para questionar a política econômica que, em artigo publicado em 2010, o então secretário do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa (atual pesquisador da Fundação Getúlio Vargas), classificou como caso de sucesso. “Durante o governo Lula, o Brasil iniciou uma nova fase de desenvolvimento econômico e social, em que se combinam crescimento econômico com redução das desigualdades sociais”, comemorou, então, Barbosa.

Com um Produto Interno Bruto (PIB) negativo em 0,5% no terceiro trimestre de 2013, comparado a igual período anterior, e o processo de retração da desigualdade estagnado, como demonstra a Pesquisa por Amostras de Domicílio (Pnad) de 2012, academia e mercado questionam: a fórmula desandou?

Em seu artigo, na época em que o Brasil avançava a ritmo chinês, Barbosa atribuiu o crescimento à mão do “Estado no estímulo ao desenvolvimento e no planejamento de longo prazo”, uma clara alusão à teoria de John Maynard Keynes, teórico do século XX, defensor da tese de que o ciclo econômico não é auto-regulado. A própria presidenta Dilma Rousseff tem a sua imagem, frequentemente, atrelada à escola keynesiana, pela defesa à intervenção estatal na economia – como a decisão de segurar os preços dos combustíveis vendidos pela Petrobras e também da energia elétrica, contrariando os interesses empresariais. Seu orientador de mestrado na Unicamp foi o professor keynesiano Manoel Cardoso de Melo.

A esse grupo se contrapõem os neoliberais, credores no poder dos fundamentos financeiros para equilibrar a economia. No entanto, atualmente, diante de perspectivas não tão otimistas quanto as de três anos atrás, a presidenta enfrenta crítica de ambos os lados e não chega a ser reconhecida como uma fiel representante por nenhum deles. Presidente da Associação Keynesiana Brasileira (AKB), o professor da Universidade de Brasília (UNB) José Luis da Costa Oreiro enxerga na atual política econômica uma flexibilização do modelo econômico do “tripé” – câmbio flutuante, metade inflação e superávit primário – inaugurado pela equipe de Fernando Henrique Cardoso.

“Não houve mudança na matriz macroeconômica. O que foi feito foi alongar a convergência do centro da meta da inflação, reduzir a meta de superávit primário e manter o regime de flutuação cambial, mas com indução de valorização por meio de mais controle da entrada de capitais. Foi mantida a lógica do modelo anterior, só que o governo passou a testar os seus limites”, diz Oreiro.

Em sua opinião, não é suficiente flexibilizar o tripé, criado para conter a inflação, para garantir crescimento econômico. Em vez disso, sua principal proposta é que o governo adote um sistema de meta de poupança pública, com foco no investimento. “Essa é a regra de ouro da política fiscal de Keynes, na qual o endividamento público só pode ocorrer para financiar investimento e não o consumo. É claro que é uma mudança que não pode ser feita do dia para a noite”, ressalta o professor da UnB, salientando, em seguida, que a taxa de poupança pública hoje é negativa em 1% do PIB e que o ideal seria estar em 5%. “Não é uma política de austeridade, mas de mudança do perfil do déficit. É uma mudança da composição da poupança. O ideal é financiar todo o investimento com poupança interna e zerar a externa”.

O que está em questão no debate sobre a política econômica atual, a mesma comemorada no artigo de Barbosa de 2010, é o gasto do governo e a sua capacidade de investimento em um ambiente externo mais hostil, diz o economista-chefe da Gradual Investimentos, André Perfeito. “A única coisa a ser feita é mostrar sinais fiscais menos expansionistas, evitar custeio. Exatamente o que ninguém sabe, porque o grau de mau humor chegou a um grau muito elevado”, opina. Ele reclama de uma má vontade dos economistas. “Chegamos num ponto em que o mercado exige que o governo jogue o país para a recessão”.

Solução à crise é tema de dossiê de Associação

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A crise econômica internacional e o sentimento de falência do modelo neoliberal que predominou no cenário externo a partir de 2008 fortaleceu no Brasil um grupo de economistas que veem na mão do Estado a solução. Em meio à turbulência, foi criada a Associação Keynesiana Brasileira (AKB), em 2008. Sua função, desde então, é desenvolver o conhecimento da teoria do britânico John Maynard Keynes, para quem a “mão invisível” do mercado não funciona por si só contra situações de concentração de renda e desemprego. Em vez disso, a saída para os keynesianos está na intervenção do governo na economia.

Hoje, após seis anos de criação da entidade, cerca de 150 economistas brasileiros aderiram à AKB. São professores universitários, analistas de mercados, entes do governo e profissionais da iniciativa privada que apostam na intervenção do Estado como complementação aos mercados privados. Economistas formados, sobretudo, nas universidades federais – como Unicamp, UFRJ, UFMG e Universidade Federal de Uberlândia -, de diferentes orientações partidárias

Anualmente, a AKB organiza um encontro internacional. Neste, acontecerá em agosto, na Fundação Getúlio Vargas de São Paulo, com homenagem ao economista Luiz Gonzaga Belluzzo, da Unicamp, e minicurso de Nelson Barbosa, do Instituto Brasileiro de Economia da FGV (Ibre/FGV).

Além do fórum, os keynesianos brasileiros também produzem dossiês da crise. O terceiro e último, publicado em 2013, teve o sugestivo título “A economia brasileira na encruzilhada”.

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