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Acabei de ler a entrevista de Nelson Barbosa ao blog do ex-ministro José Dirceu (http://www.zedirceu.com.br/debate-economico-no-brasil-ainda-e-preso-ao-passado/). Barbosa é certamente o melhor quadro técnico do PT e até hoje não consigo entender como a Presidente Dilma Rouseff, a quem considero uma pessoa razoavelmente inteligente, pode preterir o Nelson a dupla dinâmica Mantega-Agustin … A Política tem razões que a Razão desconhece …

Quero, no entanto, me centrar num trecho da entrevista na qual ele define a posição da corrente industrialista (que eu imagino ser a corrente novo-desenvolvimentista, a qual pertenço) como (sic):

“A outra estratégia é promover uma maxidesvalorização do real. Jogar a taxa de câmbio lá em cima e adotar uma política monetária e fiscal restritiva para fazer com que a desvalorização do real não gere muita inflação. O aumento da taxa de câmbio e a política econômica restritiva que a acompanha geram uma recessão, não tão forte quanto na opção anterior, mas ainda assim uma recessão e um aumento no desemprego. Essa estratégia também tem um custo social significativo, não tão alto quanto a primeira alternativa, mas ainda assim um impacto negativo para os trabalhadores, pois a maxidesvalorização do real gera inflação, derruba salário e aumenta o desemprego. Além desse problema, a manipulação da taxa de câmbio é incompatível com o atual sistema brasileiro, com liberdade de movimentação de capitais. Não acho que essa é uma solução boa”

Segundo Barbosa a estratégia novo-desenvolvimentista se baseia na adoção de uma política monetária e fiscal restritiva para então desvalorizar o câmbio, estimulando assim a competitividade da indústria e, dessa forma, acelerar o investimento e o crescimento da economia. Neste ponto, Barbosa, talvez inclinado a fazer um pouco de jogo político com seu interlocutor, apresentou o novo-desenvolvimentismo de forma, no mínimo, equivocada, para “endeusar” a estratégia populista e curto-prazista adotada pelos sucessivos governos do PT, do qual ele foi parte integrante.

Isso posto, vamos esclarecer alguns pontos:

(i) A estratégia novo-desenvolvimentista parte do pressuposto que sem a re-industrialização da economia brasileira não será possível a retomada do crescimento da economia brasileira em bases sustentadas. Isso porque uma economia que possui uma força de trabalho mal treinada e mal-educada – problema esse que só pode ser resolvido num horizonte temporal de 40 anos – não tem outra opção para crescer que não seja via indústria. Acreditar que um país como o Brasil pode crescer com base nos (sic) ganhos de produtividade oriundos de um setor de serviços, em sua imensa maioria, primitivo, é acreditar em contos da carochinha. Ou crescemos com base na indústria ou voltaremos ao passado inglório de país primário-exportador. Assim simples.

(ii) A perda recente de dinamismo da indústria – desde 2005, ou seja, na era do PT – deveu-se a combinação perversa de apreciação da taxa real de câmbio e crescimento dos salários acima da produtividade do trabalho. Isso não quer dizer que a desindustrialização tenha surgido no governo do PT – nesse quesito FHC também tem culpa no cartório – mas ela se aprofundou recentemente. Essa desindustrialização é, sim, o resultado de uma política macroeconômica equivocada que gerou um aumento irreal e não sustentado do salário real no Brasil. O aumento do salário real é irreal e não sustentado porque veio acompanhados pelo aumento do déficit em conta-corrente – hoje em quase 4% do PIB – o qual mostra claramente que o Brasil “vive acima de suas possibilidades”, uma vez que a absorção doméstica é maior do que a produção nacional (ou seja, o país como um todo “consome mais do que produz).

(iii) O próximo governo – seja ele, Dilma, Serra, Aécio, Eduardo ou Marina – terá que fazer um forte ajuste da taxa real de câmbio para reequilibrar as contas externas brasileiras. Se não fizer isso por bem, fará por mal, ou seja, por intermédio de uma crise cambial de grandes proporções. Negar isso antes das eleições é prática comum no Brasil vide FHC em 1998.

(iv) É aritmeticamente impossível fazer uma desvalorização da taxa real de câmbio sem produzir uma redução do salário real e uma elevação temporária da taxa de inflação. Contudo, ao contrário do que afirmado pelo Nelson Barbosa, a queda de salário real é muito menor do que ele afirma. Estimativas que eu e o Nelson Marconi da FGV-SP (ver “Câmbio: adiar o ajuste pode sair caro”, Valor Econômico, 13/05/2011) fizemos para a elasticidade do salário real com respeito a taxa de câmbio mostram que a mesma varia entre -0,18 a -0,24 de tal forma que uma desvalorização de 30% do câmbio real produziria uma redução de, no máximo, 6,5% no salário real. Isso está bem longe do cenário catastrófico pintado pelo Nelson Barbosa ao seu interlocutor.

(v) Numa economia financeiramente aberta é impossível desvalorizar o câmbio e aumentar os juros ao mesmo tempo, ao contrário do que Nelson Barbosa ser a posição “industrialista” (aliás ele como professor de macroeconomia aberta da UFRJ sabe muito bem disso). O novo-desenvolvimentismo defende uma redução permanente da taxa de juros, o que é obtido, não com bravatas e murros na mesa, ao estilo do governo Dilma, mas com mudanças na administração da dívida pública e no grau de indexação da economia brasileira. Eliminar, de uma vez por todas, a parcela da dívida pública indexada a Selic (Por que será que o governo do PT ainda não fez isso?) e reduzir gradativamente a indexação dos preços a inflação passada é a maneira mais certa e rápida de garantir a convergência da taxa de juros brasileira aos níveis internacionais.

(vi) Por fim, fazer um ajuste fiscal não é o mesmo que adotar uma política de austeridade fiscal. Os que defendem o novo-desenvolvimentismo acreditam que o governo brasileiro deve, antes de tudo, mudar a composição do gasto público, aumentando sensivelmente a participação do investimento estatal no PIB (ao invés de arriar as calças para os neoliberais com uma reedição do programa de privatização da era Collor-FHC) e reduzir a participação dos gastos de consumo e de custeio. Isso exige, não um aumento da meta de superávit primário, mas uma mudança do regime fiscal brasileiro em prol da adoção de uma meta de superávit em conta-corrente do governo, ou seja, a introdução da assim chamada “regra de ouro da política fiscal” – defendida, diga-se de passagem por Jonh Maynard Keynes – segundo a qual “só te endividarás para financiar investimento”. Collor, FHC, Lula e Dilma mantiveram a prática do que poderíamos chamar “finanças Jorginho Guinle”, ou seja, emitir dívida pra financiar consumo … E ainda tem gente que não entende porque a taxa de investimento no Brasil não passa de 18% do PIB.

(vii) Durante a transição de um período com taxa de câmbio apreciada para um período com taxa de câmbio competitiva, uma aceleração da inflação será inevitável. Dessa forma, novo-desenvolvimentistas defendem a flexibilização temporária do regime de metas de inflação para que seja possível a implementação de uma taxa de câmbio mais depreciada. Isso está muito longe de ser uma política recessiva ….

(viii) Por fim, mas não menos importante, os novo-desenvolvimentistas são decididamente socialdemocratas por opção. Sendo assim, o bem-estar sustentável da classe trabalhadora é nossa principal preocupação. No entanto, não estaremos assegurando o bem-estar da classe trabalhadora compactuando com políticas populistas que tem por meta apenas garantir um resultado favorável nas urnas. Novo-desenvolvimentistas desejam um crescimento sustentado e robusto do salário real a médio e longo-prazo, o que só é possível com a re-industrialização da economia brasileira. O problema com a (sic) “nova matriz macroeconômica” do governo Dilma é que ela irá apenas aprofundar o processo de desinsdustrialização, condenando o Brasil a ser eternamente um país subdesenvolvido e, portanto, condenando toda a classe trabalhadora a pobreza eterna. Isso não é social-democracia … cheira muito mais o neoliberalismo.

 

 

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