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A perda de dinamismo do padrão de crescimento da economia brasileira  reacendeu entre os desenvolvimentistas – corrente que norteou boa parte da  condução da economia nos últimos anos – o debate sobre estratégias para o  desenvolvimento socioeconômico do país nos próximos anos.

Enquanto a corrida presidencial antecipada levanta a questão da manutenção,  ou não, do tripé macroeconômico, e o possível esgotamento do atual modelo de  crescimento – baseado no aumento do consumo interno, por meio do maior acesso ao  crédito e de políticas de transferência de renda – é discutido, algumas  iniciativas para incrementar o debate no campo heterodoxo têm sido lançadas.

 

No início deste mês, a Fundação Getulio Vargas (FGV-SP) fez o tema emergir  durante o seu fórum de economia anual. “Uma estratégia para dobrar a renda per  capita do Brasil em 15 anos?” foi a questão-chave. Na mesma semana, a  Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que já possui um núcleo de estudos  do desenvolvimento econômico, o Cede, realizou o seminário “Perspectivas para o  Século XXI” e lançou o Centro de Altos Estudos Brasil Século XXI, numa proposta  para reunir em torno do assunto universidades de linha similar de pensamento,  como Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Universidade Federal de  Minas Gerais (UFMG).

“São muitas questões que o Brasil vai ter que avançar pulando as pedras dos  rios, como diriam os chineses. E não há uma bala de prata para resolvê-las,  porque o Brasil ficou muito atrasado e as questões são muito complexas”, diz  Luiz Gonzaga Belluzzo, professor do Instituto de Economia da Unicamp.  “Precisamos deixar maturar, fazer muito debate, não querer transformar isso numa  questão partidária, porque a discussão econômica no Brasil está muito  partidarizada. Parece um Fla-Flu. ”

Em contraposição aos economistas do ‘mainstream’, os heterodoxos têm em comum  a defesa de um papel relevante do Estado na economia. Entendem que existe uma  nova configuração da economia mundial, e que não é apenas macro, da grande  estrutura mundial, mas também diz respeito à microeconomia, na forma de  reorganização das grandes empresas. Também concordam que há uma nova geopolítica  mundial, gerada pelo aumento do poder econômico da China e por um ‘modelo  asiático’ de crescimento de longo prazo, que pouco sofreu com a mais recente  crise mundial, na comparação com outros países.

Apesar de revelarem pontos de convergência, os debates mostraram que há  diferenças importantes entre os próprios heterodoxos, divididos hoje,  principalmente, em duas correntes: os novos-desenvolvimentistas e os  social-desenvolvimentistas.

Os novos-desenvolvimentistas defendem principalmente um câmbio flutuante, mas  com uma taxa administrada. Isso significa que a flutuação seria livre dentro de  uma faixa de valores. O câmbio atual deveria ser desvalorizado, de forma a dar  competitividade à indústria. Já há estudos que projetam a desvalorização para R$  2,90 por dólar. Isso porque entendem que o modelo exportador semelhante ao  adotado por alguns países asiáticos pode ser benéfico às empresas brasileiras.  Além disso, alguns membros têm sugerido redução nos ganhos salariais reais.

Encabeçada por nomes como Luiz Carlos Bresser-Pereira (FGV-SP), José Luis  Oreiro (UnB) e Nelson Marconi (FGV-SP), entre outros, na corrente  novo-desenvolvimentista, a política macroeconômica funcionaria em grande medida  também como política industrial.

Do outro lado, há os partidários do social-desenvolvimentismo, onde se  encontram nomes como Ricardo Bielschowsky (UFRJ/Cepal), Ricardo Carneiro  (Unicamp, hoje no Banco Interamericano de Desenvolvimento, o BID), André  Biancarelli (Unicamp), entre outros, que não estão de acordo com uma  desvalorização muito forte do real, que poderia, segundo eles, destruir ganhos  sociais conquistados nos últimos anos. Seria preciso, portanto, uma sintonia  mais fina, na qual o câmbio, ao mesmo tempo que estimulasse a indústria  nacional, não prejudicasse a continuidade da melhora da renda e do consumo. Além  disso, defendem a existência de uma política industrial, não deixando todo o  papel do crescimento do segmento exclusivamente à política macro.

“O Brasil precisa de novas frentes de expansão para retomar o crescimento,  mas não acho que é preciso diminuir o consumo para aumentar o investimento. Uma  coisa complementa a outra, não substitui”, diz Biancarelli, da corrente dos  social-desenvolvimentistas. Para ele, o país estaria “num impasse, em que o  dinamismo gerado pelo modelo que deu certo diminuiu bastante”.

Biancarelli discorda da avaliação de que a via externa deva ser a nova  frente, como propõem os novos-desenvolvimentistas. “Não é a agenda de mais  abertura comercial e nem a agenda de uma desvalorização cambial radical e  diminuição dos custos de produção no país às custas do salário”, afirma. Ele  sugere que a expansão seja feita por investimentos na infraestrutura,  especialmente em saúde, transporte e educação. “Esse é o norte: uma frente que  melhore a distribuição de renda, que continue o processo civilizatório e que  possa ser também uma fronteira de expansão econômica.”

Oreiro, do grupo dos novos-desenvolvimentistas, propõe uma polêmica queda dos  ganhos reais dos salários. Diz que a taxa real efetiva de câmbio do país,  sobrevalorizada em 48%, enfraquece perspectivas de retomada de um crescimento  mais vigoroso da economia e dificulta a reindustrialização. O real  sobrevalorizado, no argumento do economista, seria inviável para a indústria  manter os atuais padrões de ganho real dos salários dos últimos anos e ampliar a  sua competitividade.

“Não é algo a ser feito da noite para o dia […]. Estamos vivendo um momento  de realinhamento das taxas cambiais no mundo, invariavelmente isso vai afetar os  salários. A redução do ganho real de salários, em torno de 20%, deve ser algo  para ser feito em cinco, seis anos”, disse Oreiro, no seminário da FGV.

Bielschowsky, da UFRJ, que se identifica com o social-desenvolvimentista, diz  que no debate sobre o câmbio, se situa “na coluna do meio”. “Sou contra uma taxa  de câmbio valorizada, que ajuda a estabilidade de preços e a melhoria da  distribuição de renda no curto prazo, mas compromete a competitividade  industrial, e contra, também, à ideia de forte desvalorização cambial, que,  quando não impacta significativamente a inflação, ajuda a competitividade, mas o  faz a custa de deterioração dos salários reais”. Destaca que é “favorável a  políticas de redução de desigualdades e combate à pobreza pelo fortalecimento do  mercado de trabalho, como salário mínimo, formalização, e por proteção social  universal, como previdência, educação e saúde, em simultâneo a políticas de  desenvolvimento produtivo, como políticas industriais, de inovação, e de  infraestrutura”.

Durante o debate em Campinas, Bielschowsky afirmou que existem hoje três  “motores” do investimento no país, que devem ser bem administrados em favor do  desenvolvimento: amplo mercado interno de consumo de massa, perspectivas  favoráveis quanto à demanda estatal e privada por investimentos em  infraestrutura e forte demanda mundial por recursos naturais. Ele lançou  questões que considera essenciais serem discutidas no momento, como o avanço da  propriedade estrangeira, “e até crescentemente chinesa”, no Brasil: “O que vamos  fazer com elas? Quais serão as institucionalidades para a entrada dos  estrangeiros nos recursos naturais? Quais equipamentos estão sendo usados em  hidrelétricas? Quais vão ser utilizados nas obras de infraestrutura rodoviária?  O que vamos aproveitar de nossa indústria nacional de bens de capital para  isso?”

Apesar das divergências, há uma união dos heterodoxos em torno de um objetivo  em comum, que é traçar uma estratégia de longo prazo para o país, acreditam os  economistas. Marconi, da FGV-SP, diz que as “discordâncias ocorrem somente na  margem”. “Os dois grupos acham que deve haver investimentos públicos, sobretudo,  melhorias em infraestrutura para o crescimento de longo prazo”, cita. As  divergências ocorrem, simplifica ele, porque um grupo, o  social-desenvolvimentista, considera que o mercado interno vai puxar esse  crescimento, enquanto o outro, o novo-desenvolvimentista, destaca a necessidade  de se buscar, sobretudo, os mercados externos.

Para Marconi, a retomada do debate de maneira mais acentuada não guarda  relação apenas com as baixas taxas de crescimento da economia nos últimos anos.  “Do ponto de vista político, tem boa parte da sociedade que clama por políticas  que não se preocupem apenas com inflação, mas também com políticas sociais. Há  grupos na sociedade cada vez mais atentos”, disse o professor da FGV-SP. “A  sociedade notou que é necessária a participação do governo na economia, não no  sentido de dominá-la completamente, ou de tomar todas as decisões, mas para ter  uma participação importante na área social, de política públicas e em políticas  de desenvolvimento. ”

“Não sei se é um movimento político, mas cada um dentro da sua tarefa, ou no  governo ou na academia, acha que tem espaço hoje para ser mais ouvido”, afirma  Fernando Sarti, diretor do Instituto de Economia da Unicamp, referindo-se  principalmente à maior abertura dada a novas propostas pela crise de 2008. “Essa  ideia de ausência de Estado na economia e de que o mercado daria conta do  desenvolvimento; essa ideia de que isso levaria a um padrão internacional  convergente, que promoveria o desenvolvimento, tudo desaba com a crise de 2008.  Isso deu mais espaço para uma visão alternativa sobre desenvolvimento,  intervenção pública, novas propostas de política”, diz Sarti. “As pessoas de  alguma maneira estão tentando entender essa crise e pensando em padrões  alternativos.”

Para Sarti, as manifestações de rua mostraram que a população quer mais  saúde, mais transporte público, mais mobilidade. “Todos queremos, mas isso  significa mais custos. E quem é que vai bancar? De que saúde estamos falando,  uma privada ou uma pública? Vai haver subsídio para transporte? Não é uma  questão trivial. Tudo isso que estamos falando é padrão de desenvolvimento.”  (Colaborou Luciano Máximo, de São Paulo)
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http://www.valor.com.br/brasil/3314942/estrategia-de-crescimento-divide-heterodoxos#ixzz2idHBtmQV

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