Apresentação

José Luis Oreiro e Luiz Fernando de Paula*

Para acessar o documento clique em : DOSSIÊ_Economia_na_encruzilhada

A economia brasileira, em que pese certa mudança no mix de política econômica  -redução na taxa de juros e desvalorização cambial e os estímulos fiscais dados pelo governo em 2011 e 2012,  não alcançou  uma trajetória sustentada de crescimento econômico. De fato, a taxa de crescimento médio do PIB diminuiu de 3,6% em 2001/2010 para 1,8% em 2011/12; para 2013 a perspectiva é de um crescimento de entre 2 a 2,5% para o PIB real, ou seja, um desempenho melhor do que no biênio anterior mas bem abaixo nos anos anteriores. Acrescente-se ainda o fato de que setor industrial, que historicamente é o setor que puxa o crescimento econômico no Brasil e que é, por excelência, portador de progresso técnico (com difusão para outros setores), tem tido um crescimento bem abaixo dos demais setores: a taxa de crescimento médio do setor industrial foi 3,1% em 2001/2010, e de apenas 0,4% em 2011/12.

As evidências acima apontadas sugerem haver dois problemas na economia brasileira, relacionados a desaceleração recente da economia. Em primeiro lugar, a economia dá sinais de que ter dificuldades de entrar em uma rota de crescimento sustentável e robusto, em que pese os ganhos sociais que têm sido obtidos em função de uma política redistributiva de renda: o padrão de crescimento da economia brasileira há muito tem sido de um “stop and go”. Em segundo lugar, o fato de que os sinais de desindustrialização da economia brasileira – que já vinha enfrentando sérios problemas de competitividade e de aumento contínuo do coeficiente de importações – se tornaram mais claros no período recente, em função da forte perda da participação do setor industrial no PIB nacional.

Para alguns economistas ortodoxo-liberais a desaceleração econômica de 2011-2012  seria uma evidência do fracasso da adoção de políticas econômicas ativistas, entendidas como keynesianas. Ou de forma mais geral, tal desempenho resultaria de um modelo equivocado de desenvolvimento, baseado num excesso de intervencionismo estatal que inibiria o “espírito animal” empresarial.

Neste contexto, a AKB fez uma chamada aos seus associados para discutir as causas da desaceleração econômica no Brasil, além de outras questões associadas, como o padrão de crescimento, o processo de desindustrialização e os natureza dos ganhos sociais recentes, questões essas que estão, direta ou indiretamente, relacionadas a temática central. Em particular, a presente publicação objetiva discutir, entre outras, as seguintes questões:

  • Por      que a economia brasileira tem crescido pouco no período recente?
  • Qual      a natureza do padrão de crescimento que vem sendo adotado no Brasil?
  • Quais      os efeitos das mudanças no mix de politica econômica?
  • Qual      a natureza dos ganhos sociais que têm sido obtidos com a adoção de      políticas redistributivas?
  • É      possível e em que condições compatibilizar crescimento econômico mais      robusto com continuidade do processo de redistribuição de renda?
  • Existe      relação entre baixo crescimento e desindustrialização?
  • Que      tipo de mudanças na política econômica poderiam ser feitas para termos      um  crescimento mais robusto?
  • A      questão é de um ajuste fino na política econômica ou alguma mudança maior no      regime de política macroeconômica?
  • Por      fim, as politicas econômicas que vem sendo adotadas no Brasil no pós-crise      internacional podem e devem ser consideradas keynesianas?

Os artigos publicados no presente dossiê objetivam responder as questões acima, contando com a participação de destacados economistas keynesianos de várias instituições acadêmicas no Brasil, além de alguns convidados estrangeiros. Antes de mais nada, como qualquer politica ativista tem sido vista (a nosso juízo equivocadamente) como keynesiana, é fundamental se avaliar o que se entende por politicas keynesianas, o que é feito nas contribuições desta publicação. Em relação a desaceleração recente,  vários aspectos são aqui destacados,  incluindo questões relacionadas à coordenação das políticas econômicas, o caráter insuficiente de mudanças feitas no arcabouço da política econômica, a relação entre desindustrialização e desaceleração econômica, as dificuldades de compatibilizar uma política pró-crescimento com um arcabouço de politica baseado no Novo Consenso Macroeconômico, as especificidades nos canais de transmissão da política monetária que  tornam esta insuficiente para estimular a economia, etc.

Para além da questão do crescimento, várias contribuições destacam a importância dos ganhos sociais obtidos em termos da (i) redução das desigualdades na distribuição de renda, da diminuição nos níveis de pobreza absoluta e relativa, (ii) redução no desemprego informal, (iii) formação de um mercado consumidor mais amplo, etc. Contudo, avaliações qualitativas a respeito dos avanços sociais são igualmente realizadas, como a carência na provisão de serviços públicos fundamentais (como educação), a existência de diferenciais salariais expressivos entre setores, etc.

É importante destacar que não se pretende aqui ter uma visão única da realidade e dos problemas da economia brasileira, assim como dos caminhos que devem ser seguidos. Contudo, o que parece ser o denominador comum desta publicação é o “olhar keynesiano”, segundo o qual economias de mercado, na ausência de mecanismos reguladores apropriados, e deixadas ao sabor do “laissez-faire”, são vistas  como intrinsecamente instáveis e frequentemente incapazes de criar um nível de demanda agregada consistente com o pleno emprego.  Economias capitalistas são sujeitas a incerteza não-probabilística e  a mudanças repentinas nas expectativas empresariais o que inviabiliza a alocação ótima de recursos e o equilíbrio simultâneo de todos os mercados, de maneira a gerar renda e riqueza compatível com uma boa distribuição de renda.  Isto coloca a necessidade de se avaliar profundamente a natureza da política econômica que favoreça criar um ambiente favorável ao investimento na magnitude necessária para um crescimento que seja ao mesmo tempo sustentável, estável financeiramente e socialmente justo. É a respeito deste debate que esta publicação pretende dar sua contribuição.


* Respectivamente, atual Presidente e ex-Presidente da AKB (2009-2013)

Anúncios