Demorou mas chegou. A economia brasileira finalmente está reagindo a combinação juros mais baixos-câmbio mais depreciado em vigor desde meados de 2012. Os dados revelados hoje pelo IBGE mostram uma economia crescendo 3,3% com respeito a igual período do ano anterior (e 1,5% contra o trimestre anterior). Ainda é um crescimento baixo, mas representa uma ruptura (esperemos que permanente) com relação ao padrão de crescimento observados nos últimos meses. Tal como previsto pela macroeconomia estruturalista do desenvolvimento, o crescimento do segundo trimestre de 2013 foi liderado, pelo lado da demanda, pelo investimento e pelas exportações; e, pelo lado da oferta, pelos setores de bens tradeables (agropecuária e indústria de transformação). O consumo das famílias cresceu apenas 0,3% contra o trimestre anterior, ao passo que o consumo do governo cresceu 0,5% com respeito ao primeiro trimestre. Isso significa que a participação do consumo (público e privado) no PIB caiu na margem no segundo trimestre de 2013.

Os dados parecem indicar que um câmbio real mais desvalorizado induz substituição de poupança externa por poupança doméstica, estimula o investimento em capital fixo e estimula a indústria de transformação. Claro que os efeitos não são imediatos, afinal de contas, ao contrário do que pensam os arautos da teoria neoclássica, a produção é um processo que demanda tempo numa economia monetária de produção. Somente no mundo fantástico do “paradigma da feira da aldeia”, parafraseando Minsky, é que uma desvalorização cambial deveria produzir um efeito instantâneo sobre o crescimento e o investimento em capital fixo. No mundo real, o efeito da curva J, apresentado em qualquer manual de macroeconomia, mas ignorado por 11 de cada 10 economistas neo-liberais, explica porque razão a desvalorização cambial leva de 9 a 12 meses, pelo menos, para se refletir num aumento do saldo comercial e em expansão do PIB.

Os dados foram bons, mas ainda não representam uma retomada consistente do crescimento a taxas mais elevadas. Em primeiro lugar, é necessária uma nova política cambial que dê aos empresários a segurança de que o novo patamar de câmbio (real) é permanente, ao invés de um simples espasmo temporário de um overshooting cambial. Isso significa a adoção de facto de um regime de câmbio administrado na qual o BC fixe uma meta móvel para a taxa nominal de câmbio tendo em vista a obtenção de uma meta de câmbio real para o longo-prazo. No atual contexto internacional isso demanda a imposição de controles a saída de capitais externos, bem como uma banda cambial deslizante para suavizar o movimento de desvalorização do câmbio nominal.

O controle da taxa de inflação deverá ser responsabilidade da política fiscal, a qual seria pautada pela obtenção de metas para o saldo em conta corrente do governo, viabilizando assim um aumento sustentado da poupança pública.

Além disso, o governo deverá, a partir de 2015, rever a política de reajuste do salário mínimo, adotando uma nova regra, qual seja o salário mínimo passa a ser reajustado anualmente com base na meta de inflação (definida pelo CMN) acrescido de 1,5% a.a uma estimativa para a taxa de crescimento da renda per-capita brasileira no longo-prazo. Essa nova regra romperia com a indexação do salário mínimo a inflação passada, contribuindo assim para a estabilização da taxa de inflação com uma menor dosagem de juros, como também contribuiria no sentido de induzir os salários reais a crescerem aproximadamente ao mesmo ritmo da produtividade do trabalho, eliminado assim o foco principal de pressão inflacionária.

Cabe ao governo Dilma abandonar a estratégia de empurrar as coisas com a barriga e definir uma nova estratégia macroeconômica para o crescimento sustentado com estabilidade de preços e equidade social. Esperemos que a Presidente Dilma tenha a coragem necessária para fazer o que é necessário.

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