O aumento do déficit em conta corrente, a estabilização dos termos de troca e  a perspectiva de normalização da política monetária dos Estados Unidos sugerem  que o período em que predominou o câmbio mais valorizado no Brasil pode estar  perto do fim. A desvalorização do real tende a alterar a composição do  crescimento doméstico, no médio e no longo prazo, com maior fôlego para os  setores que produzem bens comercializáveis, como a indústria. Os salários reais,  no entanto, devem perder poder de compra neste novo cenário, o que acarreta em  moderação da expansão dos serviços e do consumo, afirmam economistas ouvidos  pelo Valor.

A “reindustrialização” do país, no entanto, não depende apenas do real mais  fraco. Entre economistas de diferentes matizes, prevalece a visão de que será  preciso ajuste fiscal mais forte para que a perda de valor do real não produza  mais inflação, já que o caminho para a recuperação da indústria passa também  pela questão da competitividade dos custos. A recuperação da demanda externa  também será fator importante para a retomada do dinamismo do setor manufatureiro  no país.

De acordo com estudo do Goldman Sachs, em um grupo de cinco países da América  Latina (Chile, Peru, Colômbia e México, além do Brasil), a economia brasileira é  a que precisa da maior desvalorização cambial para colocar o saldo em conta  corrente em trajetória sustentável no longo prazo. A desvalorização necessária  da divisa doméstica seria da ordem de 10%, em termos reais e contra uma cesta de  moedas. Em termos nominais e apenas na comparação com o dólar, boa parte dessa  perda de valor do real já ocorreu nos últimos meses, na avaliação do diretor de  pesquisa econômica para a América Latina do banco de investimentos, Alberto  Ramos, mas ainda há um caminho a percorrer. A taxa de câmbio de equilíbrio,  estima, estaria em torno de R$ 2,50 a R$ 2,60.

O estudo feito pela instituição baseou-se em duas métricas distintas. Na  primeira, calculou-se qual seria o ajuste necessário na conta corrente para  estabilizar o passivo externo líquido no nível de 2012. No caso do Brasil, nessa  conta, um déficit em conta corrente de 2,6% do Produto Interno Bruto (PIB) é  suficiente. O desvio em relação ao rombo de 3% das transações correntes  observado no primeiro trimestre deste ano é pequeno, de 0,4 ponto  porcentual.

Outro cálculo utilizado pelo banco se baseou nos fundamentos de cada país,  como taxa de poupança doméstica e expectativas de crescimento, por exemplo. No  caso do Brasil, o déficit em conta corrente atual é 2,3 pontos percentuais  superior ao que sugerem os fundamentos macroeconômicos. No Chile, o desvio é  ainda maior, de 3,1 pontos percentuais, mas o país precisa de uma desvalorização  menor, de 6%, porque tem uma economia bem mais aberta do que a brasileira,  explica Ramos.

 

Para Samuel Pessôa, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da  Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV), a tendência de desvalorização do câmbio  vista nos últimos meses veio para ficar. Isso porque a taxa de câmbio de  equilíbrio está se movendo para um ponto mais desvalorizado, por causa do  aumento do déficit em conta corrente e do passivo externo líquido, do baixo  crescimento e do fim do período de forte alta dos termos de troca. Em sua  avaliação, o Brasil não deve passar por uma parada súbita de fluxo de capitais,  já que boa parte da dívida do Brasil com não-residentes está denominada em  reais, como investimentos estrangeiros diretos, mas a tendência de perda de  força do real deve permanecer pelos próximos três a cinco anos, avalia  Pessôa.

Em artigo para o Valor, o ex-diretor do Banco Central (BC)  Mário Mesquita escreveu que “uma tendência a depreciação do real implicará  elevação dos preços relativos dos bens comercializáveis, incentivando atividades  nesses setores, como a indústria”.

Para Pessôa, este é um cenário possível no médio e longo prazos, mas  dependerá de outras variáveis. A desvalorização do câmbio produzirá mais  inflação, que precisará ser controlada por aumento de juros. Num cenário de taxa  Selic mais alta, os salários também tendem a perder poder de compra. Para evitar  um forte aumento de juros e alta expressiva do desemprego, será preciso aliar a  política fiscal à monetária, com crescimento do gasto público em ritmo inferior  ao do PIB. De toda forma, “a vida do próximo presidente será dura”, diz.

Fernando Rocha, sócio e economista da JGP Gestão de Recursos, levanta dúvidas  sobre a possibilidade de um processo de reindustrialização do país. Ele concorda  que a desvalorização cambial torna os produtos comercializáveis mais  competitivos, mas lembra que se não houver compradores, com um mercado global  ainda deprimido, essa ajuda é pequena. O cenário complicado para atividade  doméstica com alta do desemprego também pode anular o ganho de preços relativos,  diz. Por último, há o risco de que uma desvalorização cambial acentuada vire  inflação mais alta e generalizada se não houver resposta adequada do BC e do  Ministérioa Fazenda.

Zeina Latif, sócia da Gibraltar Consulting, faz ressalva semelhante. “Quem  sai ganhando dessa mudança [do câmbio] são os bens comercializáveis, mas o  tamanho desse impulso é duvidoso.” O benefício mais palpável, afirma ela, é o  aumento da capacidade de competição no mercado interno, já que o mercado externo  ainda atravessa fase difícil e o Brasil é pouco aberto ao comércio exterior.

Para Pessôa, do Ibre, a economia global voltará a ajudar a economia a partir  do segundo semestre de 2016, caso se confirme recuperação dos EUA e a China  continue a crescer cerca de 7% ao ano. “A volta do crescimento mundial vai abrir  espaço para nossa indústria”, aposta.

José Luis Oreiro, professor da Universidade de Brasília, avalia que a  competitividade do setor industrial vai depender das decisões de política  econômica. Em sua opinião, o câmbio, mesmo no patamar atual, segue apreciado e a  perda de valor do real é importante para devolver competitividade ao setor. O  processo de desvalorização, contudo, tem que ser acompanhado de um ajuste  fiscal. “Tem duas dimensões da competitividade, a do câmbio e a de custos, e  ambas se deterioraram nos últimos anos. Sem ajuste fiscal forte a partir de  2015, que permita aumento do investimento público, não vejo como podemos ter  movimento robusto de industrialização”, afirma Oreiro. Em sua avaliação, uma  política econômica acertada é mais importante para o dinamismo da indústria que  a política industrial.

No médio prazo, diz Rocha, da JGP, para o país manter a competitividade, não  basta depender de mudanças de preços relativos. “Precisa investir mais, melhorar  a educação, reduzir a carga tributária etc., toda essa agenda perdida que ficou  sem avançar nos últimos anos”. Ramos, do Goldman Sachs, concorda: “É preciso  tornar a indústria competitiva pelo lado do custo, não do câmbio”

 

 

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