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  • Atolados em dívidas e diante de uma inflação altamente corrosiva, os 40 milhões de brasileiros que foram içados à nova classe média vão às ruas para garantir um espaço no meio da pirâmide social. Eles não só não querem perder as conquistas dos últimos anos como também bradam por novos direitos. Consequência do descontrole dos gastos públicos e da tentativa do governo em deixar os juros em patamares baixíssimos, o aumento do custo de vida obrigou essas famílias a reverem os seus planejamentos. Produtos mais caros foram trocados por opções em conta e viagens sofisticadas, por passeios curtos. “Não sei o que vem por aí. Então, é melhor não me empolgar com os gastos”, pondera o bancário Paulo Costa, 47 anos, que ontem participou de uma das manifestações na área central de Brasília para pressionar o governo por melhores condições de vida.

    Na hora de ir às compras, Paulo já teve de aderir à contenção de gastos. “A gasolina está cara, os alimentos idem”, lamenta. Para ele, o momento de consumir sem preocupações passou. Depois da euforia de adquirir um carro novo, de construir a casa própria e de comprar eletrodomésticos, como geladeira e fogão, ele olha para o futuro e não tem dúvidas do que deve fazer. “O momento é de colocar o pé no freio”, conta ao lado da filha Paloma, 9 anos.
    Haroldo Mota, professor de economia da Fundação Dom Cabral, analisa que as inseguranças, antes aparentemente limitadas ao mercado financeiro e à burocracia econômica, chegou à casa dos brasileiros. “Temos um quadro de incertezas disseminadas pelo país, e isso precisa mudar. As expectativas pioraram muito”, ressalta. “Esses movimentos (protestos populares) na rua são consequência das questões institucionais. As pessoas estão cansadas de corrupção e de ineficiência na gestão pública”, alerta.

    O varejo sentiu em cheio esse receio do futuro. Os meses de fevereiro, março e abril frustraram as expectativas de vendas. Os hipermercados e os supermercados amargam o pior desempenho entre os segmentos desse setor: no acumulado do ano, apresentou crescimento zero. A decepção com o comércio e com o consumo se explica ainda, segundo analistas, pela cessação da mobilidade social, que, nos últimos 10 anos, vinha em aceleração. Reinaldo Pereira, gerente da Coordenação de Serviços e Comércio do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), chamou a atenção, na última divulgação da Pesquisa Mensal do Comércio, para o fim do processo de ascensão dos brasileiros.

    “Antes, havia a entrada de pessoas na classe média. Elas vinham com a demanda reprimida e consumiam muitos móveis, eletrodomésticos, informática, celular e veículos. E a outra parcela que já tinha esses itens buscava modelos mais modernos”, observa Pereira. “Só que isso chegou a um momento de esgotamento. O processo de troca de bens é muito mais lento agora. Além disso, estamos num período em que a inflação nos incomoda. Sem contar a inadimplência, que também está alta”, explica.

    Marcas trocadas

    Dados da consultoria Kantar WorldPanel confirmam a queda do consumo e mostram que, na tentativa de continuar a comprar os mesmos produtos, as famílias estão trocando as marcas por opções mais em conta. Lideram a lista dos itens substituídos os de consumo básico. E não só na classe C, mas em todos os estratos sociais. Nas classes A e B, isso ocorreu com o sabão líquido para roupas, o suco pronto, os molhos e o desodorante. Na média, a lista é semelhante, mas acrescentam-se ainda a sopa, o alvejante sem cloro, a massa fresca e a sobremesa pronta. Os brasileiros de menor renda — classes D e E —, por sua vez, fizeram o mesmo com os produtos elencados acima, mas, em vez de só trocarem as marcas, até deixaram de comprá-los em algumas situações.

    A secretária aposentada Aldenora Monteiro Correa, 56, acumulou o patrimônio que tem hoje com muito planejamento. Nos últimos 10 anos, a tocantinense de Araguatins ergueu uma casa e comprou móveis, tudo com um salário de R$ 2,5 mil. Para ela, seguir o ritmo de conquistas, no entanto, fica cada vez mais difícil. O imóvel, ainda inacabado, foi substituído entre as prioridades pelos gastos essenciais, como os alimentos.

    Para dar conta das obrigações e manter o padrão de consumo, ela foi forçada a voltar ao mercado de trabalho e, assim, conseguiu expandir a renda familiar para R$ 5 mil mensais. “A princípio, tive a sensação de que as coisas estavam melhorando, que estava mais fácil comprar. Quem estava na miséria, realmente, tem hoje uma condição melhor, mas, para as pessoas que vivem na minha faixa de renda, a impressão é de que estagnou”, desabafa. “Por isso, eu entendo a insatisfação de todas essas pessoas (nos protestos)”, ressalta.

    Desperdício

    Os brasileiros que tomaram as ruas nas últimas semanas exigem uma gestão pública melhor. Eles reclamam mais educação, saúde e eficiência no serviço público. O Brasil que esses cidadãos desejam é uma nação desenvolvida e não mais uma economia eternamente emergente. “O governo não pode ignorar essas pessoas, na maioria jovens, e que, juntas, somam 42 milhões de votos”, observa Renato Meirelles, presidente do Data Popular.

    “Estamos desperdiçando o bônus demográfico (momento da história no qual o país tem mais gente em idade economicamente ativa e, por conseguinte, maior oportunidade de crescer) e perdendo o bonde, mas dá tempo de consertar. Não é algo que seja uma perda definitiva”, argumenta José Luís Oreiro, professor de economia da Universidade de Brasília (UnB). Haroldo Mota, professor de economia da Fundação Dom Cabral, faz alerta semelhante.

    Segundo ele, o Brasil está mergulhado na ineficiência em diversos aspectos — educacional, de infraestrutura, de logística — e, da mesma maneira que venceu a hiperinflação em meados dos anos 1990, precisa corrigir isso para se tornar melhor. “Estamos perdendo uma oportunidade. Somos um país caro e de baixa produtividade e, por isso, ainda temos pessoas em postos de trabalho precários”, explica Mota. “Esse quadro todo leva às manifestações nas ruas, uma situação que parecia impossível. As pessoas estão com medo de perder o que conquistaram”, diz.

    Baixa renda

    Apesar de, na última década, ter diminuído as desigualdades, o Brasil ainda é pior para quem tem menos. Dados da Kantar WorldPanel revelam que, diante do quadro de estagnação social, as pessoas das classes D e E são as que mais têm tido perdas, por causa do elevado comprometimento da renda com itens de consumo básico. De tudo que desembolsam no mês, 36% são com alimentação e bebidas, higiene e limpeza da casa. Outros 28% ficam para o aluguel ou a prestação da casa e para o transporte e outros serviços públicos.

    Com um orçamento apertado — apenas um salário mínimo, vindo da aposentadoria —, Clemilda Pereira dos Santos, 67, construiu e mobiliou a casa, mas não sem a colaboração de outras pessoas e com doações. “Já trabalhei com tudo: como recepcionista, na cozinha de órgãos públicos, em uma gráfica. Mas o dinheiro sempre foi pouco para manter a casa e os cinco filhos”, lembra. Nos últimos anos, Clemilda viu a situação melhorar: assinou tevê a cabo e internet e até viajava, uma vez por ano, de avião para visitar a família na cidade natal, Boqueirão (PB).

    Os itens, no entanto, foram deixados de lado, um a um. A internet já não existe mais. A tevê a cabo é paga pelo filho. Os tijolos, para aumentar a casa, estão parados há dois anos na garagem. “Hoje, meu dinheiro mal dá para pagar água, luz e botar comida dentro de casa. A alimentação, principalmente, está cara demais. Arroz, feijão, verdura: não tem nada barato”, lamenta. Por isso, ela se adaptou e montou um bazar na garagem de casa para complementar a renda.

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