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Autor(es): Simone Kafruni e Rosana Hessel
O Globo – 19/06/2013

Cresce nervosismo no mercado com ansiedade sobre  EUA e manifestações no Brasil. Dólar sobe mais e chega a R$ 2,177, mesmo  com intervenção do BC
Brasília –  Se já havia pessimismo com relação à economia do Brasil, ele se  multiplicou diante da dimensão dos protestos que tomaram as ruas. O  mercado reagiu com nervosismo e muita volatilidade ontem, influenciado,  sobretudo, pelo agravamento do quadro interno de incertezas, mas,  também, pela expectativa do resultado da reunião do comitê de política  monetária dos EUA (Fomc, na sigla em inglês), que pode decidir hoje pela  redução dos estímulos monetários nos Estados Unidos, valorizando ainda  mais a divisa daquele país em todo o mundo.

Apesar da dupla  intervenção do Banco Central (BC), que injetou US$ 4,5 bilhões no  mercado em dois leilões de swap – equivalente a venda no mercado futuro  –, o dólar fechou em alta de 0,23%, cotado a R$ 2,1770. É a maior  cotação desde 2009, quando a moeda atingiu R$ 2,18. Na máxima do dia,  porém, a divisa bateu nos R$ 2,18. Na segunda-feira, o BC realizou  leilões de quase US$ 2 bilhões quando o dólar atingiu R$ 2,17. Mas a  autoridade monetária, que desde 31 de maio já vendeu US$ 13 bilhões, não  consegue frear a escalada da moeda norte-americana. Nos últimos três  pregões, o dólar acumula alta de 2,10% sobre o real.

A situação  interna do país impede que o BC consiga estancar a valorização com  leilões. “Certamente, o pano de fundo são os Estados Unidos, mas o  mercado está sem parâmetros. Se a expectativa sobre a decisão do Fed já  gerava volatilidade no mercado quando o Brasil tinha uma economia  sólida, isso é potencializado pelas manchetes de jornal, que não são  positivas, e pela fragilidade econômica atual”, alertou Zeina Latif,  consultora da Gibraltar Consulting.

Na avaliação da economista, as  manifestações e protestos que ocorrem por todo o país têm influência no  comportamento do mercado. “Não são fatos neutros. Os investidores  querem entender o que está acontecendo no país e a repercussão disso nas  próximas decisões do governo”, disse ela.

O relatório do banco  HSBC também avalia o peso das manifestações no aumento do risco do país.  “Até o momento, não há nenhum sentido de desordem nas cidades  brasileiras, mas as imagens dos protestos (e, particularmente, dos  episódios mais violentos) podem pesar no sentimento dos investidores,  especialmente os estrangeiros. Isso vai influenciar em alguns preços de  ativos daqui para a frente, uma vez que pode ser visto como mais uma  fonte de incerteza sobre as perspectivas a curto e médio prazo para a  economia brasileira”, diz o relatório do HSBC.

Para o  economista-chefe da SulAmérica Investimentos, Newton Rosa, o principal  motivo do nervosismo do mercado é a expectativa do Fed de reduzir a  injeção de liquidez, uma vez que o programa de estímulos atual coloca no  mercado US$ 85 bilhões todos os meses. “Isso afeta todas as moedas,  puxa o capital para os ativos americanos”, destacou. Entretanto, o  economista não acredita que o Fed vá tomar essa decisão na reunião que  acaba hoje.

“O mercado de trabalho ainda é fraco nos EUA. O Ben  Bernanke (presidente do Fed) pode sinalizar que vai tirar o incentivo  mais para o fim do ano. Eu aposto em dezembro. Apesar disso, o mercado  antecipa resultados e vai precificar em valorização cambial. Como a alta  do dólar resulta em pressão inflacionária no Brasil, é possível que  essa decisão acelere a alta de juros no país na próxima reunião do  Copom”, afirmou, lembrando que a SulAmérica estima que a Selic chegue ao  final do ano em 9,25%.

Atentos aos indicadores

Além da  decisão sobre os estímulos nos EUA, uma agenda carregada de indicadores  econômicos, tanto no âmbito externo como doméstico, mantém elevada  volatilidade nos principais mercados. “No front interno, o destaque é a  divulgação do IPCA-15 de junho, que continuará mostrando um ambiente  inflacionário desconfortável”, ressaltou Rosa.

O economista da  Tendências Consultoria Silvio Campos Neto também não acredita que o Fed  reduza os estímulos já na reunião que acaba hoje, apesar dos sinais de  melhora da economia norte-americana. “A inflação está muito baixa nos  Estados Unidos, o que minimiza a necessidade de um ajuste rápido. A  indústria também está fraca e o mercado de trabalho ainda não melhorou o  suficiente. Acredito que os EUA vão esperar uma recuperação mais  consistente da economia para reduzir o incentivo”, disse.

Mesmo  que a decisão não seja tomada hoje, Campos Neto avaliou que o impacto de  uma sinalização de que isso vai ocorrer em outubro ou dezembro será  muito maior no Brasil do que em outros países. “O país está com uma  percepção muito negativa, com piora na condução da política  macroeconômica, muito protecionismo e intervencionismo, inflação alta e  resultados baixos de crescimento. Não acredito que as manifestações  tenham influência. O cenário econômico já é ruim por si só”, ressaltou.

Estímulos  Para o economista-chefe da INVX Global Partners, Eduardo Velho, a  despeito da precificação pelo mercado (que sancionou um movimento mais  forte do dólar no exterior e também no Brasil, sobretudo a partir de  maio), o viés da moeda norte-americana ainda é de alta e só será mantida  no “teto informal” de R$ 2,15 com continuidade de redução tributária  nos ingressos de recursos externos e das operações do swap cambial, mas,  também com perda de reservas internacionais.

Por enquanto,  consideramos que o governo não permitirá uma flutuação cambial pura  conforme a demanda líquida. A estratégia mais adequada da política  econômica seria uma flutuação maior do câmbio, mas com aperto fiscal,  para retirar o peso do ajuste de redução da inflação apenas na alta dos  juros”, destacou. Para a INVX Global, o BC deveria elevar a taxa Selic  para um nível de 10,5%, de forma a amenizar a inflação. “A mudança do  patamar da taxa nominal de câmbio, para uma faixa ao redor dos R$ 2,15,  tem impacto de 0,25 ponto percentual no IPCA para os próximos 12 meses”,  disse.

Meta de superávit em xeque

Brasília – Enquanto  os mercados financeiros se tornam mais adversos, crescem as apostas de  que o governo brasileiro não conseguirá cumprir a meta de superávit  primário (economia para o pagamento dos juros da dívida pública) neste  ano. Na avaliação de especialistas, mesmo com a arrecadação com as  privatizações na área de infraestrutura previstas para o segundo  semestre, as receitas não serão suficientes para que as contas da União  fechem com um saldo positivo de 3,1% do Produto Interno Bruto (PIB).  Pela Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), o governo trabalha com meta  de superávit neste ano de R$ 155,8 bilhões.

O ministro da Fazenda,  Guido Mantega, já admitiu trabalhar com uma meta menor, de 2,3%,  considerando o abatimento previsto na LDO de R$ 45,2 bilhões (que inclui  as desonerações e os investimentos do PAC-Programa de Aceleração do  Crescimento). Com isso, o saldo cairia para R$ 110,6 bilhões. Mas nem  assim o mercado acredita que o governo cumprirá o que promete. “Mesmo  com esse abatimento, a meta de superávit dificilmente será cumprida.  Isso porque há um descompasso com as receitas e a arrecadação da União.  As despesas crescem num ritmo de 13% no último quadrimestre, em termos  nominais, enquanto a arrecadação avança 5%”, explicou o economista  Felipe Salto, da consultoria Tendências. Ele prevê que essa economia  ficará em 1,6% do PIB neste ano.

Os economistas da consultoria  britânica Capital Economics estimam em um relatório divulgado ontem que o  superávit primário do Brasil deste ano ficará entre 1,5% e 2% do PIB, o  que seria “relativamente saudável para os padrões mundiais”. O  professor de economia da Universidade de Brasília (UnB), José Luis  Oreiro, também acha difícil o cumprimento dessa meta com abatimento.  “Acho que ela ficará abaixo de 2%, em função das desonerações já  efetuadas e do baixo crescimento da economia”, afirmou.

Na  avaliação de Salto, da Tendências, a trajetória da economia brasileira  junto com os custos da desoneração vem criando uma barreira para o  expansionismo fiscal. Ele fez um alerta para outro fator que vem  atrapalhando as contas públicas, que é o aumento das despesas do Tesouro  Nacional, desde 2008, com aportes no BNDES com juros subsidiados ao  setor privado e que não tiveram impacto no aumento da taxa de  investimento em relação ao PIB.

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