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Por Cyro Andrade | De São  Paulo

Política e economia começam a confluir para um só campo de observação e  movimentos. A aproximação do ano eleitoral, com sua carga de indagações sobre o  futuro aumentada pela antecipação da campanha presidencial, explica incertezas e  ansiedades. A depender dos novo-desenvolvimentistas – economistas acadêmicos de  formação heterodoxa não marxista, líderes industriais e políticos do governo e  da oposição – uma agenda para o Brasil, capaz de tranquilizar espíritos hoje  tomados pela inquietação, poderia inspirar-se no que chamam de “macroeconomia  estruturalista do desenvolvimento”. As soluções estão ali, para agora e para o  futuro. O livro “Macroeconomia do Desenvolvimento” oferece uma visão ampla e  detalhada do que é essa estratégia de desenvolvimento, “uma espécie de síntese  entre a macroeconomia keynesiana e a teoria estruturalista do desenvolvimento”,  como explica José Luís Oreiro, professor da Universidade de Brasília e da  Universidade Federal do Rio de Janeiro, um dos organizadores do livro.

Parte fundamental dessa estratégia está no fortalecimento da indústria, em  contraposição ao que seria uma espécie de “reprimarização” da economia  brasileira. É preciso reverter o processo de “desindustrialização” – processo  que economistas de outras tendências, ditas ortodoxas, também enxergam.  Divergem, porém, dos novo-desenvolvimentistas, que veem a redução da  participação da indústria no PIB como efeito da apreciação cambial causada pela  abertura da conta de capital do balanço de pagamentos e pela “doença holandesa”.  “Trata-se, portanto”, segundo Oreiro, “de um processo que resulta de um modelo  de política macroeconômica que privilegia o setor financeiro e o setor  primário-exportador”.

 

Um dos pressupostos da macroeconomia estruturalista do desenvolvimento, que  fundamenta o novo-desenvolvimentismo, é que existe uma relação de causalidade do  crescimento do setor industrial para o crescimento da economia como um todo em  função do fato de que a indústria não é um setor como outro qualquer, mas  apresenta certas características estruturais que fazem dela a fonte dos retornos  crescentes de escala, essenciais para o crescimento de longo prazo.

“A indústria brasileira, após uma recuperação na forma de “V” dos efeitos da  crise mundial de 2008, entrou numa fase de estagnação a partir de 2011″, observa  Oreiro. “Desde então, a economia brasileira perdeu dinamismo, apresentando taxas  medíocres de crescimento. Acredito que isso seja a demonstração cabal da  importância do dinamismo industrial para o crescimento de longo-prazo.”

Leia a seguir trechos selecionados da entrevista que Oreiro concedeu ao  Valor.

Valor: Várias outras questões, decisivas para a  definição dos termos de competitividade da indústria (e da economia) brasileira  permanecem pendentes, sem melhor equacionamento à vista, como as referentes à  carga tributária e às deficiências de infraestrutura, entre outras. Em que  medida a questão cambial acaba, talvez, sendo supervalorizada como decorrência  da falta de medidas de correção de rumos nessas outras áreas?

José Luís Oreiro: O câmbio não é tudo, mas é quase tudo. Com  o ciclo de elevação do preço das commodities internacionais, a partir de 2004, a  taxa real de câmbio no Brasil vem se apreciando consideravelmente, tendo  retornado ao nível prevalecente durante o primeiro mandato do presidente  Fernando Henrique Cardoso. Se olharmos para a relação câmbio efetivo/salário, a  situação ainda é pior: o câmbio hoje se encontra mais valorizado do que naquela  época. O problema do câmbio apreciado é que se traduz em redução da margem de  lucro das empresas, o que desestimula o investimento. Como as novas tecnologias  estão incorporadas em máquinas e equipamentos recentemente produzidas, ao invés  de serem uma espécie de maná que cai do céu, como nos modelos neoclássicos de  crescimento, uma baixa taxa de investimento implica uma baixa modernização do  parque industrial, o que contribui para o crescimento baixo da produtividade do  trabalho na indústria, o que reforça a perda de competitividade. Está claro que  uma parte da perda de competitividade da indústria deve-se a infraestrutura  deficiente, o que termina por tornar os produtos brasileiros ainda mais  caros.

Valor: A indústria tornou-se global. Fala-se hoje em  cadeias de produção. Isso exige abertura da economia para fora e para dentro.  Persistem, no entanto, certas tendências protecionistas em políticas de governo,  como a de preferência pelo produto nacional, que acabam excluindo o Brasil  daquelas cadeias, com prejuízo para a absorção de fatores de inovação. Como vê  essa questão, no contexto mais amplo da competitividade ainda não alcançada pela  indústria brasileira, possibilidades de que venha a alcançá-la e importância do  câmbio para que isso aconteça?

Oreiro: Não sou favorável a políticas de proteção comercial  à indústria. O que a indústria brasileira necessita é de igualdade de condições  com seus concorrentes no exterior, o que demanda uma taxa real de câmbio  competitiva e a realização de grandes investimentos em infraestrutura. Meu  colega Nelson Marconi, da EESP [Escola de Economia de São, da Fundação Getúlio  Vargas], estima que a taxa de câmbio dólar/real necessária para tornar a  indústria brasileira competitiva esteja em torno de R$ 2,70. Acredito que se um  ajuste cambial dessa magnitude for realizado e a taxa de câmbio for mantida num  patamar competitivo por um período de tempo suficiente, as empresas do setor  industrial brasileiro voltarão a investir, modernizando seu parque produtivo,  fazendo com que a produtividade do trabalho volte a crescer. Mas para que isso  ocorra é necessário que o empresário nacional tenha confiança na estabilidade da  taxa de câmbio num patamar competitivo. Não é isso o que ocorre hoje.A  administração da taxa de câmbio no governo Dilma parece oscilar entre a  necessidade de dar competitividade à indústria e a manutenção da inflação em  patamares baixos. Isso faz com que a taxa de câmbio não seja nem suficientemente  depreciada para estimular a indústria nem suficientemente apreciada para  estabilizar a inflação, de forma que ficamos no pior dos dois mundos: inflação  alta com indústria pouco competitiva.

Leia íntegra da entrevista no site www.valor.com.br

“Macroeconomia do Desenvolvimento – Ensaios sobre Restrição Externa,  Financiamento e Política Macroeconômica”

José Luís Oreiro, Luiz Fernando de Paula e Flavio Basilio  (organizadores). Editora da UFPE. 480 págs., R$ 60,00

 

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