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Risco de estagflação – fenômeno temido,  caracterizado pela combinação de inflação alta e paralisia da atividade –  torna mais difíceis os desafios da política econômica

Rio de Janeiro e Brasília —  A frustração com o desempenho pífio do Produto Interno Bruto (PIB) no  primeiro trimestre (0,6%), em boa parte afetado pela perda de poder de  compra do consumidor para a inflação, tornou 2013 um desafio ainda mais  complexo para a presidente Dilma Rousseff, às vésperas de um ano  eleitoral. O medo da volta da estagflação — o pior dos pesadelos  econômicos, formado pela combinação de inflação persistente com baixo  crescimento do PIB — ficou sugerido na avaliação de especialistas e na  própria decisão do Banco Central (BC) de elevar a taxa básica de juros  (Selic) de 7,5% para 8% ao ano para puxar os índices de preços para  abaixo da meta oficial de 6,5%.
Os fatos acabaram ajudando a  autoridade monetária a dar uma resposta parcial ao dilema entre impedir  um esfriamento maior da atividade e atiçar ainda mais o dragão  inflacionário. “O bolso do brasileiro já está sentindo perdas acima dos  índices oficiais de inflação, agravadas com sustos nos supermercados e o  encarecimento dos serviços”, observou Simão Silber, professor de  economia da Universidade de São Paulo (USP). A carestia, acrescenta ele,  se tornou o obstáculo politicamente mais complexo para Dilma, por mexer  com a vida da maioria da população. “O grande inimigo da presidente é o  descontrole inflacionário, porque ele é traiçoeiro”, resumiu.
Desorganização Guardadas  as devidas proporções entre os números astronômicos da hiperinflação  dos anos 1980, a década perdida, e os índices mais civilizados desde a  estabilização pelo Plano Real (1994), a possibilidade de uma convivência  de PIB estagnado com uma alta generalizada de preços remete ao momento  de maior desorganização da história econômica do país, no período final  do governo José Sarney (1985-1990). Somente em março de 1990, último mês  da gestão do derradeiro presidente da República eleito indiretamente, o  Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), indicador oficial de  inflação, bateu em 82%. No ano anterior, o indicador havia acumulado  alta de 1.972,91%.
Naquela época, os brasileiros viveram o raro  fenômeno da estagflação, mais perversa que inflação alta simplesmente,  porque o capital produtivo preferia se refugiar na especulação  financeira a ampliar a oferta de mercadorias. Eram dias em que  consumidores corriam aos supermercados de manhã para evitar reajustes  gerais de produtos à tarde. Desde a última década do século passado, a  última vez em que o Brasil assistiu a uma inflação anual de dois dígitos  foi em 2002 (12,5%), puxada pelas tensões em torno da eleição de Lula.
Desde  ontem, quando foi anunciado o PIB do primeiro trimestre, consultorias  nacionais e estrangeiras vêm tratando de reavaliar para baixo suas  previsões para o país, com crescimento anual bem menor do que 3% (última  projeção do Fundo Monetário Internacional) e inflação acima de 6%.  Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados, teme que as respostas do  Planalto ao drama de baixa expansão do PIB e IPCA estourando a meta  continuem no rumo do intervencionismo. “O excesso de controles,  verificado nos dois primeiros anos do governo Dilma, afastou  investimentos e gerou incertezas para o futuro. Se essa tendência se  prolongar, poderemos atingir uma rigidez na economia difícil de mudar,  como as angústias encontradas nos anos 1980”, alertou.
Saídas As  dificuldades enfrentadas pelo país não se restringem ao cenário  doméstico. Para as exportações brasileiras, o receio está no fim do  ciclo de alta nos preços dos produtos básicos, sobretudo os  carros-chefes, minérios e soja. “O ritmo acelerado das vendas para a  China está diminuindo, e o Brasil não poderá fazer nada contra isso. É  só assistir e rezar”, sublinhou José Augusto de Castro, presidente da  Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB). O economista Júlio  Miragaya, presidente da Companhia de Planejamento do Distrito Federal,  também acredita que o PIB de 2013 “só chegará perto de 3% se a balança  comercial apresentar números robustos e a retomada dos investimentos se  consolidar”.
Newton Marques, do Conselho Regional de Economia do  Distrito Federal (Corecon-DF), observou que todos os incentivos do  governo ao consumo foram insuficientes para impedir a decepção com o  crescimento do país no primeiro trimestre. O “esvaziamento” da  capacidade de consumo das famílias apontado pelo Instituto Brasileiro de  Geografia e Estatística (IBGE) pode ter feito de 2013 um “ano perdido”,  ameaçando colocar em risco a reeleição de Dilma.
Os sinais mais  preocupantes para a atividade econômica estão vindo, contudo, da  indústria. José Luís Oreiro, professor da Universidade de Brasília  (UnB), teme que a crescente perda de competitividade do setor esteja  colocando em xeque as iniciativas do governo para estimular a produção.  No lugar das atuais políticas de incentivo — como desoneração da folha  de pagamento —, o economista aposta na desvalorização do câmbio e em  investimentos agressivos na infraestrutura para salvar o parque fabril.  “De toda forma, pelo andar da carruagem, o PIB de 2013 será inferior a  2%, bem abaixo da meta estipulada pelo governo, de 3,5%”, sentenciou.