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Autor(es): SIMONE KAFRUNI  » DIEGO AMORIM Enviado especial
Correio Braziliense – 31/05/2013

 

Para economistas, aumento de meio ponto da Selic põe em risco a produção e mostra descuido com a alta de preços no passado

Brasília  e Rio de Janeiro — Frente ao baixo crescimento da economia e ao  decepcionante 0,6% do Produto Interno Bruto (PIB), anunciado ontem,  economistas criticaram duramente a opção do Banco Central (BC) em cravar  a Selic em 8%, com alta de 0,5 ponto percentual. Na análise de alguns, o  salto na taxa de juro pode ser alto demais neste momento de fraca  produção industrial e clara estagnação no consumo doméstico — e os  sinais são de que haverá novos aumentos. Para outros, a medida teria  sido desnecessária agora se o governo não tivesse mostrado leiência com  os preços no passado.
“A dosagem do remédio pode ter sido  excessiva. A economia está mais fraca do que se imaginava, o consumo  caiu, o dólar disparou e o endividamento está alto. Mas o BC mostrou que  pode elevar ainda mais os juros, em 0,25 ou até 0,50 ponto percentual  até o fim do ano”, analisou o ex-diretor do Banco Central Carlos Thadeu  de Freitas Gomes, economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio  (CNC).
A alternativa para manter os juros em patamares  aceitáveis, disse Gomes, passa por medidas como acabar com o Imposto  sobre Operações Financeiras (IOF) na renda fixa. Com isso, ponderou,  haveria maior entrada de recursos no país, derrubando o dólar e,  consequentemente, reduzindo a pressão inflacionária sem necessidade de  elevar os juros. “Nesse cenário, o aumento da Selic poderia ficar em 8%  ao ano”, disse.
O economista-chefe da Austin Rating, Alex  Agostini, argumentou que a elevação mais agressiva, adotada na reunião  do Copom, poderia ter ocorrido antes. “Se fosse independente, o BC  deveria ter iniciado a alta de juros mais cedo. Porém, optou por tentar  manter a economia aquecida, quando sua meta é conter a inflação. Agora,  apostamos em nova alta de 0,25 ou mesmo 0,5 ponto percentual. Há  possibilidade de fecharmos o ano com juros de 8,5% e até 9%”, estimou.
Ele  também lamenta que a alta de juros, que poderia ser feita ao longo de  todo o ano, tenha sido concentrada agora. “Podem ter antecipado a  decisão por uma questão política, para não ter que elevar juros no ano  que vem, que é período eleitoral”, analisou.
Para o economista do  Conselho Federal de Economia Júlio Miragaya, o BC quis demonstrar ao  mercado que age com autonomia. “Mas, com o crescimento abaixo do  esperado, não era o momento mais aconselhável para soltar brado de  independência”, opinou. Em circunstâncias normais, disse o economista, o  PIB frustrante de 0,6% teria levado a uma alta mais moderada da Selic.
Como  a maioria dos analistas do mercado, o economista Newton Marques, do  Conselho Regional de Economia do Distrito Federal (Corecon-DF)  acreditava que o BC seria mais comedido no aumento de juros, com ajuste  de 0,25 ponto percentual. “Aumentaram mais para conter a inflação, mas  infelizmente acabaram criando mais combustível para o pessimismo”,  avaliou.
Para o economista e professor da Universidade de  Brasília (UnB) José Luis Oreiro, a autoridade monetária sinalizou que a  taxa básica de juros chegará ao fim de 2013 em pelo menos 8,75% ao ano, o  que mostra a intenção de encurtar o ciclo de alta de juros. O comitê se  reunirá novamente nos dias 9 e 10 de julho.
O presidente da  Trevisan Escola de Negócios, Antoninho Marmo Trevisan, pontuou que é  preciso ir além. “Na verdade, o Brasil precisa de medidas mais  consistentes e estruturais. Não podemos colocar em risco a baixa taxa de  desemprego, que se mantém em torno de 5%, o processo de inclusão  socioeconômica e ascensão de milhões de pessoas das classes E e D para a  C, reservas cambiais superiores a US$ 400 bilhões de dólares e dívida  externa equacionada”, disse.

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