Na coluna de hoje no Valor Econômico, o Prof. Delfim Netto afirma que é preciso por em prática uma política que garanta uma flutuação organizada do câmbio nominal e moderação salarial para restaurar a competitividade da indústria, acelerar o crescimento do PIB e manter a inflação sobre controle.  Que bom ler essas afirmações vindas de um conselheiro da Presidenta da República !

Muitos intelectuais ditos “desenvolvimentistas” e vários membros do governo da Presidente Dilma Rouseff parecem ainda estar hipnotizados pelo encanto do crescimento impulsionado pelo mercado interno, “modelo de desenvolvimento” no qual o aumento do consumo interno, alimentado pelo crescimento dos salários acima da produtividade do trabalho e pela expansão do crédito bancário (para consumo), estimularia as decisões de investimento dos empresários devido ao efeito acelerador, conduzindo o país a uma trajetória de crescimento sustentado com crescente equidade social. O problema como esse modelo é que, num contexto de abertura comercial, gera uma forte apreciação da taxa real de câmbio ao estimular fortemente a demanda de produtos não-comercializáveis e um aumento crescente do custo unitário do trabalho. Tais fatores reduzem as margens de lucro e a demanda  pelos bens produzidos pelo setor industrial doméstico, pois leva a um processo de substituição de produção doméstica por importações. Nesse contexto, a taxa de lucro dos investimentos do setor industrial se reduz, o que desestimula a formação bruta de capital fixo mesmo num contexto de queda pronunciada da taxa real de juros. 

A redução do investimento no setor industrial impede a modernização da indústria, levando a estagnação da produtividade do trabalho, o que reforça a perda de competitividade da indústria, reforçando o processo de estagnação da economia brasileira. 

O crescimento dos salários na frente da produtividade do trabalho não só leva a perda de competitividade da indústria como ainda contribui para manter a inflação em patamares elevados devido a pressão de custos.

O resultado da apreciação cambial e do aumento do custo unitário do trabalho é, portanto, estagnação da produção industrial combinada com inflação em patamares elevados, a velha “estagflação”.

Mantido o modelo de crescimento com base no mercado interno a única alternativa disponível ao governo é a imposição de barreiras comerciais crescentes para frear e/ou reverter o processo de substituição de produção doméstica por importações. O fechamento crescente da economia é socialmente indesejável, pois leva a um aumento da ineficiência produtiva, como se contatou na economia  brasileira dos anos 1980.

A alternativa, no curto e médio-prazo, é adotar um modelo misto de crescimento com no investimento público em infra-estrutura e substituição de importações. Para tanto se faz necessário aumentar de forma considerável o investimento público (dos atuais 2% do PIB para 5 ou 6% do PIB) , produzir uma forte desvalorização da taxa real de câmbio e atrelar o ritmo de crescimento dos salários ao crescimento da produtividade. Tais medidas exigem mudanças no regime de política fiscal (mudança na composição do gasto público), no regime monetário (abandono do regime de metas de inflação) e na política salarial (fim da indexação do salário mínimo).

Essa é uma agenda que deve ser levada seriamente em conta no debate Presidencial em 2014.

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