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Paulo Silva Pinto

Volatilidade mostra falta de instrumentos para conter preços e garantir crescimento
Os últimos dias da semana pré-carnaval foram de tensão nos mercados. Na quinta-feira, saiu o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de janeiro: 0,86%, chegando, em 12 meses, perto do teto da meta de inflação. Diante da expectativa de que o Banco Central (BC) venha a buscar uma cotação mais baixa para o dólar frente ao real, o mercado se antecipou e começou a vender a moeda norte-americana.
Na sexta-feira, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirmou que o dólar não ficaria abaixo de R$ 1,85. A frase foi interpretada como uma licença para o BC levar a cotação ainda mais para baixo – ninguém imaginava que R$ 1,85 fosse aceitável para o governo. Resultado: o BC teve que atuar no sentido contrário, comprando moeda norte-americana em contratos futuros. Conseguiu levá-la de R$ 1,95 para R$ 1,97.
Economistas que divergem sobre os rumos que o governo deve tomar concordam em um ponto: a tensão no mercado cambial demonstra a escassez de ferramentas do governo para conter a inflação e, ao mesmo tempo, buscar o crescimento econômico. E essa dificuldade é causada por limitações autoimpostas.
“Já acendeu o sinal amarelo: a taxa de inflação está em patamar desconfortável e houve queda da produção industrial. É necessário acelerar o crescimento, do contrário poderá haver regressão na taxa de desemprego, ainda extremamente favorável. Mas é difícil perseguir os dois objetivos com um só instrumento (o câmbio)”, aponta o professor de economia da Universidade de Brasília (UnB) José Luís Oreiro.
“Os espaços de política econômica são cada dia mais estreitos”, nota o ex-diretor do BC Carlos Eduardo de Freitas. Ele afirma que a cotação do real frente a outras moedas transformou-se no único instrumento para conter a inflação por uma soma de opções do governo, que não admite a possibilidade de elevar a taxa básica de juros, não dá sinais de que pretenda reduzir gastos públicos e evita, até mesmo, medidas macroprudenciais propostas pelo presidente do BC, Alexandre Tombini. Com foco na limitação do crédito, elas reduziriam o consumo da nova classe média, por isso não fazem sucesso na Esplanada.
Para Freitas, se o governo recorresse ao aumento nos juros agora, conseguiria recuperar a confiança dos agentes econômicos no médio prazo. “O efeito imediato seria de queda na atividade, porém, mais adiante, o crescimento seria maior”, argumenta. Em meio aos impasses atuais, Freitas acha que a expectativa de crescimento acima de 3% neste ano é inatingível.
Oreiro afirma que o principal problema criado pelo governo foi trabalhar pela aprovação da lei do salário mínimo, que estabelece aumentos acima da inflação. Além da alteração desse mecanismo, ele defende a criação de outro marco legal que limite aumentos salariais em todas as categorias aos ganhos de produtividade. “Isso proporcionaria maior competitividade à indústria”, diz.
Outro ponto em comum entre os dois economistas, e boa parte do mercado, está na crítica à declaração de Mantega sobre o piso para a cotação do dólar. “Ele foi infeliz”, afirma Oreiro. Para Freitas, “só o presidente do BC, que também tem status de ministro, deveria falar sobre câmbio”.

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