Nos ultimos meses diversos economistas ortodoxos tem repetidamente afirmado que o governo da Presidente Dilma Rouseff estaria levando o Brasil de volta aos anos 70 em função de um alegado “excesso de intervencionismo”. Nas entrelinhas, embora isso nunca seja explicitado, tem-se a impressão de que o Brasil parece estar a beira de um desastre macroeconômico haja vista que a década de 1970 foi sucedida pela crise da divida externa, alta inflação e uma década perdida de crescimento. Com efeito, alguns ex-colegas meus da graduação na FEA/UFRJ e que agora trabalham no mercado financeiro me disseram que o Brasil já está em crise, embora, sabe-se lá porque razão, a tal crise teime em não aparecer nas estatísticas de desemprego.  

Não acredito que seja correto afirmar que o Brasil esteja revivendo o final da década de 1970. Por uma série de razões. Em primeiro lugar, a taxa média de crescimento real do PIB no período 1977-1980 foi de 6,46% a.a segundo dados do IPEADATA. No biênio 2011-2012, caso se confirme as expectativas de mercado quanto a trajetória do PIB neste ano, teremos um crescimento médio inferior a 2,0% a.a. Dessa forma, percebe-se que enquanto o final da década de 1970 foi um período marcado por um crescimento bastante robusto do PIB (embora menor do que na época do milagre); os dois primeiros anos da administração Dilma Rouseff são caracterizados por uma semi-estagnação do crescimento.

Em segundo lugar, a participação da indústria de transformação no PIB brasileiro era muito maior na década de 1970 do que é agora. O processo de desindustrialização da economia brasileira teve inicio no final da década de 1970, mas o mesmo se acelera durante os sucessivos governos do PSDB e do PT a tal ponto que a participação da indústria de transformação no PIB recuou em 2011 ao valor existente em 1947 !!! Nesse cenário seria uma benção se a economia brasileira retornasse ao final da década de 1970, pois isso significaria um crescimento de 6 p.p na participação da indústria de transformação no PIB. 

Por fim, o padrão de financiamento externo da economia brasileira mudou muito do final da década de 1970 para os dias atuais. Embora o Brasil tenha voltado a exibir déficits em conta corrente a partir de 2007, atualmente esses déficits são 100% financiados com IED; ao passo que na década de 1970 os déficits eram financiados com empréstimos bancários. A mudança na composição do passivo externo da economia brasileira deixa o país menos vulnerável a mudanças na política monetária dos países desenvolvidos, ao contrário do que ocorreu na década de 1970, após o choque de juros promovido pela gestão Volcker no FED. Se a taxa de juros americana aumentar de maneira significativa em 2014 ou 2015, o impacto sobre a conta corrente do balanço de pagamentos será pequeno, pois a maior parte do nosso passivo externo não está direta (ou indiretamente) ligada com a taxa de juros internacional. Está claro que, nesse cenário, haverá uma redução do fluxo de capitais para a economia brasileira, produzindo uma desvalorização cambial. Contudo, ao contrário dos anos 1970, o Brasil dispõe hoje de um volume bastante significativo de reservas internacionais as quais, combinadas com controles a saída de capitais, poderão controlar o ritmo de desvalorização cambial.

Daqui se segue que uma nova década perdida em função de uma “crise de endividamento externo” como na década de 1980 está descartada. O risco que a economia brasileira corre – e que parece que não está sendo entendido pelas  administrações petistas – é a perda de dinamismo devido a desindustrialização. Para mim o cenário mais provável é de uma economia que poderá crescer entre 2,5% a 3% a.a no médio e longo-prazo, mantendo uma razoável estabilidade macroeconômica e uma taxa de desemprego em torno de 6 a 7% da força de trabalho. Do ponto de vista eleitoral esse cenário pode até ser suficiente para perpetuar o PT indefinidamente no poder, mas irá condenar eternamente o Brasil a condição de país sub-desenvolvido.

O maior risco que o Brasil enfrenta no curto-prazo é uma forte desaceleração do crescimento econômico na China, o que levará a uma queda bastante pronunciada dos preços das commodities que o Brasil exporta. Nesse cenário, o déficit em conta corrente poderá aumentar para 5 ou 6% do PIB tornando-se rapidamente insustentável. Isso produzirá um “sudden-stop” do financiamento externo para a economia brasileira, o que produzirá uma forte desvalorização da taxa de câmbio e aumento da taxa de inflação. Se o governo brasileiro usar de forma competente as reservas internacionais, impor controles a saída de capitais e limitar a indexação de preços e salários a inflação passada, então a desvalorização cambial poderá ser administrada e a elevação da inflação será apenas temporária. Certamente que, nesse cenário, teremos 2 ou 3 anos de queda de crescimento com elevação da inflação (estagflação), mas ao final do processo a taxa de câmbio está perfeitamente ajustada permitindo a re-industrialização da economia brasileira e o retorno ao dinamismo econômico no longo-prazo.

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