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O cenário global deverá continuar hostil à economia brasileira nos próximos  trimestres, por causa das perspectivas pouco animadoras para Europa, China e  EUA, adverte o americano Jan Kregel, do Levy Economics Institute (uma  organização de pesquisa em políticas públicas) e ex-consultor-sênior da  Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad).  Segundo ele, a zona do euro seguirá mal das pernas por um longo período,  prejudicando a China, que tem hoje na Europa o seu principal mercado exportador.  Uma economia chinesa com menor fôlego afeta o Brasil – um grande vendedor de  commodities para a China – economias asiáticas como o Japão e a própria Europa,  pois a Alemanha tem nos chineses um grande cliente, nota Kregel.

“É uma cadeia cumulativa de eventos. A crise europeia se espalha pelo mundo e  depois volta para a Europa”, afirma ele, observando que, para completar o  quadro, há um risco considerável de os EUA não conseguirem evitar no ano que vem  o chamado abismo fiscal – a combinação de elevados cortes de gastos e fim da  redução de impostos, que pode ter um impacto de 3% a 4% do PIB em 2013.

Esse cenário um tanto sombrio é obviamente desfavorável para os preços de  commodities, que têm grande peso na pauta de exportações do Brasil, diz Kregel,  um dos principais convidados do 5º Encontro Internacional da Associação  Keynesiana Brasileira (AKB), que começou na quarta-feira e se encerra hoje, na  Fundação Getulio Vargas (FGV), em São Paulo. Os termos de troca (relação entre  preços de exportação e de importação), que tanto melhoraram nos últimos anos,  têm uma perspectiva bem menos positiva.

Kregel não vê como provável uma ruptura na zona do euro, mas tampouco  acredita que os líderes europeus encontrarão mecanismos para retomar um  crescimento mais acelerado. Para isso, acredita ele, seria fundamental repensar  a estratégia baseada na austeridade, que não tem dado certo. A ênfase excessiva  em medidas de austeridade fiscal tem derrubado a atividade econômica, afetando  as receitas e, com isso, não contribuindo para uma melhora das contas públicas – pelo contrário.

O mais provável, para Kregel, é que os líderes europeus continuem a empurrar  a situação com a barriga, levando a zona do euro a um longo período de baixo  crescimento. Seria importante, por exemplo, que o Banco Europeu de Investimento  (BEI) investisse nos países em apuros, como a Grécia. Se a Europa não sair do  buraco, a China pode seguir em desaceleração, adverte. A prévia de agosto do  Índice Gerente de Compras (PMI, na sigla em inglês) da Markit Economics mostrou  um cenário ruim para a indústria, ao ficar em 47,8 pontos, inferior aos 49,3  pontos de julho – abaixo de 50, o indicador aponta contração da atividade.

Kregel tampouco é otimista em relação à economia americana. Para ele, há uma  possibilidade significativa de que os democratas e republicanos não cheguem a um  acordo para evitar a concretização do abismo fiscal. Se a redução acentuada de  gastos e o aumento abrupto de impostos se materializar, a economia americana  pode encolher em 2013, diz Kregel. Segundo ele, a incerteza quanto ao que vai  ocorrer no ano que vem tem afetado a confiança dos empresários, que seguram  planos de investimento.

Com um quadro externo tão adverso, os países podem tentar desvalorizar suas  moedas, para impulsionar a economia por meio de exportações, e adotar medidas  protecionistas. Nesse ambiente, diz Kregel, o Brasil corre o risco de ver um  aumento do fluxo de capitais, uma vez que os juros brasileiros continuam bem  acima dos vigentes nos países desenvolvidos, mesmo com a forte queda da Selic  ocorrida desde agosto de 2011.

Se a recuperação econômica esboçada em junho e julho de fato ganhar corpo,  apesar do cenário externo difícil, será mais um motivo para o Brasil atrair  capitais estrangeiros, num momento em que o real não está mais tão valorizado  como há alguns meses, diz Kregel, também da Universidade do Missouri (EUA). Ele  acredita que o Brasil deve reforçar antecipadamente os controles de capitais já  existentes, para impedir uma nova onda de valorização do real.

A boa notícia em relação ao Brasil, segundo ele, é que o país tem espaço  fiscal e monetário caso seja preciso estimular mais a economia. É possível e  reduzir o superávit primário (a economia para pagar os juros da dívida) e cortar  mais os juros se a situação ficar complicada, sem que isso provoque efeitos  colaterais perigosos. Num mundo complicado como o atual, são motivos que  permitem um pouco mais de otimismo em relação às perspectivas do país.

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