Carro novo ficará até 10% mais barato Veículo 1.0 fica isento do imposto e montadoras darão desconto que pode reduzir preço em 10%. Carga fiscal cai para outros modelos e IOF da pessoa física é reduzido a 1,5% nas compras

 

Rosana Hessel

Cristiane Bonfanti

Victor Martins

Publicação: 22/05/2012 07:13 Atualização: 22/05/2012 07:36

O governo lançou ontem um novo conjunto de medidas para tentar estimular a economia, que ainda não deu mostras de estar reagindo aos efeitos do agravamento da crise política e financeira da Europa. Ao lado do ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, e do presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho, o ministro da Fazenda, Guido Mantega anunciou a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) dos automóveis até 31 de agosto e do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) cobrados nos financiamentos para pessoas físicas, além da liberação de R$ 18 bilhões para que os bancos aumentem a oferta de crédito para a compra de veículos. A expectativa é de uma redução de 10% dos preços de tabela dos carros populares, de até 1 mil cilindradas.Com o corte dos tributos, o governo vai abrir mão de uma arrecadação de R$ 2,7 bilhões em três meses. Em contrapartida, os bancos prometeram oferecer mais empréstimos para a compra de veículos; e as montadoras, dar descontos e não demitir funcionários. “Nosso objetivo é reduzir os custos para o consumidor e o valor das prestações. Trata-se de mais uma medida para garantir o crescimento econômico no meio da crise internacional”, afirmou o ministro da Fazenda.

'O resultado esperado dessas medidas é reduzir o custo do investimento no país. Em segundo lugar, é a redução do preço dos veículos ao consumidor'  (Iano Andrade/CB/D.A Press) “O resultado esperado dessas medidas é reduzir o custo do investimento no país. Em segundo lugar, é a redução do preço dos veículos ao consumidor”

As montadoras instaladas no Brasil terão o IPI para carros com motores de até 1 mil cilindradas (1.0) reduzido de 7% para zero. Para veículos de 1 mil até 2 mil cilindradas, a alíquota cairá da faixa de 41% a 43% para 35,5% a 36,5%. E, para os utilitários, de 34% para 31%. Já os importados terão o tributo cortado de 37% para 30%. O ministro anunciou ainda a redução de juros nos financiamentos do BNDES para bens de capital, com o objetivo de incentivar investimentos. Para exportadores, por exemplo, a queda foi de 9% para 8% ao ano. Os juros para a compra de caminhões e ônibus caíram de 7,7% para 5,5% e, para máquinas e equipamentos, de 7,3% para 5,5%. “Estamos voltando aos juros de 2009 e esse é o financiamento para o setor produtivo expandir sua produção”, disse.

Mantega demonstrou confiança com o comprometimento do setor privado com esse novo pacote. O presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Cledorvino Belini, frequentador assíduo do gabinete do ministro nos últimos dias, estava na plateia durante o anúncio. “A indústria automotiva nunca descumpriu um acordo. Eu confio na Anfavea e também nos bancos. Eles vão aumentar o número de parcelas”, disse o ministro. Ele garantiu que, o governo irá monitorar semanalmente o aumento da oferta de crédito. “Se ainda faltarem recursos o governo tomará novas medidas. Essa é a ordem que temos”, emendou.

MEDIDA PALIATIVA Na avaliação do professor de Economia da Universidade de Brasília, José Luis Oreiro, esses incentivos de caráter temporário tendem a funcionar, mas ainda são paliativos. Ele alertou que o efeito no crescimento econômico poderá não ser o mesmo obtido na crise de 2009, quando foram adotadas medidas semelhantes. “Mais uma vez o governo está no caminho errado. Ele está de novo incentivando o consumo. Seria melhor reduzir a meta de superávit primário e aumentar o investimento público”, afirmou, lembrando que o brasileiro está cada vez mais endividado e, dessa forma, com menos capacidade para honrar seus compromissos.

Ao ser questionado sobre se o governo está preocupado com o aumento do endividamento do brasileiro, Mantega demonstrou otimismo. “O mercado de trabalho está aquecido e a massa salarial continua se expandindo. Isso é perfeitamente factível com aumento do consumo, sem o qual não haverá aumento de investimento”, disse. No entanto, ele reconheceu que o pacote não deverá provocar um crescimento como em 2010 (de 12%) e que a expansão da economia brasileira ficará abaixo da meta de 4,5% deste ano.

As novas medidas devem entrar em vigor a partir de hoje, com a publicação do decreto com as reduções do IOF e do IPI para veículos. “O impacto no preço para o consumidor será imediato”, garantiu Belini, da Anfavea. Ele estimou que os carros até 1 mil cilindradas terão uma redução de 10% no preço final. Já os de 1 mil a 2 mil cilindradas, de 7%, e os utilitários, de 4%. “Essas medidas vão destravar o crédito”, afirmou ele, em tom confiante de que os estoques serão reduzidos. “Hoje eles estão entre 45 e 50 dias e deverão voltar ao normal, que é de 30 dias”, completou. Mais de 366 mil veículos estão parados nos pátios das montadoras e distribuidoras.

Recursos garantidos pelo BC

O Banco Central liberou R$ 18 bilhões dos depósitos compulsórios para que instituições financeiras possam aumentar o ritmo de concessão de financiamento de veículos e reduzir juros aos consumidores. O montante é equivalente a 10% de todo o crédito concedido pelo segmento. A nova regra vale a partir de hoje. Segundo o Banco Central, a medida tem como objetivo criar melhores condições para as operações do segmento sem com isso comprometer a segurança. Desde o início do ano, representantes do setor tem se queixado ao governo das vendas e de escassez de recursos para financiar veículos novos.

O presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, defendeu ontem as “reformas” promovidas pelo governo Dilma Rousseff, durante evento do Grupo de Líderes Empresariais (Lide), em São Paulo, pouco antes de anunciar as medidas de liberação dos compulsórios para veículos. A autoridade monetária ainda avaliou como positivas as alterações na poupança e a briga do Palácio do Planalto por juros bancários menores. Em seu discurso, preparou o terreno para as medidas de estímulo ao crédito que foram anunciadas no fim do dia. Tentou também avalizar uma redução dos depósitos compulsórios e uma flexibilização das garantias nos financiamentos ao projetar uma queda da inadimplência no segundo semestre do ano.

Tombini disse ainda que a atividade econômica vai se acelerar ao longo deste ano e destacou que o Brasil está com um nível adequado de depósitos compulsórios (cerca de R$ 400 bilhões). Para ele, esses depósitos que as instituições guardam no BC, que nada mais são do que um percentual do que clientes colocam nos bancos, são parte da defesa do país em momentos de escassez de dinheiro e de crédito no mundo.

Dilma vê o Brasil “300% preparado”

A presidente Dilma, durante inauguração de uma ponte em Santa Catarina, também falou sobre crise e as armas do governo para superar as turbulências. “Nós não precisamos encostar um tostão do orçamento para expandir crédito. Nós temos no BC R$ 400 bilhões a título de depósito que os bancos são obrigados a colocar no BC como garantia do sistema financeiro público e privado. Portanto, temos R$ 400 bilhões para enfrentar qualquer emergência de crédito”, disse a presidente. “Posso assegurar: nós estamos 100%, 200%, 300% preparados”, garantiu Dilma, com relação ao enfrentamento da crise financeira.

Os discursos governamentais evidenciaram mais uma vez a preocupação da equipe econômica e de Dilma com o crescimento do país neste ano e nos próximos anos. “A economia brasileira vai continuar seguindo uma trajetória de crescimento”, frisou Tombini, que disse esperar um crescimento maior em 2013 do que neste ano. A recuperação da atividade econômica, segundo técnicos do governo, está mais lenta do que o esperado. Essa fraqueza, somada as incertezas internacionais, tem feito inclusive o ministro da Fazenda, Guido Mantega, esquivar-se quando o assunto é previsão para o Produto Interno Bruto (PIB, soma das riquezas do país), mesmo com uma meta extra-oficial de 4,5% de expansão.

Toda essa preocupação tem mobilizado o governo. Não à toa, ontem, na divulgação do novo pacote de estímulo à economia, o ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, e o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho, participaram do anúncio. Banqueiros do setor privado e presidentes dos bancos públicos também estiveram em Brasília para debater a medida.

Na política monetária, o fantasma da inflação é o que ameaça a estratégia de expansão do governo. Os resultados mensais do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) começam a preocupar e podem travar o processo de afrouxamento monetário em algum momento.

Inflação Na visão de especialistas e de técnicos do governo, a crise internacional, até então, facilitava o trabalho do Banco Central e, como o próprio Tombini ponderou em discursos e apresentações, os problemas na Europa tinham efeito desinflacionario sobre o Brasil. Essa ajuda, porém, parece estar se reduzindo. “Houve um agravamento do cenário econômico internacional. Ninguém tem bola de cristal para saber o que vai acontecer, mas estamos mais fortes do que estávamos em 2008. Temos que avaliar a evolução da economia nos próximos dias”, afirmou o presidente do BC.O dólar em escalada frente o real também pode afetar os índices de preços. Para Tombini, porém, esse impacto deve ser mínimo para a política monetária. “O repasse da alta do dólar para a inflação tem diminuído ao longo do tempo e a avaliação do governo é de que esse repasse, até esse momento, é moderado”, observou. (VM)

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