Desaceleração da China e nova crise irão afetar o Brasil, alerta Oreiro

Por: Luis Zanini

Ao traçar um panorama da “Crise do Euro e a Desindustrialização no Brasil: entre a crise da balança de pagamento e semi-estagnação”, o professor do Departamento de Economia da Unb (Universidade de Brasília), José Luiz Oreiro, disse que a turbulência na chamada Zona do Euro deve persistir nos próximos anos e atingir o Brasil, que ainda pode ser afetado diretamente pela desaceleração econômica da China.

A análise macroeconomica foi apresentada por Oreiro nesta terça-feira, em Brasília, aos membros da Comissão Executiva Nacional do PPS e da bancada do partido na Câmara. Ele disse que se uma nova crise econômica atingir a Europa e os EUA nos próximos dois anos, os seus efeitos podem ser ainda mais catastróficos para e economia mundial. Isso porque, segundo ele, as medidas necessárias para recuperar a estabilidade depois da crise de 2008 (taxa de juros baixa e pacotes fiscais) já foram adotas pelos países desenvolvidos.

Para Oreiro, um possível agravamento da situação da economia mundial causará uma crise de grandes proporções na balança de pagamentos do Brasil. Ainda assim, diz o economista, se o cenário se mantiver estável, que de acordo com ele  é o mais provável, o país ficará na situação de semi-estagnação, com crescimento variando entre 3% e 3,5% ao ano.

Commodities

A queda de 20% no preço das principais commodities exportadas pelo Brasil, de acordo com Oreiro, praticamente dobrará o déficit em conta corrente.

Desindustrialização

O economista afirmou que China e Coréia estão aumentando a participação da indústria no PIB, enquanto que os países desenvolvidos passaram por um processo “natural” de desindustrialização nos anos de 1970 e 1980.

Oreiro disse, no entanto, que o processo de desindustrialização brasileiro é diferente e classificado de “precoce” pelo professor  Gabriel Palma, da Universidade de Cambridge. “O Brasil está reduzindo a participação da indústria no PIB com nível de renda per capta menor do que os países desenvolvidos tinham no início do processo de industrialização”, afirmou.

Ele assinalou que ao contrário do que ocorreu com as economias desenvolvidas, a “indústria nacional ainda não cumpriu com o seu papel no desenvolvimento econômico”, por isso é que a “desindustrialização é precoce e negativa”.

“A desindustrialização [queda da participação da indústria na formação do PIB] trará efeitos negativos na economia brasileira a longo prazo”, diz economista. Em 2006, a produção industrial representava 15% do PIB e no ano passado caiu para 13%. Segundo Oreiro, as principais causas da desindustrialização são a valorização do câmbio e perda de dinamismo provocado pela desaceleração dos investimentos no setor.

Semi-estagnação e porta de saída

Para José Luiz Oreiro, a semi-estagnação e a crise da balança de pagamentos na Europa irá permanecer por vários anos e vai prejudicar as exportações brasileiras de produtos manufaturados.

Ele diz que a saída para o Brasil superar essa crise é a implementação de uma agenda de reformas no modelo macroeconômico: taxa de juros civilizadas; reforma inteligente da poupança (instituição de uma taxa de remuneração do rendimento flutuante), eliminação do déficit nominal do setor público; revisão de contratos para acabar com a indexação com base na inflação e regime de câmbio administrado.

Crise soberana e bancária

O economista do UnB considerou que a política econômica adotada pelos países desenvolvidos dá “resposta fraca” para fazer frente aos riscos de crises soberana e bancária, e que nos países emergentes ela é “vulnerável”. Ele cita como exemplo a bolha imobiliária já instalada no Brasil. “Essa bolha está ajudando na recuperação do mercado norte-americano”, ironizou.

Salário mínimo

Para José Luiz Oreiro, a política de recomposição do valor real do salário mínimo é “socialmente desejável e traz benefícios econômicos”. “O problema é que ela está errada porque causa mais problemas que benefícios. Atrelar o salário mínimo a inflação passada para ter um ganho real, muito acima de qualquer noção real de produtividade, é contrário aos interesses da classe trabalhadora no longo prazo”, disse.

A fórmula que o economista propõe para o cálculo do reajuste do mínimo é a meta da inflação do CMN (Conselho Monetário Nacional) mais ganho real de 1,5% ao ano.