Tags

, ,

Governo quer que BB e Caixa “roubem” clientes

Autor(es): » ROSANA HESSEL
Correio Braziliense – 15/03/2012
 

 

 

Ordem é para conquistarem correntistas com juros e tarifas menores

O governo decidiu recorrer ao Banco do Brasil e à Caixa Econômica Federal para tentar reduzir o custo dos empréstimos ao setor produtivo, repetindo a estratégia vitoriosa de 2008, quando as instituições públicas supriram o mercado de crédito, ajudando o país a sair mais rápido da crise mundial. A ordem do Palácio do Planalto, repassada pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, aos presidentes dos dois bancos, Aldemir Bendine (BB) e Jorge Hereda (Caixa), é forçar a concorrência privada a baixar o chamado spread, diferença entre o que se paga aos investidores e o que se cobra dos devedores. Essa redução se tornou uma obsessão da presidente Dilma Rousseff. Para ela, BB e Caixa “têm de roubar clientes” dos demais bancos, com juros e tarifas mais baixos.

Com o spread bancário menores, o governo acredita que as empresas poderão tomar financiamentos mais baratos para ampliar a produção, ofertando mercadorias que concorram, de igual para igual, com os importados que inundam o país por causa da fragilidade do dólar ante o real. Por tabela, o Planalto espera que o fortalecimento da indústria, que vem encolhendo mês a mês, impulsione a atividade a ponto de o Produto Interno Bruto (PIB) fechar o ano com crescimento de 4%. “Neste momento, estamos mirando a indústria. Mas, com certeza, o spread também cairá para os consumidores. Não temos dúvida disso”, disse um técnico do Planalto.

Portabilidade
O temor dos especialistas é que o resultado do BB e da Caixa despenque. Para Bendine, presidente do Banco do Brasil, esse risco não existe. “O nosso modelo econômico-financeiro tem folga para trabalhar em relação a isso (spreads menores)”, disse ele, ao sair do gabinete de Mantega. No entender do executivo, não é possível garantir, porém, que as medidas para baratear o crédito saiam ainda neste mês, com o pacote que está sendo arrematado pelo Planalto para dar maior competitividade aos produtos nacionais. Nesse pacote, está o prolongamento da redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) de eletrodomésticos e a desoneração da folha de salários de pelo menos mais quatro setores.

“Há uma série de pontos que a gente precisa estudar melhor. Acho que até o modelo de crédito no país precisa ser revisto. E é nisso que a gente está trabalhando”, afirmou Bendine. Uma das opções será ampliar a portabilidade do crédito, ou seja, ampliar as facilidades para se levar operações de uma instituição para outra. “O banco vai procurar ajudar bastante”, assinalou. A Caixa informou que a política da instituição é a mesma do BB, com oferta de crédito para pessoas físicas e jurídicas a juros mais baixos possíveis.

“O brasileiro paga o maior spread do mundo. Por isso, precisa ser reduzido”, afirmou o professor da Universidade de Brasília (UnB) José Luís Oreiro. Pelos seus cálculos, o spread no Brasil gira em torno de 30 pontos percentuais ao ano. “Em 1994, era de 120 pontos. Mas, apesar da redução, ainda é o maior do planeta”, explicou. Ele destacou que as empresas de primeira linha conseguem empréstimos com juros de 40% ao ano. No caso das pequenas e médias, as taxas são muito maiores.

Cortes de impostos
Entre os setores que devem ser beneficiados com a redução de tributos sobre a folha de pagamentos estão o moveleiro, o têxtil, o de autopeças e o aeroespacial. Representantes desses quatro setores têm encontro marcado hoje com o ministro da Fazenda, Guido Mantega.

Emprego cai de novo

Não é à toa que o governo brasileiro está tão preocupado com o tsunami monetário que está provocando a desvalorização do dólar e diminuindo a competitividade dos produtos brasileiros. Os efeitos mais claros estão sendo sentidos no mercado de trabalho. O emprego na indústria brasileira caiu 0,3% em janeiro ante dezembro. Na comparação com o primeiro mês do ano passado, a queda foi de 0,5%, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). É o quarto recuo na consecutivo na comparação anual desde outubro.

No confronto com janeiro de 2011, a redução afetou oito das 14 localidades pesquisadas. O pior resultado foi registrado em São Paulo, com queda de 3% no emprego, principalmente por causa do mau desempenho das indústrias de produtos de metal, metalurgia básica, borracha e plástico. Em Santa Catarina, a redução de 1,5% no contingente de trabalhadores foi influenciada pelos resultados dos setores de madeira, vestuário, têxtil e calçados e couro. No Ceará, a queda de 2,8% foi atribuída a perdas em alimentos e bebidas, entre outros ramos. Por outro lado, Paraná, Pernambuco e Minas Gerais tiveram os melhores resultados, com crescimentos de 4,6%, 4,2% e 2,5% no número de contratados, respectivamente.

Para o economista André Macedo, do IBGE, o ritmo do emprego acompanha o comportamento da produção e sua perda de dinamismo. “Não sei qual será o padrão daqui para frente, mas está claro que há uma predominância de resultados negativos”, afirmou. A produção industrial brasileira caiu 2,1% em janeiro ante dezembro, a maior redução mensal desde dezembro de 2008, auge da crise financeira global. No ano passado, o crescimento foi de apenas 1,6% em relação a 2010, desempenho ainda menor do que o do Produto Interno Bruto (PIB), que teve expansão de 2,7% no ano.

Perspectiva ruim
A perda no dinamismo se manifesta também no número de horas pagas aos trabalhadores. A queda foi de 0,2% ante dezembro e 1,5% na comparação com janeiro do ano passado. Na avaliação do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), o resultado sinaliza que a quantidade de pessoas ocupadas deve continuar caindo em fevereiro. “Usualmente, antes de reduzir seu efetivo, as empresas diminuem as horas trabalhadas de sua mão de obra. A perspectiva de curto prazo, portanto, não é boa para o emprego industrial”, explicou.

Anúncios