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União Européia pede mais cortes e Grécia tem nova greve

10 Fev 2012 . 10:07 h . Agência O Globo . portal@d24am.com

A União Europeia (UE) e o Fundo Monetário Internacional (FMI) estão irritados com uma série de promessas descumpridas por Atenas. UE pede mais cortes e Grécia tem nova greve.

Atenas– Trabalhadores gregos entraram em greve contra os cortes de gastos e a redução do salário mínimo, impostos pelas chamadas medidas de austeridade, nesta sexta-feira. Foram ancorados navios e o transporte público ficou paralisado, horas após ministros das Finanças da zona do euro dizerem que Atenas precisa executar mais cortes de gastos para convencê-los a liberar um novo empréstimo de € 130 bilhões, no segundo pacote de resgate do país.A União Europeia (UE) e o Fundo Monetário Internacional (FMI) estão irritados com uma série de promessas descumpridas por Atenas.Antes de liberarem mais ajuda, os financiadores da Grécia têm pedido a aprovação parlamentar do novo pacote de austeridade nesta semana, a identificação de mais € 325 milhões em reduções de gastos até a próxima quarta-feira e um forte comprometimento de todos os partidos para implementar as reformas.

Mas essas exigências podem ter ido longe demais. Muitos gregos, já sofrendo com cinco anos consecutivos de recessão, estão cada vez mais irritados com as medidas, que não devem trazer alívio à economia, em que um entre cada cinco gregos está desempregado, lojas fecham uma após outra e famílias estão apertando seu orçamento.

A praça central de Atenas, Syntagma, em frente ao Parlamento, tremia com palavras de ordem proferidas em alto-falantes para um protestocontra as medidas: “Não a demissões! Não a cortes de salários! Não a cortes de pensão! Não baixem suas cabeças! Resistam!”.

Cortes de gastos polêmicos negociados por líderes políticos

Após semanas de impasse e adiamentos, os líderes políticos do governo grego fecharam na quinta-feira um acordo que aprofunda as medidas de austeridade e habilita o país a receber um segundo pacote de ajuda de € 130 bilhões, a tempo de evitar o calote de sua dívida soberana. As medidas preveem cortes equivalentes a 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB, conjunto de bens e serviços produzidos no país), ou € 3,3 bilhões.

Os ministros de Finanças das 17 nações da zona do euro se reuniram também na quinta-feira para avaliar a viabilidade das medidas acertadas em Atenas, cujos últimos detalhes só foram concluídos após a chegada em Bruxelas do ministro de Finanças da Grécia, Evangelos Venizelos.

Os cortes incluem ainda € 400 milhões em investimentos públicos, € 300 milhões em despesas militares e € 300 milhões com pensões. Estão previstos ainda o corte de 15 mil funcionários públicos, que serão colocados em uma “reserva especial”, e redução da força de trabalho em 150 mil vagas até 2015. Além disso, o salário mínimo será reduzido em 22% no caso de novas contratações. Os que estiverem iniciando seu primeiro emprego receberão um salário 30% abaixo do mínimo oficial, de 750.

Troika quer garantias do governo grego

Em Bruxelas, os ministros de Finanças anunciaram que precisarão de mais tempo para analisar as medidas de austeridade, antes de dar um sinal verde para o segundo pacote de ajuda. Disseram que Atenas terá antes que provar seu compromisso com a aplicação das medidas. Representantes da troika — União Europeia (UE), Banco Central Europeu (BCE) e o Fundo Monetário Internacional (FMI) — criticaram a sequência de quebra de promessas e adiamentos por parte do governo grego.

— Depende do governo grego adotar ações concretas por meio da legislação e outras medidas para convencer seus parceiros europeus de que um segundo pacote (de ajuda) poderá funcionar de fato — disse o comissário de Assuntos Econômicos e Monetários da UE, Olli Rehn.

Após ter passado a noite de quarta-feira em negociações com o premier grego, Lucas Papademos, líderes da base aliada e representantes da troika, Venizelos chegou na quinta-feira a Bruxelas com a proposta grega ainda incompleta. Faltava definir um item crítico: o corte de pensões. Durante o dia, no entanto, costurou-se, em conversas com os políticos gregos e a troika, uma tesourada de € 300 milhões.

As negociações tiveram uma baixa. O vice-ministro do Trabalho, o socialista Yannis Koutsoukos, renunciou por discordar das medidas. A base aliada do governo — composta pelos socialistas do Pasok, os conservadores da Nova Democracia e os ultraconservadores do Laos — resiste em aprofundar o aperto fiscal, com graves consequências na qualidade de vida da população e em suas aspirações eleitorais.

Mohamen El-Erian, diretor-executivo da Pacific Investiment Management, uma das maiores administradoras de fundos que aplicam em bônus soberanos, disse à Bloomberg News que o pacote aprovado pelo governo grego dificilmente levará o país de volta ao crescimento e classificou as medidas como tecnicamente questionáveis.

— É pouco provável que levem ao crescimento, à geração de empregos, à estabilidade financeira e aos investimentos — disse ele, acrescentando que os líderes políticos terão dificuldade de convencer seus eleitores.

Acordo pode adiar solução definitiva

O acordo obtido pelo governo da Grécia para adotar mais políticas de austeridade, e assim negociar uma redução da dívida, pode não se sustentar. Segundo economistas, ao não resolver os problemas da economia grega, o acordo, do qual ainda faltam detalhes, pode apenas protelar uma solução.

Para Monica de Bolle, economista da Galanto Consultoria, a frágil base política pode ser o primeiro problema do acordo. Por causa da proximidade das eleições em abril, pode ser necessário garantir seu cumprimento pelo próximo governo. Por outro lado, a atual conjuntura econômica seria favorável para uma solução definitiva, com calote e saída da Grécia do euro.

— Mais perto das eleições americanas, o quadro pode piorar — diz Monica.

Na visão do economista José Luis Oreiro, professor da Universidade de Brasília (UnB), com mais medidas de austeridade o caso da Grécia se assemelha a um “parafuso girando em falso”: mais apertos não têm efeito.

— O acordo pode afastar o calote iminente, mas a saída passa pelo incentivo ao crescimento — diz Oreiro.

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