Sílvio Ribas

Publicação: 31/12/2011 08:00 Atualização:

Lançada em janeiro de 2002 para fortalecer a Zona do Euro, a moeda comum perdeu força após o superendividamento de países como a Grécia, onde a violência tomou as ruas contra a união monetária (Kai PfaffenbachReuters - 6/1/04) Lançada em janeiro de 2002 para fortalecer a Zona do Euro, a moeda comum perdeu força após o superendividamento de países como a Grécia, onde a violência tomou as ruas contra a união monetária

Bem diferente da festa popular do réveillon de 2002, o décimo aniversário de circulação do euro, amanhã, será marcado por protestos organizados em redes sociais. A área em frente à sede do Banco Central Europeu (BCE), na cidade alemã de Frankfurt, concentrará a maior parte dos indignados, ilustrando bem o elevado nível de tensão e pessimismo na Zona do Euro. Para especialistas ouvidos pelo Correio, 2012 será o grande teste para a unidade dos 17 países que até agora aderiram à moeda comum, tendo nos bastidores um confronto entre a maior potência do grupo, a Alemanha, e o quarteto apelidado de sul da Europa — Espanha, Portugal, Grécia e Itália. Os economistas duvidam que a moeda única acabe. Mas todos admitem que o clube do euro está, enfim, muito mais exigente com seus sócios.

O espaço de circulação do euro foi aberto com 12 países e continuou se ampliando, mesmo após a turbulência bancária originada nos Estados Unidos e que obrigou governos europeus a se endividarem para conter os efeitos da crise. As adesões de países pequenos como Eslovênia (2007), Chipre e Malta (ambos em 2008), Eslováquia (2009) e Estônia (2011) foram comemoradas. “O euro é irreversível”, sentenciou Herman Van Rompuy, presidente do Conselho Europeu. Em contrapartida, “a Europa vive o momento mais dramático desde a Segunda Guerra”, alertou a chanceler alemã Angela Merkel.

Mais seletiva a novos candidatos, a Zona do Euro pode até ficar menor, caso esforços individuais e coletivos de seus atuais países-membros não obtenham sucesso. “Se não ocorrer em 2012, o racha do euro dificilmente virá depois”, definiu José Luiz Oreiro, professor da Universidade de Brasília (UnB). No seu entender, a fuga da moeda comum acarretaria pelo menos seis meses de forte instabilidade financeira e até três anos de recessão no país que tomar a atitude.

 (John Kolesidis/Reuters - 19/10/11) 


Preocupação

 “Há 25% de chance de haver abandono dos membros mais frágeis — Grécia, Itália e Espanha. O caso grego se explica pelo débito soberano impagável; o italiano, pela falta de consenso político; e o espanhol, pelo custo menor para sair”, calculou. Para o economista, tudo vai depender de como os cidadãos reagirão à austeridade exigidas pelo momento.

Um dos fatores extras de desestabilização é a sucessão incerta do presidente francês Nicolas Sarkozy — que divide com Merkel a liderança do grupo — nas eleições de maio. Mas a questão central, sublinhou Oreiro, é a competitividade perdida pelo sul da Europa, onde produtos e mão de obra estão sobrevalorizados. “O ajuste da taxa local de câmbio, hoje na casa de US$ 1,30, só viria com troca de moedas ou pelo agravamento da própria crise europeia”, disse. Nesse raciocínio, ele não descarta emissões de euros para derrubar a divisa, numa ação inspirada no Federal Reserve (Fed, o Banco Central norte-americano).

Crescer encurtaria a saída da crise, mas é algo que ninguém espera que ocorra tão cedo. A situação tensa na Europa esfriou as vendas de Natal no continente e reforçou a recessão aberta neste semestre. “O ano de 2012 é esperado com grave preocupação”, anotou um estudo da consultoria internacional Deloitte. A economista Sandra Polónia Rios, diretora do Centro de Estudos de Integração e Desenvolvimento (Cindes), acredita que deserções do euro podem ocorrer a partir de 2013. Até lá, França e Alemanha construiriam um modelo para reforçar a integração econômica e a política das nações que efetivamente tocarão o euro adiante.

“A coordenação fiscal terá de ser maior que o acordo da cúpula da União Europeia (UE) anunciado em dezembro e vetado pelo Reino Unido. Mesmo com a autoridade supranacional, devem surgir, enfim, penalidades automáticas para quem descumprir metas”, explicou Sandra. “O empobrecimento de países limita sacrifícios ditados por governos e isso pode levar a deserções”, ressaltou.

Brasil

No papel de fiadoras do diálogo, autoridades econômicas do bloco monetário se esforçam para mostrar otimismo. O ministro de Finanças da Alemanha, Wolfgang Schaeuble, descarta o colapso da Zona do Euro e aposta na sua estabilização ao longo de 12 meses, pondo fim a três anos de crise da dívida. “Teremos o risco de contágio sob controle”, afirmou. Ele reconheceu, contudo, que os problemas, em alguns países, são particularmente grandes e que resolvê-los levará muito tempo.

Além das expressivas perdas na bolsa de valores, os efeitos da crise europeia já alcançaram a economia real brasileira na forma da retração do crédito e do comércio internacional. O economista Fabio Giambiagi, do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), avalia que esse processo avançará em 2012, mas com menor intensidade que na crise de 2008 e 2009. “Creio que o país enfrentará dificuldades temporárias. A Europa passará por uma recessão, prejudicando as exportações do país. Por outro lado, os mercados europeus já vêm perdendo peso na economia mundial há muito tempo, de modo a resultar em consequências menos graves que às do passado recente”, ponderou.

Para Giambiagi, o maior perigo para o Brasil está numa eventual quebra de bancos importantes da Zona do Euro. Por enquanto, ele vislumbra uma crise europeia séria no próximo ano, mas sem colapso do sistema financeiro nem saída de países do bloco da moeda comum.

Antídotos aos abalos

Apesar de sentir reflexos da crise europeia, a economia brasileira ainda exibe um determinado grau de blindagem, que é explicado, aos olhos dos especialistas, por condições econômicas distintas, parte delas obtidas após a última crise financeira global. Ernesto Lozardo, da Fundação Getulio Vargas (FGV-SP), vê como pontos favoráveis ao Brasil sistema bancário estruturado, empresas capitalizadas, renda e crédito bem distribuídos, capacidade de rolagem da dívida pública e baixa exposição às exportações. Ele lembra que o mercado interno segue robusto, o consumo está em alta, empresários e consumidores estão otimistas com o futuro e a política fiscal está sob controle. As preocupações, por ora, se restringem à piora do crédito e ao comércio global, mas, sobretudo, à desaceleração da China

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