JOSÉ LUIS OREIRO
ESPECIAL PARA A FOLHA
 ALGUNS ACHAVAM QUE A REDUÇÃO DE JUROS ERA PREMATURA. ESTÁVAMOS ERRADOS

Recentemente, o Banco Central iniciou um ciclo de redução da taxa de juros. Não foi a primeira vez, e certamente não será a última, que isso ocorre. O Brasil convive há vários anos com ciclos de elevação e redução da Selic.

Ficar torcendo por uma redução da taxa de juros, a cada reunião do Copom, como se a política monetária fosse um jogo de futebol, não é uma forma inteligente de encarar o problema dos juros.

O comportamento da taxa de juros depende de fatores conjunturais e estruturais. Os primeiros são da alçada do BC, e os últimos dependem mais das instituições e da política macroeconômica.

O ciclo atual de redução da taxa de juros se explica como uma resposta da política monetária à desaceleração do ritmo de crescimento da economia brasileira. O PIB brasileiro, que cresceu 7,6% em 2010, deve fechar o ano de 2011 com um crescimento ligeiramente superior a 3%.

Essa desaceleração resultou da estagnação da produção industrial a partir do segundo semestre de 2010 devido à valorização da taxa de câmbio e da retração do investimento devido aos efeitos da crise na Europa sobre o ânimo dos empresários.

Nesse cenário, o BC avaliou que os riscos que pairavam sobre o crescimento da economia eram superiores aos riscos de estouro do teto da meta de inflação e decidiu iniciar um ciclo de redução da taxa de juros no início do segundo semestre de 2011.

Naquele momento, o cenário de desaceleração do crescimento ainda não estava tão claro, e alguns economistas (eu inclusive) achavam que a redução de juros era prematura. Estávamos errados, e o Banco Central, certo.

Isso não quer dizer que o Brasil caminhe para a solução definitiva do problema.

A redução da Selic em curso é meramente conjuntural, derivada da desaceleração do crescimento da economia brasileira, e será revertida quando o PIB voltar a crescer mais. Isso porque subsistem fatores estruturais para os juros elevados. Esses fatores não foram objeto de atenção, muito menos de formulação de política, por parte do governo da presidente Dilma.

É necessário concluir o Plano Real com a total desindexação da economia, o que inclui preços administrados, o salário mínimo e a dívida pública. Também é necessário conter o ritmo de crescimento dos gastos de consumo e de custeio. Sem isso o Brasil estará condenado a viver eternamente com juros elevados e câmbio apreciado.

JOSÉ LUIS OREIRO é professor de Economia da Universidade de Brasília.

 

 
Fonte: Folha de S.Paulo
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