Estimado Sr. Mariano Rajoy,

O povo da Espanha lhe concedeu, neste domingo, a maior vitória eleitoral desde o início da democratização do país em 1975. Nenhum dos seus antecessores eleitos pelo voto (Felipe Gonzáles, José Maria Aznar e José Luis Zapatero) conseguiram a maioria absoluta no Parlamento que V.Sa. conseguiu ontem. A Espanha deposita no Senhor e no seu governo uma grande esperança. Se o Senhor for capaz de responder a altura as grandes expectativas em si depositadas, seu nome ficará escrito para sempre nos livros da história de nosso país.

Neste momento a pergunta que todos os cidadãos da Espanha, e também do mundo, estão fazendo é : Rajoy poderá tirar a Espanha da crise em que ela se encontra?

Para enfrentar a crise é necessário, primeiro, ter um diagnóstico correto da mesma. Não se deixe iludir pelo discurso dos economistas ligados ao mercado financeiro, o qual atribui a responsabilidade da crise ao desajuste fiscal da Espanha. Na verdade o déficit público  elevado e o crescimento da dívida pública pós 2008 são o resultado, não a causa da crise.  Esta crise foi o resultado de um endividamento excessivo do setor privado, o qual alimentou uma gigantesca bolha no setor imobiliário, levando os preços dos imóveis a valores inimagináveis.  A contra-partida dessa bolha foi uma elevação bastante significativa dos preços dos bens non-tradeables na Espanha, induzindo assim uma fortissima apreciação da taxa real de câmbio.  Como resultado da apreciação do câmbio real, o déficit em conta-corrente passou de 3,5% do PIB em 2003 para 10% do PIB em 2007. No mesmo período, a dívida líquida do setor público como proporção do PIB passou de 41,38% para 26, 52%.

Após a falência do Lehman Brothers em setembro de 2008, não foi mais possível sustentar o jogo Ponzi no setor imobiliário espanhol: a combinação entre deterioração do estado de confiança e evaporação do crédito internacional derrubaram os preços dos imóveis, corroendo assim o valor dos ativos dos bancos, os quais reagiram a isso cortando as linhas de crédito dentro da Espanha. A contração no crédito levou a paralização do investimento imobiliário, razão principal pela qual a taxa de investimento caiu de 31% do PIB em 2007 para 23% do PIB em 2010. Uma queda de 8% da taxa de investimento em apenas 3 anos!!!. Se o governo do seu antecessor não tivesse reagido a isso por intermédio de um aumento do déficit público – o qual passou de 1,13% do PIB em 2007 para 9% do PIB em 2009, o efeito sobre o nível de atividade econômica na Espanha teria sido devastador. Zapatero pode ter errado em várias coisas, mas ele não estava errado ao tentar estimular a economia espanhola por intermédio do aumento do déficit fiscal.

Os números fiscais da Espanha, embora tenham se deteriorado muito rapidamente, ainda são melhores que os apresentados pelos Estados Unidos, Reino Unido e Japão, nenhum dos quais tem que pagar quase 7% a.a para refinanciar sua dívida pública nos mercados de títulos. Por que razão os mercados estão punindo a Espanha, mas não esses países?

A explicação para isso é que a Espanha não conta mais com a possibilidade de usar a taxa de câmbio para induzir uma recuperação do nível de atividade econômica por intermédio da promoção de exportações, e nem pode contar com um Banco Central para proporcionar liquidez para os títulos públicos. Se a Espanha não estivesse na área do Euro – ainda que dentro da União Européia – então o governo poderia contar com a política monetária para induzir uma depreciação da taxa nominal de câmbio e assim promover a desvalorização do câmbio real que nosso país necessita para estimular a demanda externa. Nesse cenário, um forte ajuste fiscal poderia ser feito sem promover um agravamento da recessão e, portanto, sem elevar a inadimplência dos mutuários, a qual agravaria ainda mais a situação do sistema bancário. Além disso, com um Banco Central capaz de atuar como emprestador de última instância, os mercados teriam a garantia de que a parcela da dívida denominada em nossa própria moeda jamais entraria em default. Nesse contexto, poderiamos refinanciar a dívida pública a uma taxa bem menor do que a que estamos fazendo atualmente, ainda que superior a taxa de juros paga pela Alemanha.

 Entretanto,  sair da área do Euro é algo que está fora de cogitação para os eleitores na Espanha. O povo espanhol quer pertencer a Europa, e quer que nosso país faça parte do primeiro time da área do Euro, ao lado da Alemanha e da França.   Isso significa que não podemos contar nem com o ajuste do câmbio nominal e nem com um emprestador de última instância doméstico para sair da crise.

Isso significa que o seu governo terá que promover uma forte redução dos salários nominais para restabelecer a competitividade externa da economia espanhola e assim acessar a demanda externa necessária para a reativação do crescimento econômico.  Sem o aumento da demanda externa, o ajuste fiscal que V.Sa pretende fazer será self defeating: o corte de gastos e aumento de impostos irá gerar uma queda do nível de atividade econômica, levando assim a um aumento do desemprego e, consequentemente, da inadimplência dos mutuários, agravando a situação patrimonial do sistema bancário, o que terminará por sinalizar para os investidores internacionais que o governo espanhol não terá outra opção se não fazer o bail out dos bancos, o que irá agravar – ao invés de melhorar – a situação fiscal da Espanha !!!!

A saída é adotar, portanto, um ajuste fiscal forte em conjunto com uma política de redução dos salários nominais. Ambas as políticas são dolorosas e extremamente impopulares, mas absolutamente necessárias para restabelecer o crescimento da economia espanhola.

A maioria absoluta que V.sa conseguiu nas eleições de ontem lhe permitem, se esse for o curso de ação escolhido, adotar a “estratégia do trator” e enfiar por guela abaixo da oposição as medidas que forem necessárias para tirar o país da crise. Este curso de ação é possível, mas não recomendável. Este é o momento de V.Sa. agir com magnanimidade e, tal como S.M. Juan Carlos I fez em 1975, convocar todas as forças políticas da Espanha – até mesmo os separatistas catalães e bascos – para um governo de união nacional no qual a responsabilidade pelas medidas impopulares recaia sobre os ombros de todos os partidos políticos.  Certamente que o PSOE e os separatistas esperam (e contam) que V.Sa adote a “estratégia do trator” para poder lhe impor o ônus político das medidas impopulares, mas necessárias, para tirar nosso país da crise. Se V.Sa surpreende-los com a proposta de um governo de União Nacional, não só os deixará numa saia justissima, como ainda ganhará o respeito de muitos espanhóis que não votaram no seu partido nas eleições de ontem.

É fundamental que neste momento histórico V.Sa. não se deixe levar pela direita do seu partido, a qual deseja se vingar do PSOE por ter reaberto as feridas da Guerra Civil Espanhola, que nosso Rei tão habilmente procurou cicatrizar com sua subida ao Trono em 1975. Sabemos que as atrocidades da guerra civil não foram responsabilidade apenas dos “franquistas” e que nesse quesito os “republicanos” rivalizaram em pé de igualdade com os primeiros. Mas a guerra civil acabou. Não permita que a sua vitória seja ocasião de revanchismo. A Espanha tem outras preocupações bem mais urgentes.

Desejo, do fundo da alma, sucesso ao seu governo.

Viva El Rey, Viva España.

José Luis Oreiro

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