Um risco que sobrevoa os brasileiros que recebem esta ajuda é “a aceleração da inflação que afeta os mais pobres”, ressaltou José Luis Oreiro, doutor em economia e especialista em políticas de distribuição de renda da Universidade de Brasília.

BRASÍLIA, 24 Out 2011 (AFP) -Por muito tempo, os brasileiros mais pobres foram os mais afetados durante as crises econômicas. Hoje, com a renda que recebem do Estado, milhões de brasileiros que viviam na extrema pobreza, transformaram-se em novos consumidores.

Atualmente 13 milhões de famílias, que vivem na pobreza ou extrema pobreza, recebem ajuda estatal de um plano de assistência. Este foi o sustento da esquerda a frente do país mais extenso da América do Sul e um dos mais vitoriosos na luta contra a miséria, segundo estudos.

“Com este dinheiro compro coisas, roupas, calçados, pago serviços, e o melhor: consegui comprar as telhas para colocar minha casa”, disse à AFP Maria Alves, de 45 anos, analfabeta e mãe de seis filhos.

As famílias selecionadas para o programa Bolsa Família, com rendimentos entre 39 e 78 dólares por pessoa, recebem do Estado em média 75 dólares mensais, mas a soma pode chegar a 135 dólares de acordo com o número de filhos, segundo números oficiais.

O Brasil, com mais de 190 milhões de habitantes, afirma ter tirado da pobreza mais de 30 milhões de pessoas durante os oito anos do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010).

Somente entre 2003 e 2008, a extrema pobreza foi reduzida de 12% para 4,8%.

O país conseguiu em cinco anos o que a ONU, em suas Metas para o Milênio, estipulou para 25, disse à AFP André Portela Souza, professor da Fundação Getúlio Vargas e autor do estudo Políticas de Distribuição de Renda no Brasil e Bolsa Família.

“Romper o círculo vicioso da pobreza” Construída na periferia de Brasília, a casa de Maria está longe de ter as comodidades da classe média, composta por um número crescente de brasileiros com renda entre 674 e 2.907 dólares ao mês e motor do crescimento do mercado interno.

Os 204 reais que recebe do Estado mais o que ganha como babá melhoraram sua vida e permitiram que sua filha Cleyde, a primeira na família, completasse o ensino médio.

“Agora quero estudar, mas ainda não posso porque a universidade privada é muito cara e na pública a seleção é muito rigorosa”, afirmou a jovem de 22 anos.

“A vantagem destas políticas é que procuram romper o círculo perverso da pobreza, quer dizer, que os filhos dos pobres continuem pobres”, disse Souza.

O grande desafio “no longo prazo é a educação dada as crianças e aos jovens, que precisa melhorar muito para cumprir suas funções”, acrescentou.

Os brasileiros mais pobres podem fazer o que era reservado as outras classes: consumir, explicou Souza.

Veroneide Lima de Santos, 28 anos, seis filhos e grávida de cinco meses, resume a diferença entre a extrema pobreza e a pobreza: “Agora compro coisas e sonho em ampliar a casa”, uma construção precária, mas onde não falta uma televisão, um aparelho de som e uma geladeira.

O programa Bolsa Família, a princípio voltado para a luta contra a fome, foi implementado no governo Lula em 2003 e ampliado por sua sucessora Dilma Rousseff. O governo quer erradicar a pobreza extrema, incorporando ao Bolsa Família 16 milhões de pessoas nos próximos quatro anos.

Em 2011, o Estado investiu neste plano quase 12.000 milhões de dólares, cerca de 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB).

Um risco que sobrevoa os brasileiros que recebem esta ajuda é “a aceleração da inflação que afeta os mais pobres”, ressaltou José Luis Oreiro, doutor em economia e especialista em políticas de distribuição de renda da Universidade de Brasília.

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